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Portugal
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Este velho mundo
Por Margarida Ribeiro*
Não chegam a ser 100 km entre o ir e o voltar.
Parte-se da confusão febril da cidade grande, de uma Lisboa
cosmopolita e tão caótica de urgências e acotovelos como qualquer outra
grande capital.
Estrada fora, chega-se ao sopé da Serra de Sintra. No cume
desenham-se as linhas rígidas da muralha moura e as cúpulas mágicas do
Palácio da Pena. Cascatas de verdes despenham-se encosta abaixo e
enroscam nas ramadas pináculos de palacetes bordados pelos requintes do séc.
XIX. Na vila aprumam-se as chaminés cónicas do palácio real
quinhentista.
Serra acima, a estrada mergulha em túneis de verdura da mata
cerrada que aqui e ali floresce em massas imensas de buganvílias rubras.
Mal escondidas por muros, protegidas pelas sombras da floresta, espreitam
fachadas apalaçadas através de janelas que sussurram histórias dos
amores românticos dos nossos bisavós.
Mais uns palmos de caminho e achamos, perdida num ermo
sombrio de fim do mundo, a antiga morada dos frades capuchos. Incrédulos,
percebemos as marcas da religiosidade ascética do séc. XVI na minúscula
pequenez de celas que se encolhem em nichos de rochas.
Ao longe, vislumbradas aqui e ali, as encostas torneadas da
serra que se desdobram aos nossos pés.
Agora a estrada desce. Há povoações brancas, aninhadas em
curvas, penduradas em ladeiras.
E subitamente, inteiro e avassalador, está à nossa frente o
Atlântico. O Cabo da Roca, extremo ocidental da Europa, é uma rocha que
se agiganta numa enorme e áspera arriba sobre as ondas.
Seguimos as linhas de nível da costa ainda enovelada nas
faldas da serra que se dilui aos poucos. Num recanto da estrada, pára-se
num moinho antigo. Já abriu velas ao vento, a mastigar trigo. Agora é um
bar-restaurante ajardinado em recantos íntimos de conversas com vista
para o mar.
Prossegue-se o caminho e a serra desmancha-se em planuras de
areia e água. As dunas douradas emolduram as ondas onde tremeluzem velas
brancas de pranchas dançarinas.
Mais tarde a arriba renasce levantada em muralha, arremetendo
contra as ondas numa atitude de guerreiro antigo, num último assomo de
valentia antes de se arredondar na baía de Cascais.
Percorre-se depois a marginal, bela e aristocrata, ao lado de
um mar que vai a caminho de se tornar rio em frente de Lisboa, de novo
Lisboa…
Menos de 100 quilómetros entre o partir e o voltar. Cidade e
serra, castelo e palácios, mar e serra, lugares de eremitas e velas de
barcos frementes no desejo de viagens.
Nem se sabe ao certo quantos mundos percorridos na riqueza
desta diversidade mágica que nasce das raízes do passado a emergir nas
belezas do presente.
É este o tesouro do nosso velho “Velho Mundo”.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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