Webjornal - Quinzenal - Edição 60 - Aracaju,   18 de julho a  01 de agosto  de 2004
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Portugal Online

Este velho mundo

Por Margarida Ribeiro*

Não chegam a ser 100 km entre o ir e o voltar.

Parte-se da confusão febril da cidade grande, de uma Lisboa cosmopolita e tão caótica de urgências e acotovelos como qualquer outra grande capital.

Estrada fora, chega-se ao sopé da Serra de Sintra. No cume desenham-se as linhas rígidas da muralha moura e as cúpulas mágicas do Palácio da Pena. Cascatas de verdes despenham-se encosta abaixo e enroscam nas ramadas pináculos de palacetes bordados pelos requintes do séc. XIX. Na vila aprumam-se as chaminés cónicas do palácio real quinhentista.

Serra acima, a estrada mergulha em túneis de verdura da mata cerrada que aqui e ali floresce em massas imensas de buganvílias rubras. Mal escondidas por muros, protegidas pelas sombras da floresta, espreitam fachadas apalaçadas através de janelas que sussurram histórias dos amores românticos dos nossos bisavós.

Mais uns palmos de caminho e achamos, perdida num ermo sombrio de fim do mundo, a antiga morada dos frades capuchos. Incrédulos, percebemos as marcas da religiosidade ascética do séc. XVI na minúscula pequenez de celas que se encolhem em nichos de rochas.

Ao longe, vislumbradas aqui e ali, as encostas torneadas da serra que se desdobram aos nossos pés.

Agora a estrada desce. Há povoações brancas, aninhadas em curvas, penduradas em ladeiras.

E subitamente, inteiro e avassalador, está à nossa frente o Atlântico. O Cabo da Roca, extremo ocidental da Europa, é uma rocha que se agiganta numa enorme e áspera arriba sobre as ondas.

Seguimos as linhas de nível da costa ainda enovelada nas faldas da serra que se dilui aos poucos. Num recanto da estrada, pára-se num moinho antigo. Já abriu velas ao vento, a mastigar trigo. Agora é um bar-restaurante ajardinado em recantos íntimos de conversas com vista para o mar.

Prossegue-se o caminho e a serra desmancha-se em planuras de areia e água. As dunas douradas emolduram as ondas onde tremeluzem velas brancas de pranchas dançarinas.

Mais tarde a arriba renasce levantada em muralha, arremetendo contra as ondas numa atitude de guerreiro antigo, num último assomo de valentia antes de se arredondar na baía de Cascais.

Percorre-se depois a marginal, bela e aristocrata, ao lado de um mar que vai a caminho de se tornar rio em frente de Lisboa, de novo Lisboa… 

Menos de 100 quilómetros entre o partir e o voltar. Cidade e serra, castelo e palácios, mar e serra, lugares de eremitas e velas de barcos frementes no desejo de viagens.

Nem se sabe ao certo quantos mundos percorridos na riqueza desta diversidade mágica que nasce das raízes do passado a emergir nas belezas do presente.

É este o tesouro do nosso velho “Velho Mundo”.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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