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Portugal
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Gerúndios
Por Margarida Ribeiro*
Usa-se um gerúndio em Portugal que contém todo um
fatalismo, toda uma forma pessimista de olhar o contorno dos nossos dias.
Pergunta-se a uma pessoa se está bem, e a resposta é na maior parte das
vezes um “Vai-se andando…” ou um “ Vou indo…”
Esta semi-frase admite que nada corre muito mal, mas
contém um lamento: nada do que muito se deseja
está a acontecer e de todo não se prevê que aconteça. Significa "Estou
a sobreviver…"
Este gerúndio é da cor baça de um
olhar sem encanto e sem esperança.
Há em Portugal um medo, atávico,
antigo e enraizado no mais profundo dos espíritos, de exprimir optimismo
ou de escolher para ser usufruída a parte boa do que se vive. É uma
superstição inconsciente, vinda do fundo dos tempos, que nos nossos
antepassados fazia temer a vingança dos deuses perante a alegria dos
humanos.
Vai-se por uma estrada no pleno verão e
no final da viagem sentiu-se a monotonia dos quilómetros, algumas covas
no alcatrão, o calor abafante, o ar seco da paisagem sedenta de chuva. Não
se olhou a beleza dourada dos castanhos entremeados do verde vivo de um ou
outro campo regado. Não se deu atenção à curva poética das montanhas
azuis a emoldurar o horizonte. Não se alimentou o gosto da espera pela
surpresa que cada curva da estrada presume. Não se viu o vôo das aves
que cruzaram os céus das terras que se caminharam.
Viver é como viajar. A cada momento
escolhemos a direcção em que olhamos e seguramos do que vemos o
sentimento que a nossa vontade prefere habitar.
Habitamos idéias e sentimentos. Como um
lar, as idéias e os sentimentos são o nosso tecto e a nossa concha. Mas
também os vestimos e deles fazemos a pele da alma. Também nos moldam.
Muitas vezes fazemos de nós uns
tristes, submissos, resignados gerúndios ambulantes…
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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