Webjornal - Quinzenal - Edição 62 - Aracaju,   15 a  29 de agosto  de 2004
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Portugal Online

Gerúndios

Por Margarida Ribeiro*

Usa-se um gerúndio em Portugal que contém todo um fatalismo, toda uma forma pessimista de olhar o contorno dos nossos dias. Pergunta-se a uma pessoa se está bem, e a resposta é na maior parte das vezes um “Vai-se andando…” ou um “ Vou indo…”

Esta semi-frase admite que nada corre muito mal, mas contém um lamento: nada do que muito se deseja está a acontecer e de todo não se prevê que aconteça. Significa "Estou a sobreviver…"

Este gerúndio é da cor baça de um olhar sem encanto e sem esperança.

Há em Portugal um medo, atávico, antigo e enraizado no mais profundo dos espíritos, de exprimir optimismo ou de escolher para ser usufruída a parte boa do que se vive. É uma superstição inconsciente, vinda do fundo dos tempos, que nos nossos antepassados fazia temer a vingança dos deuses perante a alegria dos humanos.

Vai-se por uma estrada no pleno verão e no final da viagem sentiu-se a monotonia dos quilómetros, algumas covas no alcatrão, o calor abafante, o ar seco da paisagem sedenta de chuva. Não se olhou a beleza dourada dos castanhos entremeados do verde vivo de um ou outro campo regado. Não se deu atenção à curva poética das montanhas azuis a emoldurar o horizonte. Não se alimentou o gosto da espera pela surpresa que cada curva da estrada presume. Não se viu o vôo das aves que cruzaram os céus das terras que se caminharam.

Viver é como viajar. A cada momento escolhemos a direcção em que olhamos e seguramos do que vemos o sentimento que a nossa vontade prefere habitar.

Habitamos idéias e sentimentos. Como um lar, as idéias e os sentimentos são o nosso tecto e a nossa concha. Mas também os vestimos e deles fazemos a pele da alma. Também nos moldam.

Muitas vezes fazemos de nós uns tristes, submissos, resignados gerúndios ambulantes…

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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