Nascemos espíritos dentro da casca que é
o nosso corpo. Nessa casca se abrem as nossas janelas para o mundo. Os
olhos, a audição e o tacto, o olfacto e o paladar, cada um deles é uma
fresta através da qual, com maior ou menor entusiasmo, o nosso espírito
absorve sensações e conhecimentos e se deixa esculpir pelo que vê,
toca, ouve, cheira ou prova. O prazer ou o desagrado, a adesão ou a
repugnância, a compreensão súbita ou a curiosidade atiçada, engendram
as nossas formas de ser e de
amar. Numa ida e vinda entre serem causa e conseqüência, entre criarem
conceitos e serem condicionados por eles, os nossos sentidos abastecem-nos
com os dados que moldam o nosso espírito - o nosso verdadeiro “eu” -
e que o enriquecem dia após dia.
Dá-nos também esta casca-corpo os mais perfeitos
dos nossos instrumentos e com eles a independência nos gestos de cada
dia. Os braços e as mãos para fazer, construir, transformar ou
acariciar. Pernas que nos transportam. Articulações milagrosas que nos
permitem os mais ínfimos e precisos movimentos.
Por vezes uma gestação mal sucedida, ou um
acidente, danificam este invólucro dentro do qual vivemos. Mas se
escapamos a essa má sorte, podemos sempre contar com os inevitáveis
danos trazidos pelo envelhecimento.
A pouco e pouco, ano após ano, o nosso espírito
vai ficando aprisionado por janelas que se semicerram, por membros que se
recusam aos gestos antigos. O corpo-casca fecha-se cada vez um pouco mais.
O receio de ser por ele atraiçoado impede-nos de aventuras a que antes
nos lançávamos sem temor. O nosso espírito, devagarinho, vai ficando
recluso dentro de uma casca que se fecha e se tolhe e vai perdendo os
estímulos que o alimentavam.
Há quem cedo se tenha sentido saciado com pouco e
não sofra de mais com uma quietude que lhe soa a um merecido sossego. Mas
para uma pessoa que da sua vida tenha feito uma actividade alegre e
intensa, para um espírito que sempre tenha vivido sôfrego de novas
sensações, esta previsão de um lento e inexorável encarceramento pode
tornar-se dizimadora.
Como escapar ao medo, ao terror, ao desespero
dessas paredes que se vão erguendo, da pequenez dessa cela que se
estreita?
Talvez não cedendo… Talvez recusando a
resignação.
Talvez descobrindo novos meios de olhar o que
ainda se pode ver, talvez inventando novas construções para fazer ao
jeito que ainda é permitido aos nossos dedos. Talvez debruçando-nos mais
do que nunca das janelas que ainda não se fecharam.
Talvez criando as condições perfeitas para as
felicidades possíveis, criando-as antes mesmo de serem urgentes, a tempo
de serem planeadas com a calma do sangue frio.
E, com toda a certeza, abrindo e mastigando o
espírito que entretanto em nós se fez rico e sumarento, colhendo-lhe as
sementes e semeando-as na terra da experiência acumulada - alimentando
plantas que antes nem nos lembráramos de fazer crescer.