Webjornal - Quinzenal - Edição 64 - Aracaju,   12 a 26  de setembro  de 2004
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Portugal Online

Dentro da nossa casca

Por Margarida Ribeiro*

Nascemos espíritos dentro da casca que é o nosso corpo. Nessa casca se abrem as nossas janelas para o mundo. Os olhos, a audição e o tacto, o olfacto e o paladar, cada um deles é uma fresta através da qual, com maior ou menor entusiasmo, o nosso espírito absorve sensações e conhecimentos e se deixa esculpir pelo que vê, toca, ouve, cheira ou prova. O prazer ou o desagrado, a adesão ou a repugnância, a compreensão súbita ou a curiosidade atiçada, engendram as nossas formas de ser e de amar. Numa ida e vinda entre serem causa e conseqüência, entre criarem conceitos e serem condicionados por eles, os nossos sentidos abastecem-nos com os dados que moldam o nosso espírito - o nosso verdadeiro “eu” - e que o enriquecem dia após dia.

Dá-nos também esta casca-corpo os mais perfeitos dos nossos instrumentos e com eles a independência nos gestos de cada dia. Os braços e as mãos para fazer, construir, transformar ou acariciar. Pernas que nos transportam. Articulações milagrosas que nos permitem os mais ínfimos e precisos movimentos.

Por vezes uma gestação mal sucedida, ou um acidente, danificam este invólucro dentro do qual vivemos. Mas se escapamos a essa má sorte, podemos sempre contar com os inevitáveis danos trazidos pelo envelhecimento.

A pouco e pouco, ano após ano, o nosso espírito vai ficando aprisionado por janelas que se semicerram, por membros que se recusam aos gestos antigos. O corpo-casca fecha-se cada vez um pouco mais. O receio de ser por ele atraiçoado impede-nos de aventuras a que antes nos lançávamos sem temor. O nosso espírito, devagarinho, vai ficando recluso dentro de uma casca que se fecha e se tolhe e vai perdendo os estímulos que o alimentavam.

Há quem cedo se tenha sentido saciado com pouco e não sofra de mais com uma quietude que lhe soa a um merecido sossego. Mas para uma pessoa que da sua vida tenha feito uma actividade alegre e intensa, para um espírito que sempre tenha vivido sôfrego de novas sensações, esta previsão de um lento e inexorável encarceramento pode tornar-se dizimadora.

Como escapar ao medo, ao terror, ao desespero dessas paredes que se vão erguendo, da pequenez dessa cela que se estreita?

Talvez não cedendo… Talvez recusando a resignação.

Talvez descobrindo novos meios de olhar o que ainda se pode ver, talvez inventando novas construções para fazer ao jeito que ainda é permitido aos nossos dedos. Talvez debruçando-nos mais do que nunca das janelas que ainda não se fecharam.

Talvez criando as condições perfeitas para as felicidades possíveis, criando-as antes mesmo de serem urgentes, a tempo de serem planeadas com a calma do sangue frio.

E, com toda a certeza, abrindo e mastigando o espírito que entretanto em nós se fez rico e sumarento, colhendo-lhe as sementes e semeando-as na terra da experiência acumulada - alimentando plantas que antes nem nos lembráramos de fazer crescer.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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