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Quando o tempo é de partir
Por Margarida Ribeiro*
Chega às vezes, para muitos de nós, um momento de
mudar o rumo da vida. Um momento em que é preciso partir para algures,
seja por querermos ir, seja por sermos obrigados a partir. Um momento em
que temos de deixar o lugar onde estávamos porque já não podemos ou não
queremos mais habitá-lo.
E temos de deixar para trás – porque toda a
escolha exige uma perda – uma boa parte do que acumulamos.
É preciso então que nos sentemos diante dos nossos
armários escancarados, das nossas pilhas de coisas inúteis, embora
amadas, dos nossos objectos habituais que até àquele dia tomávamos como
indispensáveis - e decidir o que levar.
Pomo-nos a escolher. Tanta coisa tem de ficar de
lado… Dói escolher. Dói perder.
Mas é necessário que demos a nós mesmos tempo
para preparar a mochila.
Tempo para uma ou outra lágrima de saudade
prevista, tempo para nos despedirmos dos gestos que os nossos hábitos
tinham decorado, tempo para descobrir o que é realmente imprescindível e
aquilo que pesa sem ser necessário.
O caminho é longo. É preciso poupar energia. E o
indispensável é realmente muito pouco.
É durante esse tempo que nos preparamos.
Projectamos a viagem.
Projectamo-nos a nós mesmos no futuro. E ao
desenhar o esboço do nosso próprio vulto no papel em branco dos amanhãs,
descobrimos, mais hora menos hora, que o que largamos não nos faz falta.
Porque o futuro inteiro não está no que levamos. O futuro inteiro está
no que somos.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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