Webjornal - Quinzenal - Edição 65 - Aracaju,   26  de setembro a 10 de outubro  de 2004
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Portugal Online

Quando o tempo é de partir

Por Margarida Ribeiro*

Chega às vezes, para muitos de nós, um momento de mudar o rumo da vida. Um momento em que é preciso partir para algures, seja por querermos ir, seja por sermos obrigados a partir. Um momento em que temos de deixar o lugar onde estávamos porque já não podemos ou não queremos mais habitá-lo.

E temos de deixar para trás – porque toda a escolha exige uma perda – uma boa parte do que acumulamos.

É preciso então que nos sentemos diante dos nossos armários escancarados, das nossas pilhas de coisas inúteis, embora amadas, dos nossos objectos habituais que até àquele dia tomávamos como indispensáveis - e decidir o que levar. 

Pomo-nos a escolher. Tanta coisa tem de ficar de lado… Dói escolher. Dói perder.

Mas é necessário que demos a nós mesmos tempo para preparar a mochila.

Tempo para uma ou outra lágrima de saudade prevista, tempo para nos despedirmos dos gestos que os nossos hábitos tinham decorado, tempo para descobrir o que é realmente imprescindível e aquilo que pesa sem ser necessário.

O caminho é longo. É preciso poupar energia. E o indispensável é realmente muito pouco.

É durante esse tempo que nos preparamos. Projectamos a viagem. 

Projectamo-nos a nós mesmos no futuro. E ao desenhar o esboço do nosso próprio vulto no papel em branco dos amanhãs, descobrimos, mais hora menos hora, que o que largamos não nos faz falta. Porque o futuro inteiro não está no que levamos. O futuro inteiro está no que somos.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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