Webjornal - Quinzenal - Edição 66 - Aracaju, 10 a 24 de outubro  de 2004
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Portugal Online

Silêncios

Por Margarida Ribeiro*

No meio da balbúrdia das nossas vidas, já quase não sabemos o que é o silêncio. De tão desconhecido, acontece mesmo haver quem o tema como se teme um vazio, quem o sinta como um buraco negro em que se pára de existir.

Teme-se o silêncio de quando se está sozinho. Liga-se o rádio, a televisão, mesmo sem se dar atenção a nada do que ali se diz, só para se estilhaçar o silêncio.

Mas também muitas vezes o tememos no meio de uma conversa.

Se num grupo grande perpassa um breve e inesperado segundo sem palavras, surpreendemo-nos. Aqui em Portugal, perante esse súbito espaço esvaziado de sons, quase sempre se ouve o dizer antigo para um tal fenómeno: “passou um anjo”. Só o sobrenatural parece adequar-se a esse momento de aparente não-ser.

Mas mais nos aflige se sucede no meio de uma conversa que tenha alguma formalidade. Quase se pode sentir o ranger de rodas a girar em falso no cérebro de cada um, procurando - depressa, depressa - uma frase, uma palavra, que quebre aquele espaço assustadoramente oco. Em último caso, comenta-se o calor, ou o frio, o tardar da Primavera ou do Inverno – como quem se agarra a uma tábua enquanto melhor ideia não aparece transformada em navio de salvamento.

Mas bem piores do que estes são os silêncios que, em vez de assustar, ou de ser estranhados, se tornaram resignadamente aceites entre duas pessoas. Esses não se fazem apenas da ausência das palavras. Penetraram de tal modo na forma de estar com o outro que persistem dentro das palavras que se vão dizendo. Mais do que a mudez da voz, são a mudez da alma entre um alguém e outro alguém.

De todos nós, felizes são os que sabem e podem gozar a paz dos silêncios vivos.

Estradas abertas aos pensamentos, se estamos sós, prolongamento calmo de meditações partilhadas, se estamos com alguém que os sabe entender, ou apenas aceitação tranquila do espaço que cada um habita sozinho dentro de si mesmo - os silêncios deslizam então serenos, tranqüilos e esplendidamente cheios.

Talvez – talvez…  – cada um de nós mereça o silêncio que lhe cabe.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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