Webjornal - Quinzenal - Edição 68 - Aracaju,   07 a 21 de novembro  de 2004
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Portugal Online

Lápis na areia

Por Margarida Ribeiro*

Definitivamente, não devia ali estar. Um lápis na areia da praia – não tem cabimento. Pode uma pessoa pôr-se a pensar com afinco, que não há de onde venha uma razão plausível para tal incongruência.

Perdido, sim...  Mas por quem?

Crianças que se prezem não fazem riscos quando podem desmanchar castelos, chapinhar na água, atirar-se em gargalhadas para a moleza do chão ou para a barriga dos pais. E os adultos não trazem lápis consigo, preferem bics ou parkers, depende das posses e do status a manter. Podia ainda pôr-se a hipótese da passagem efémera de uma turista japonesa, daquelas que desenham compulsivamente castelos e moinhos de vento. Mas as japonesas... o que lhes interessaria ali? O areal deserto, estendido, monótono e longo, esvaído num horizonte de quilómetros? O mar? Mas o mar é sempre mar, no Japão ou na Europa! Nem as dunas, quase fugazes, tinham envergadura ou pitoresco para lhes merecer atenção.

Incompreensível. Um lápis na areia, dá que pensar.

Sentei-me ali, intrigada, perdida em cogitações. Queria ao menos achar uma conjectura racional, uma suposição coerente. Não gosto de enigmas por resolver. Ou eu venço o desafio, ou o desafio me vence a mim   – e detesto ser vencida.

Os minutos começaram então a deslizar, vagarosos, sem história. O tempo, quase quieto, adormecia . A água enrolava-se na espuma das ondas. O vento dava curvas suaves às ervinhas ralas das dunas. De inesperado, só um ou outro vulto de gaivota a riscar o céu esbranquiçado. A imobilidade daquele mundo começava a entorpecer-me os pensamentos. E o lápis continuava pousado na areia, e a areia continuava...

Ah! Finalmente! Claro... evidente! Como é que não tinha visto antes?

Não era o lápis que estava na areia.

Era a areia que escorria do lápis!

Aliviada, agarrei na folha de papel, dobrei a praia em quatro e meti-a debaixo da secretária, no cesto de papéis. O lápis, esse, guardei-o comigo. Nunca se sabe quando se pode precisar de um banho de sol.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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