|
Portugal
Online
Lápis na areia
Por Margarida Ribeiro*
Definitivamente,
não devia ali estar. Um lápis na areia da praia – não tem cabimento.
Pode uma pessoa pôr-se a pensar com afinco, que não há de onde venha
uma razão plausível para tal incongruência.
Perdido, sim...
Mas por quem?
Crianças que se prezem não
fazem riscos quando podem desmanchar castelos, chapinhar na água,
atirar-se em gargalhadas para a moleza do chão ou para a barriga dos
pais. E os adultos não trazem lápis consigo, preferem bics ou parkers,
depende das posses e do status a manter. Podia ainda pôr-se a hipótese
da passagem efémera de uma turista japonesa, daquelas que desenham
compulsivamente castelos e moinhos de vento. Mas as japonesas... o que
lhes interessaria ali? O areal deserto, estendido, monótono e longo, esvaído
num horizonte de quilómetros? O mar? Mas o mar é sempre mar, no Japão
ou na Europa! Nem as dunas, quase fugazes, tinham envergadura ou pitoresco
para lhes merecer atenção.
Incompreensível. Um lápis na
areia, dá que pensar.
Sentei-me ali, intrigada, perdida
em cogitações. Queria ao menos achar uma conjectura racional, uma suposição
coerente. Não gosto de enigmas por resolver. Ou eu venço o desafio, ou o
desafio me vence a mim –
e detesto ser vencida.
Os minutos começaram então a
deslizar, vagarosos, sem história. O tempo, quase quieto, adormecia . A
água enrolava-se na espuma das ondas. O vento dava curvas suaves às
ervinhas ralas das dunas. De inesperado, só um ou outro vulto de gaivota
a riscar o céu esbranquiçado. A imobilidade daquele mundo começava a
entorpecer-me os pensamentos. E o lápis continuava pousado na areia, e a
areia continuava...
Ah! Finalmente! Claro...
evidente! Como é que não tinha visto antes?
Não era o lápis que estava na
areia.
Era a areia que escorria do lápis!
Aliviada, agarrei na folha de
papel, dobrei a praia em quatro e meti-a debaixo da secretária, no cesto
de papéis. O lápis, esse, guardei-o comigo. Nunca se sabe quando se pode
precisar de um banho de sol.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
|