Webjornal - Quinzenal - Edição 69 - Aracaju,  21 de novembro a  05 de dezembro  de 2004
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Portugal Online

Pontos de vista

Por Margarida Ribeiro*

"O espaço e o tempo são formas de pensamento, não condições sob as quais vivamos" – Einstein

Era uma vez um tempo em que não havia relógios. Olhava-se para as sombras das árvores e calculava-se em que largo momento do dia se estava.

Não havia minutos. As horas eram espaços alargados pela imprecisão. Por mais que as leis sobre o movimento aparente do Sol permitissem ler uma sombra que marcava um certo ponto de uma pedra, não era possível trazer um relógio de sol preso ao pulso.

Trabalhava-se no campo enquanto havia luz do dia e, à noite, em casa, enquanto os olhos eram capazes de se contentar com a penumbra de um lume aceso. E os encontros eram marcados com espaço para a espera tranqüila, sem a angústia dos segundos a passar.

A era industrial trouxe os ponteiros dos relógios de pulso e os horários precisos. Os meios de transporte puseram a obrigação de um sem número de destinos nos nossos dias. A Internet acabou de vez com o pretexto para aquele compasso de espera entre a pergunta e a reposta que o correio de antigamente permitia. Os computadores pessoais levam-nos o trabalho ao sofá da sala de estar. A luz eléctrica tirou-nos a desculpa para descansarmos quando escurece. A televisão roubou-nos as conversas dos serões e escondeu-nos as estrelas.

Mas por outro lado…

Era uma vez um tempo em que não havia relógios. Não havia minutos. Trabalhava-se de sol a sol no campo e, à noite, em casa, os olhos eram obrigados a coser ou ler à luz trémula de candeias. Marcar um encontro com alguém era ter de dispor de paciência, tempo e sorte. Mal se conhecia o mundo porque qualquer viagem exigia, além de coragem, um imenso tempo. Muita gente viveu e morreu sem nunca ultrapassar um raio de 50 km.

A era industrial trouxe os ponteiros dos relógios e os horários precisos. Os meios de transporte e as estradas passaram a permitir-nos mil destinos, se não feitos, ao menos sonhados com direito à esperança. A Internet diminuiu a angústias da espera das notícias, levou-nos a manter ou achar amigos e trouxe-nos o direito a estar um pouco em todo o lado. Os computadores pessoais permitem-nos trabalhar no conforto do sofá. A electricidade encheu de dia, de música e de imagens as nossas noites. 

E escolher um ou outro modo de ver depende da disposição com que acordamos de manhã…

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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