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Pontos de vista
Por Margarida Ribeiro*
"O
espaço e o tempo são formas de pensamento, não condições sob as quais
vivamos" –
Einstein
Era
uma vez um tempo em que não havia relógios. Olhava-se para as sombras
das árvores e calculava-se em que largo momento do dia se estava.
Não
havia minutos. As horas eram espaços alargados pela imprecisão. Por mais
que as leis sobre o movimento aparente do Sol
permitissem ler uma sombra que marcava um certo ponto de uma pedra, não
era possível trazer um relógio de sol preso ao pulso.
Trabalhava-se
no campo enquanto havia luz do dia e, à noite, em casa, enquanto os olhos
eram capazes de se contentar com a penumbra de um lume aceso. E os
encontros eram marcados com espaço para a espera tranqüila, sem a angústia
dos segundos a passar.
A
era industrial trouxe os ponteiros dos relógios de pulso e os horários
precisos. Os meios de transporte puseram a obrigação de um sem número
de destinos nos nossos dias. A Internet acabou de vez com o pretexto para
aquele compasso de espera entre a pergunta e a reposta que o correio de
antigamente permitia. Os computadores pessoais levam-nos o trabalho ao sofá
da sala de estar. A luz eléctrica tirou-nos a desculpa para descansarmos
quando escurece. A televisão roubou-nos as conversas dos serões e
escondeu-nos as estrelas.
Mas
por outro lado…
Era uma
vez um tempo em que não havia relógios. Não havia minutos. Trabalhava-se
de sol a sol no campo e, à noite, em casa, os olhos eram obrigados a
coser ou ler à luz trémula de candeias. Marcar um encontro com alguém
era ter de dispor de paciência, tempo e sorte. Mal se conhecia o mundo
porque qualquer viagem exigia, além de coragem, um imenso tempo. Muita
gente viveu e morreu sem nunca ultrapassar um raio de 50 km.
A
era industrial trouxe os ponteiros dos relógios e os horários precisos.
Os meios de transporte e as estradas passaram a permitir-nos mil destinos,
se não feitos, ao menos sonhados com direito à esperança. A Internet
diminuiu a angústias da espera das notícias, levou-nos a manter ou achar
amigos e trouxe-nos o direito a estar um pouco em todo o lado. Os
computadores pessoais permitem-nos trabalhar no conforto do sofá. A
electricidade encheu de dia, de música e de imagens as nossas
noites.
E
escolher um ou outro modo de ver depende da disposição com que acordamos
de manhã…
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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