Webjornal - Quinzenal - Edição 70 - Aracaju,  05 a 19 de dezembro  de 2004
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Portugal Online

Asas de ir e voltar

Por Margarida Ribeiro*

Os sentimentos andam sempre a esvoaçar dentro das pessoas com asas de ir e de voltar. Há os bons e os menos bons. E os maus. E os que são belos. Todos esvoaçam escondidos, alguns deles ignorados até por quem os guarda dentro de si.

Espanta-se às vezes quem os sente aflorar subitamente à tona de si mesmo. Não raro, quando sabe e quer dominar-se, fecha-lhes as portas e obriga-os a ficar no escuro de um espaço, onde lhes sente o bater das asas, mas não os deixa ser vistos. Se outro alguém os suspeita, muda-lhes o nome, ou faz crer que a suspeição alheia os inventou.

Se são assustadores chega mesmo a fechá-los em gaiolas profundas, tapa-os com a terra do esquecimento e nega-os sem mentir, com a convicção honesta de quem nunca os avistou.

Em certos momentos aterradores, um desses sentimentos escapa-se e lança um voo intempestivo para fora da sua prisão. Desorientado, voando sem saber voar, sem perceber como existe nem de onde vem, atira-se de encontro ao primeiro alvo que encontra. Não é reconhecido por quem o sente, menos ainda entendido por quem lhe sofre o ataque de garras em riste.

Mas a maior parte destas asas de sentir anda à solta, no esvoaçar levezinho de pássaros que esperam um destino. São muitos e são suaves. De vez em quando são atraídos por uma frase lida, uma recordação que aflora, uma frase ouvida, um aceno de outro sentimento de outro alguém, que os chama. Saem do espaço fechado da pessoa onde existem escondidos e pousam-lhe no olhar, num sorriso, num gesto ou numa lágrima. São uns mais efémeros, outros mais constantes, mas sempre vão e regressam ao peito de onde partiram.

Raro e mágico é o momento em que um deles encontra uma pessoa onde pode fazer um lar. Mágico é o momento em que um sentimento pousa nos ramos do estar e do ser de outro alguém, e ali fica, e ali faz o ninho.

Então, feliz, não regressa. E quem o gerou fica ligado a quem o recebeu pelos laços do sentir.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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