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Asas de ir e voltar
Por Margarida Ribeiro*
Os sentimentos andam sempre a esvoaçar
dentro das pessoas com asas de ir e de voltar. Há os bons e os menos
bons. E os maus. E os que são belos. Todos esvoaçam escondidos, alguns
deles ignorados até por quem os guarda dentro de si.
Espanta-se às vezes quem os sente aflorar
subitamente à tona de si mesmo. Não raro, quando sabe e quer dominar-se,
fecha-lhes as portas e obriga-os a ficar no escuro de um espaço, onde
lhes sente o bater das asas, mas não os deixa ser vistos. Se outro
alguém os suspeita, muda-lhes o nome, ou faz crer que a suspeição
alheia os inventou.
Se são assustadores chega mesmo a fechá-los em
gaiolas profundas, tapa-os com a terra do esquecimento e nega-os sem
mentir, com a convicção honesta de quem nunca os avistou.
Em certos momentos aterradores, um desses
sentimentos escapa-se e lança um voo intempestivo para fora da sua prisão.
Desorientado, voando sem saber voar, sem perceber como existe nem de onde
vem, atira-se de encontro ao primeiro alvo que encontra. Não é
reconhecido por quem o sente, menos ainda entendido por quem lhe sofre o
ataque de garras em riste.
Mas a maior parte destas asas de sentir anda à
solta, no esvoaçar levezinho de pássaros que esperam um destino. São
muitos e são suaves. De vez em quando são atraídos por uma frase lida,
uma recordação que aflora, uma frase ouvida, um aceno de outro
sentimento de outro alguém, que os chama. Saem do espaço fechado da
pessoa onde existem escondidos e pousam-lhe no olhar, num sorriso, num
gesto ou numa lágrima. São uns mais efémeros, outros mais constantes,
mas sempre vão e regressam ao peito de onde partiram.
Raro e mágico é o momento em que um deles encontra
uma pessoa onde pode fazer um lar. Mágico é o momento em que um
sentimento pousa nos ramos do estar e do ser de outro alguém, e ali fica,
e ali faz o ninho.
Então,
feliz, não regressa. E quem o gerou fica ligado a quem o recebeu pelos laços
do sentir.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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