Webjornal - Quinzenal - Edição 71 - Aracaju, 19 de dezembro  de 2004 a 02 de janeiro de 2005
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Portugal Online

Brincadeira com palavras

Por Margarida Ribeiro*

Há muito tempo – não naquele em que os animais falavam, mas há bastante tempo - era costume as crianças aprenderem a pedir com um “se faz favor” e a agradecer com um “obrigado”. As fórmulas eram consideradas tão indispensáveis a uma boa convivência que se aprendia a dizê-las mesmo às pessoas a quem se estava a pagar o serviço pedido. E ninguém se lembrava de questionar as palavras “favor” ou “obrigado”, como não se lembraria de questionar as palavras “casa”, “cão” ou “árvore”.

Entretanto passaram-se as décadas, e … já lá dizia Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. As tais palavrinhas de pedido e agradecimento deixaram de ser bem vistas. Tornaram-se raras.

E talvez por isso, talvez por – ouvidas ou ditas – já soarem a coisa estranha e inusitada, damos connosco a pensá-las e a ver nascer as interrogações acerca delas. Especialmente o “obrigado”, com o seu feminino “obrigada “ ao ser dito por uma mulher, causa sérias dúvidas a quem nele pousa a atenção.

É óbvio… Se nos pomos a pensar nisso, estragamos tudo. Perdemos a antiga inconsciência do peso daquela expressão e ela abate-se sobre nós como uma verdade recém-descoberta. 

Quem recebe fica obrigado… à gratidão. À retribuição. Fica com uma espécie de débito que lhe dá a obrigação de um futuro pagamento. Por isso se diz “obrigado”.

Nestes tempos de crise económica e egoísmos sem freio, nesta época virada a todos os abusos, é boa ideia ir em busca de uma maneira menos endividante de receber um carinho ou uma atenção de alguém.

Valha-nos então uma expressão velhinha, portuguesa dos 4 costados, macia de tão recheada de bons e generosos sentimentos - “Bem haja”.

Em troca do Bem que me deu, que quem mo deu possa haver (“haver” com o sentido de ter) um qualquer Bem para si.

Fica, além de tudo, muito mais barato. Porque esta é quando muito uma dívida da divina providência, entregue à responsabilidade de uns vagos deuses chamados Sorte ou Destino. Tal qual a outra antiga fórmula de agradecimento “Deus lhe pague”. Ambas devem voltar depressa ao comum dos dizeres.

Agradecemos do mesmo modo e ficamos com muito menos juros a pagar.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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