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Brincadeira com palavras
Por Margarida Ribeiro*
Há
muito tempo – não naquele em que os animais falavam, mas há bastante
tempo - era costume as crianças aprenderem a pedir com um “se faz
favor” e a agradecer com um “obrigado”. As fórmulas eram
consideradas tão indispensáveis a uma boa convivência que se aprendia a
dizê-las mesmo às pessoas a quem se estava a pagar o serviço pedido. E
ninguém se lembrava de questionar as palavras “favor” ou
“obrigado”, como não se lembraria de questionar as palavras
“casa”, “cão” ou “árvore”.
Entretanto
passaram-se as décadas, e … já lá dizia Camões, “mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades”. As tais palavrinhas de pedido e
agradecimento deixaram de ser bem vistas. Tornaram-se raras.
E
talvez por isso, talvez por – ouvidas ou ditas – já soarem a coisa
estranha e inusitada, damos connosco a pensá-las e a ver nascer as
interrogações acerca delas. Especialmente o “obrigado”, com o seu
feminino “obrigada “ ao ser dito por uma mulher, causa sérias dúvidas
a quem nele pousa a atenção.
É
óbvio… Se nos pomos a pensar nisso, estragamos tudo. Perdemos a antiga
inconsciência do peso daquela expressão e ela abate-se sobre nós como
uma verdade recém-descoberta.
Quem
recebe fica obrigado… à gratidão. À retribuição. Fica com uma espécie
de débito que lhe dá a obrigação de um futuro pagamento. Por isso se
diz “obrigado”.
Nestes
tempos de crise económica e egoísmos sem freio, nesta época virada a
todos os abusos, é boa ideia ir em busca de uma maneira menos endividante
de receber um carinho ou uma atenção de alguém.
Valha-nos
então uma expressão velhinha, portuguesa dos 4 costados, macia de tão
recheada de bons e generosos sentimentos - “Bem haja”.
Em
troca do Bem que me deu, que quem mo deu possa haver (“haver” com o
sentido de ter) um qualquer Bem para si.
Fica,
além de tudo, muito mais barato. Porque esta é quando muito uma dívida
da divina providência, entregue à responsabilidade de uns vagos deuses
chamados Sorte ou Destino. Tal qual a outra antiga fórmula de
agradecimento “Deus lhe pague”. Ambas devem voltar depressa ao comum
dos dizeres.
Agradecemos
do mesmo modo e ficamos com muito menos juros a pagar.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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