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Portugal
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Viajando dentro de um olhar
Por Margarida Ribeiro*

Em
Coimbra, na velha Sé do tempo da fundação da nacionalidade, há um retábulo
renascentista, ali mandado colocar 400 anos depois por um bispo de nome D.
Jorge de Almeida, irmão de um dos primeiros vice-reis da Índia.
Nos seus
requintes de formas góticas esbraseadas de ouros e alegradas de cores a
contradizer a severidade românica da longa nave despida de ornamentos, não
se lhe sente, apesar de tudo, o anacronismo. Os artistas flamengos
moldaram-lhe a forma de maneira tão cuidadosa que ele se aninha e se
recolhe na forma côncava do altar-mor como numa concha onde tivesse
naturalmente nascido.
Mas olhado
mais de perto confunde o turista desprevenido, que se perde na confusão
das múltiplas imagens entremeadas por traços de ogivas, arcos que se
ramificam, pedestais com recortes floreados, toda uma profusa decoração
em talha de madeira dourada entre a qual refulgem pequenas estrelas sobre
o fundo azul. Quase naturalmente, passada a admiração inicial, o olhar
desiste de perscrutar os inúmeros pormenores e se afasta, quase
enfartado, para outras belezas mais despojadas da velha igreja.
Para o
entender, é preciso ter a sorte de o ver na companhia do Dr. Pato de
Macedo. Este professor da Universidade de Coimbra estudou cuidadosamente
cada detalhe do retábulo e oferece-nos dele uma leitura que o torna,
subitamente, num manancial de histórias dentro da História.
Percebemos
ali a orgulhosa assinatura do Bispo D. Jorge no seu brasão pousado sob
cada uma das duas imagens-fulcro de conjunto, Cristo crucificado ladeado
pelos bom e mau ladrão e a Virgem Maria subindo ao céu sobre uma lua
crescente, entre apóstolos gesticulantes dum susto maravilhado.
Reconhecemos
um a um os santos pelos atributos que os distinguem. S. Pedro com as suas
chaves, S. Paulo, de fronte calva. Os Evangelistas alinham-se em espaços
próprios. S. Mateus molha a pena no tinteiro que um anjo lhe oferece. S.
Lucas, o retratista da Virgem, é servido por um escravo negro que lhe
prepara as tintas. S. Marcos escreve o evangelho junto do seu leão alado.
S. João tem por companhia a águia que assenta as patas no livro.
S. Damião e
S. Cosme, os santos médicos, seguram o frasco dos unguentos e o vaso de
urinas, onde os médicos medievais achavam poder diagnosticar até os
males de amor. Se estes santos ali estão é porque na altura grassava a
peste. Como o Dr. Pato de Macedo refere num sorriso, na Idade Média, os
santos eram a Segurança Social de pobres e de ricos.
S. Miguel
Arcanjo - padrinho onomástico do Bispo que mandou construir a Sé e
reverenciado como especial protector por D. Afonso Henriques, que do cimo
da colina do castelo vigiou a construção - traz consigo a reverência de
D. Jorge pelos que o precederam no amor por aquele templo.
No cimo, no
espaço que se arredonda dentro da semi-esfera da cúpula, abre-se o epílogo
fulgurante em que Cristo-Juiz domina o espaço rodeado por anjos que
seguram os instrumentos da Paixão. Ao fundo, na predela, espaço que
sublinha a parte inferior de qualquer retábulo, a fantasia explode em
sereias, dragões, cavaleiros, ursos e porcos, macacos, monstros e homens
selvagens - seres defensores do espaço sagrado.
Sem que nos
apercebamos, passa-se tempo que não sentimos e ali estamos a folhear as páginas
de uma imagem que se nos revela linha a linha. Olhamos o ouro da madeira
que, agora um pouco baço, já refulgiu em brilhos sob a luz de archotes e
de velas, e compreendemos-lhe a força de deslumbramento para quem a
olhava no escuro da igreja e da religiosidade obsessiva do século XVI.
Entendemos-lhe
a riqueza e apreendemo-lo como uma declaração de magnificência, de força e de
glória de um bispo amante das artes. Lemos-lhe as entrelinhas e
imaginamos como essa leitura de imagens sem palavras foi aula de religião
para um povo iletrado e aturdido pela sabedoria de um clero poderoso.
Assim a Arte
se faz testemunho da História. E é assim que, olhada por quem a sabe
ver, nos dá muito mais do que um maior ou menor prazer estético. Dás-nos
uma visão do mundo que a produziu. Antes de que um destes dias os
cientistas nos permitam viajar no tempo, a Arte descodificada leva-nos,
incólumes, ao passado que a concebeu.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
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