|
Portugal
Online
Paredes da liberdade
Por Margarida Ribeiro*
Na fila, à espera da sua vez de pagar as
compras empilhadas no carrinho do supermercado, uma mulher queixava-se. De
malas preparadas, tivera de as desfazer para ficar em casa em vez de sair
para a pequena viagem de fim-de-semana, antes ansiosamente esperada. O cão
adoecera e não lhe bastavam os cuidados do vizinho a quem não podia
pedir mais do que a simpatia costumada de alimentar o animal. Havia remédios
a dar a horas certas, atenção redobrada a ter, talvez uma nova ida de
urgência ao veterinário….
Que remédio senão desistir do passeio?…
E a amiga, que a ouvira atenta, replicou numa voz
carregada e endurecida de certezas: “Por essas e por outras, eu não
quero animais. Os animais são uma prisão.”
Ora acontece que isto é real. Os animais são uma
prisão. Até as plantas que é preciso regar e adubar são uma prisão.
Para não falar dos amigos carentes, ou dos filhos ainda crianças.
Todo o ser vivo que de nós depende, e quantas vezes
também as coisas materiais que nos exigem manutenção, são grades de um
cativeiro em que o mais fraco prende o forte. Quem protege, sustenta,
cuida, crê-se senhor de quem na verdade o acorrenta.
E se ninguém é obrigado a ter plantas, animais,
filhos ou amigos, só uma razão pode levar a aceitar esses e outros
semelhantes laços de sujeição. Seja o prazer de ver uma flor despontar,
o carinho alegre de um cão que saltita de alegria ao nos rever, a alegria
da partilha em conversas de fim de tarde, ou o gosto de nos sentirmos
prolongados nos seres que gerámos - é sempre um afecto, o metal de que
se constrói a algema.
Não há liberdade total quando há um afecto. Mesmo
o amigo independente que não nos cobra ajudas ou o filho criado que
partiu para a sua própria vida, mesmo esses nos sujeitam pela certeza de
que, numa hora em que precisem de nós, ali estaremos, haja o que houver,
desfazendo quaisquer malas prontas para quaisquer viagens - para ficar e
lhes ser presença.
Nem sempre no dia a dia temos a percepção das
linhas que nos enleiam quando aceitamos laços. Tiramos partido das
alegrias e dos bons momentos e sentimo-nos senhores de nós mesmos. Não
temos a noção de estar a ser enredados numa teia de pequenas amarras.
Um dia, porém - seja por um apelo inesperado que
nos obriga a ficar em vez de partir, seja apenas por uma estranha e
desagradável sensação de culpa ao premeditarmos uma ausência -
acordamos de um qualquer sono como gullivers em Lilipute, aprisionados
pelos ténues e finos cordões de bem-querer que o afecto foi tecendo à
volta dos nossos gestos. É nesses momentos que nos cai na alma a brutal
consciência da perda da liberdade.
Podemos então apenas escolher os extremos.
Desfazemos as malas e ficamos. E tentamos fazer da teia um ninho. Ou
sacudimos de nós o afecto – pomos no lixo a planta, damos o animal a
outra pessoa, inventamos impedimentos ou agravos que nos auto-justifiquem
pelo afastamento.
Em última
análise a liberdade total exige a total solidão. Exige um círculo
protector, um anel de silêncio. Se rudemente inteira, a liberdade
perfeita não cresce a não ser dentro duma fortaleza. Se ali dentro não
se é um prisioneiro é só porque a chave, essa, está do lado de dentro
da porta.
*Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal
|