Webjornal - Quinzenal - Edição 74 - Aracaju, 13 a 27 de fevereiro de 2005
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Portugal Online

Paredes da liberdade

Por Margarida Ribeiro*

Na fila, à espera da sua vez de pagar as compras empilhadas no carrinho do supermercado, uma mulher queixava-se. De malas preparadas, tivera de as desfazer para ficar em casa em vez de sair para a pequena viagem de fim-de-semana, antes ansiosamente esperada. O cão adoecera e não lhe bastavam os cuidados do vizinho a quem não podia pedir mais do que a simpatia costumada de alimentar o animal. Havia remédios a dar a horas certas, atenção redobrada a ter, talvez uma nova ida de urgência ao veterinário….

Que remédio senão desistir do passeio?…

E a amiga, que a ouvira atenta, replicou numa voz carregada e endurecida de certezas: “Por essas e por outras, eu não quero animais. Os animais são uma prisão.” 

Ora acontece que isto é real. Os animais são uma prisão. Até as plantas que é preciso regar e adubar são uma prisão. Para não falar dos amigos carentes, ou dos filhos ainda crianças.

Todo o ser vivo que de nós depende, e quantas vezes também as coisas materiais que nos exigem manutenção, são grades de um cativeiro em que o mais fraco prende o forte. Quem protege, sustenta, cuida, crê-se senhor de quem na verdade o acorrenta.

E se ninguém é obrigado a ter plantas, animais, filhos ou amigos, só uma razão pode levar a aceitar esses e outros semelhantes laços de sujeição. Seja o prazer de ver uma flor despontar, o carinho alegre de um cão que saltita de alegria ao nos rever, a alegria da partilha em conversas de fim de tarde, ou o gosto de nos sentirmos prolongados nos seres que gerámos - é sempre um afecto, o metal de que se constrói a algema.

Não há liberdade total quando há um afecto. Mesmo o amigo independente que não nos cobra ajudas ou o filho criado que partiu para a sua própria vida, mesmo esses nos sujeitam pela certeza de que, numa hora em que precisem de nós, ali estaremos, haja o que houver, desfazendo quaisquer malas prontas para quaisquer viagens - para ficar e lhes ser presença.

Nem sempre no dia a dia temos a percepção das linhas que nos enleiam quando aceitamos laços. Tiramos partido das alegrias e dos bons momentos e sentimo-nos senhores de nós mesmos. Não temos a noção de estar a ser enredados numa teia de pequenas amarras.

Um dia, porém - seja por um apelo inesperado que nos obriga a ficar em vez de partir, seja apenas por uma estranha e desagradável sensação de culpa ao premeditarmos uma ausência - acordamos de um qualquer sono como gullivers em Lilipute, aprisionados pelos ténues e finos cordões de bem-querer que o afecto foi tecendo à volta dos nossos gestos. É nesses momentos que nos cai na alma a brutal consciência da perda da liberdade.

Podemos então apenas escolher os extremos. Desfazemos as malas e ficamos. E tentamos fazer da teia um ninho. Ou sacudimos de nós o afecto – pomos no lixo a planta, damos o animal a outra pessoa, inventamos impedimentos ou agravos que nos auto-justifiquem pelo afastamento.

Em última análise a liberdade total exige a total solidão. Exige um círculo protector, um anel de silêncio. Se rudemente inteira, a liberdade perfeita não cresce a não ser dentro duma fortaleza. Se ali dentro não se é um prisioneiro é só porque a chave, essa, está do lado de dentro da porta.

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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