Webjornal - Quinzenal - Edição 75 - Aracaju,  27 de fevereiro a 20 de março  de 2005
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Portugal Online

Democracia... E a seguir?

Por Margarida Ribeiro*

A Democracia, como sistema político, está a entrar na sua fase de perversão.

Todos os sistemas políticos passaram por três fases. Começaram por ser revolucionários, desinstalando vantagens e privilégios. Uma vez postos em vigor, cumpriram por algum tempo os fins a que se destinavam. Finalmente, tendo criado novas ordens sociais e políticas, começaram a depravar-se. Era neste terceiro momento que surgia, mais uma vez revolucionária, a nova ideia de um novo sistema.

O feudalismo foi visto como bárbaro pelos olhos herdeiros do organizado olhar romano, depois cumpriu o seu papel num mundo em que germanos ou godos não estavam preparados para instituições nacionais e finalmente desmoronou quando os países começaram a estar grávidos da ideia de nação.

O absolutismo nasceu da necessidade de desfazer os mini-reinados dos grandes senhores, que fragmentavam os países e os tornavam em constantes campos de batalha. Cumpriu a sua função e ruiu quando os reis absolutos excederam a sua função de “iluminar” a sociedade.

O liberalismo, com as suas primeiras formas de democracia serviu para desfazer os excessos reais e colocar entre balizas o poder da coroa – ou eliminá-lo. E conseguiu-o. Mas foi feito para uma elite letrada que assumia as decisões de um povo analfabeto. Ao construir escolas e popularizar uma imprensa livre, tornou-se num sistema incapaz de governar uma população que começava a tomar consciência do seu poder. De exigência em exigência, de repressão em repressão, degenerou numa total anarquia socialmente injusta e economicamente inviável.

Foi para terminar com esse estado de coisas que surgiram, por um lado os teóricos do comunismo, que visavam a justiça social, por outro lado os da ditadura, que procuravam a ordem e a disciplina. Por um tempo curto (porque o tempo corre cada vez mais depressa) os camponeses russos viram-se senhores das terras onde antes eram escravos e os comboios andaram a horas na Alemanha. Como cada um destes sistemas degenerou em tragédia, qualquer um de nós o sabe.

E chegaram as democracias modernas. Começaram com estadistas que ganhavam eleições por anunciarem programas de acção e se prever que saberiam aplicá-los. Criou ordem e melhorou a justiça social. Satisfez os objectivos. Hoje em dia, porém, por mil razões dispersas pelas novidades dos nossos tempos, a eleição depende sobretudo do especialista de “marketing” que sabe, ou não, vender a imagem do candidato. A corrupção instalou-se e cria uma enorme rede de benesses mútuas que move o poder e a força desta “venda”, potencializada pela comunicação social. Não escolhemos o mais capaz, mas o que melhor se soube vender. Raramente sabemos como pretende governar, e não temos dúvidas de que a globalização lhe coarctará as decisões que possamos supor-lhe.

Diz-se muito que a democracia tem defeitos, mas é o melhor que temos. Estou de acordo. Só não entendo a razão pela qual, num mundo em que todos os dias se descobrem novas maravilhas na economia, na técnica e na ciência, não existe, como antes existiram, teorias - revolucionárias que sejam  como sempre foram as novas ideias - que proponham um novo sistema político, absolutamente novo, ainda não experimentado, capaz de ser ele, por um tempo,  a dar-nos o mundo que nós, gente do século XXI, precisamos de ter.

Ou existem e eu não sei?

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal

 

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