
Webjornal - Quinzenal - Edição 76 - Aracaju, 20 de março
a 24 de abril de 2005
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Deu-me para reler Ferreira de Castro que não visitava há um ror de anos. Meio ao calhar, agarrei em A tempestade, numa edição comprada pelo meu Avô em 1947 segundo a anotação feita pela sua mão no frontispício. Foi como se tivesse feito uma viagem no tempo e revisitado toda uma época em que nasci, depois cresci e me fiz mulher – com os seus valores antiquíssimos, os seus preconceitos cruéis e machistas, o seu mundo fechado entre o “parece mal” e o “parece bem” – expressões que em Portugal serviram durante décadas para delimitar as acções de homens e mulheres entre duas paredes que separavam a honra da desonra. Não havia uma zona intermédia. Ou se era respeitado, ou não. E, claro, as razões de inevitável desonra e consequente ostracismo eram em quantidade infinitamente maior e infinitamente mais variadas para as mulheres. Para elas, algumas eram tão simples como ser vistas na rua sozinhas depois de certa hora da tarde, ou passear com um homem sem uma terceira pessoa presente. O assassínio de uma mulher pelo seu marido, desde que em comprovado acto de infidelidade, era perdoado pela justiça e quase exigido pela honra masculina. O adultério do homem, por sua vez, era visto como sinal de virilidade que, se não proclamado, era ao menos risonhamente aceite. Mas o que me chocou não foi tanto a diferença enorme de modelos de vida entre o nosso hoje e esse ontem. Toda a história humana está marcada por modelos diferentes de regras sociais. O que me impressionou foi sobretudo a lembrança que se me impôs. Surgiu violenta, real, feita mais num reviver do que numa simples recordação, como aquelas lembranças carregadas de sentimentos que às vezes nos são subitamente trazidas por um odor ou por uma canção. Em tempos, aquelas regras foram para mim, como para todos os que então tinha à minha volta, uma verdade inquestionável. Alguém disse um dia que está muita gente no inferno por coisas que agora já não são pecado. De uma maneira alargada, é verdade. Se essas pessoas não estão no inferno por tal lugar não existir, pelo menos viveram vidas de inferno por coisas que hoje não inquietam ninguém. E esses infernos nasceram, não tanto dos “parece bem” e “parece mal” que a sociedade impunha, mas sobretudo dos que eram interiorizados pelos tais “pecadores”. Uma das personagens de Steinbeck diz, em As vinhas da ira (e, à falta da presença do texto, parafraseio) que o pecado é alguma coisa que nós para nós mesmos criamos. Se eu acho que é pecado o que fiz, então é mesmo pecado. Os “parece bem” e “parece mal” das épocas e dos lugares em que vivemos são da sociedade. Os “faço bem” ou “faço mal” são de cada um de nós. E só estes últimos perduram. Os primeiros são tão efémeros e descartáveis que podemos colocá-los numa lixeira. Mas com o cuidado de escolher uma lixeira que não se destine a reciclagem. *Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal |
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