
Webjornal - Quinzenal - Edição 77 - Aracaju, 24 de abril
a 22 de maio de 2005
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Imagine alguém que subitamente lhe aparece a notícia de que o seu filho foi trocado na maternidade e que deve entregá-lo aos pais biológicos. Só a ideia arrepia. O Amor não tem nada a ver com sangue. Às vezes é considerado tão obrigatório que há quem o invente usando dele apenas a casca dos gestos exteriores. Mas o Amor acontece – ou não. E ninguém consegue dizer ao certo o que é. Não se pode definir esse sentimento - tão falado, tão proclamado, tão prometido e tão exigido. Há sentimentos leves que sabemos efémeros sem que essa fragilidade nos incomode. O carinho, a saudade, a alegria e a tristeza, a intranquilidade, o desejo, o sentimento de posse, o ciúme, a generosidade e o egoísmo, a inveja, a ternura, o medo - são sentimentos que perpassam constantemente dentro de nós, atraídos por circunstâncias, gestos ou palavras, e que depois naturalmente se esvaem e se diluem para regressar de novo a propósito das mesmas ou de diferentes pessoas e situações. Se alguém se fixa obsessivamente num destes sentimentos, é olhado como doente ou anormal. Não é saudável – parece-nos – sentir sempre medo ou sentir um ininterrupto enternecimento, estar sempre esfusiante de alegria ou sempre mergulhado em tristeza, precisar sempre de se agarrar a alguém em incessantes carinhos ou viver numa inquietação permanente, precisar a todo o tempo de solidão ou não saber dar um passo sem uma certa companhia. E afinal o que é o Amor senão uma taça onde, conforme o caso, muitos desses sentimentos leves se misturam em diferentes proporções? No Amor paternal impera a ternura, a generosidade e o sentimento de protecção. Esse e outros Amores são às vezes temperados com ciúme e sentimento de posse – numa pitada saborosa ou em colheradas largas e fundas. Se o sangue não nos liga e o desejo dos corpos está ausente, apressamo-nos a trocar o nome à mistura e chamamos-lhe Amizade, para evitar confusões. Mas seja Amor ou Amizade, nenhum desses sentimentos existe como um todo imutável e constante. Faz-se da união daqueles ingredientes leves e voláteis que a si mesmos se vão sobrepondo ou escondendo, conforme a hora do dia e as voltas da vida, e tão leves que, se os olhamos em separado, aceitamos cada um deles como provisório e capaz de se evaporar quando se desvanece o momento que o fez nascer. Se os ingredientes são instáveis, se as partes de que é feito o Amor não são eternas, como podemos esperar que o Amor o seja? A maior parte dos Amores só subsiste na medida em que é mutável, em que bons sentimentos novos vão substituindo os que o tempo acabou por gastar ou que as circunstâncias apagaram. Se essa mudança for aceite, o Amor ainda existe, ainda que com nova forma e por vezes até melhor conteúdo. Se se torna decepcionante, acaba por ser recusado como um não-Amor. Mas se se teima em recusar a mudança, se não se aprende a gostar dela, os velhos sentimentos azedam no molho da revolta. Tornam-se mágoa, azedume, irritação – em último caso indiferença. E mesmo assim há quem guarde esse Amor morto e podre em redomas de gestos falsos que fingem a doçura que deixou de existir. Porque assumir a morte do Amor é considerado grosseiro. Porque à volta do Amor se criam contratos de partilha de bens e de troca de serviços difíceis de romper. Porque se prefere a atitude socialmente correcta de manter a imagem, ainda que apenas virtual, do que devia ser e já não é. Para manter o Amor vivo é preciso poder aceitar-lhe, em cada dia, a nova pitada do novo sabor. Mas o Amor pode morrer, sim. Até o Amor de mãe, até o Amor de filho. Em si mesmo essa morte não é nenhuma tragédia. Só dói e rasga quando não morre ao mesmo tempo nos dois que se amavam. *Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal |
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