Webjornal - Quinzenal - Edição 78 - Aracaju,  22 de maio a 19 de junho  de 2005
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Portugal Online

A pior solidão

Por Margarida Ribeiro*

Andamos neste mundo com os olhos mais ou menos abertos ao que por aí há e com os pés mais ou menos dispostos a caminhar.

Eu já vi muitas paisagens: serras e praias, mares e campinas, lugares de vento e espaços de calor, pântanos e rios, cidades e desertos. E já ouvi falar de muitas outras paisagens que nunca visitei, mas que imagino, de tão sofregamente as ouvir contar.

Quando preciso de companhia, procuro alguém que ouça a palavra “mar” e veja a imensa extensão de azul dentro dos seus olhos; que sinta na recordação dos sentidos o gelo da palavra “neve”, que me acompanhe na ansiedade de descobrir quando lhe roça no espírito a palavra “estrela”.

Se as pessoas que me calham no dia nunca mergulharam nas ondas do mar, se nunca sentiram os pés a enterrar-se na neve ou nunca se deixaram escorregar pelas ravinas de novos saberes apenas aflorados, metade das minhas paisagens não podem ser lembradas ao pé delas, e ao pé delas nenhum novo horizonte pode ser por mim apaixonadamente suspeitado.

Muitas pessoas vivem fechadas num apartamento com uma única janela que dá para uma única rua. Olham para fora e pensam, satisfeitas: “Eu já vi tudo.”

Chego-me ao pé delas e digo: “mar”. E no oco dos seus olhos encontro o vazio. Não têm lá dentro a imagem do mar.

E então tento de novo.  Digo outras palavras. Experimento “arriba”, “cume”, “lago”.

Arrisco “planície”, “floresta”, “ilha”.  Mas nenhuma palavra vibra. Todas caem, secas, vazias, na indiferença de quem não lhes conhece o sentido e na aridez de quem não tem curiosidade de saber o que existe por trás do prédio que lhe tapa a vista.

Suspiro então um suspiro fundo, numa resignação odiosa, e conformo-me. Digo então: “compras”, “shopping”, “vitrinas”…

Finalmente aqueles olhos iluminam-se. Na sua rua há um “shopping”!!!!

É então dessas vezes, com pessoas ao meu lado – e não quando estou sozinha -, que dou comigo a sufocar numa imensa, avassaladora e infinitamente triste solidão. 

*Professora portuguesa,  reside em Castelo Branco,  Portugal
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