
Webjornal - Quinzenal - Edição 79 - Aracaju, 19 de junho
a 17 de julho de 2005
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Portugal
Online Por Margarida Ribeiro* Gosto de dicionários. Agarro nas palavras, espreito-lhes a raiz. Desdobro-as até lhes achar todos os sentidos. Viro-as do avesso, rebusco-lhes os cantos, sacudo-lhes o pó. Brinco com elas. Semeio-as no meio de frases para ver nascer novos pensamentos. Depois deixo-as partir. Sempre que regressam, surgem mais leves e trazem consigo cada vez mais peso. A leveza do reconhecimento, mas o peso das ideias que se lhes foram pegando, uma casca de recordações trazidas pelas muitas formas como as usei, ou as ouvi usar. E apercebo-me de todas as formas que uma palavra pode tomar, de como às vezes se retorce, contorcionista, para soar a outros como o contrário do que eu quis dizer, ou para me lançar, ao ser-me entregue, uma agressividade que não nasceu com ela mas sem a qual a não reconheço. Cada um de nós dá a cada palavra o sentido que a sua vida lhe colou. Muitos desses sentidos-casca são ecos dos nossos passados. Cada um de nós ouve, numa palavra, aquilo que ela lhe traz da sua mesma vida. Por isso é tão difícil usar as palavras. E por isso tantos dos nossos desentendimentos vêm disso. De, usando as mesmas palavras, não falarmos a mesma língua. *Professora
portuguesa, reside em Castelo Branco, Portugal |
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