Webjornal - Mensal  - Edição 86 - Aracaju, 15 de janeiro a 19 de fevereiro de 2006
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Aventura

Rali Lisboa-Dakar 2006

Por Alvaro Giesta*
FotosVera Lúcia Reis/Divulgação

“Um desafio para os que vão; um sonho para os que ficam” – Thierry Sabine

A história mítica da prova Paris-Dakar remonta ao já longínquo ano de 1977, quando o piloto francês Thierry Sabine participava no Rally Abidjan-Nice, em moto, e se perdeu no deserto do Sahara.

Nesse tempo os sistemas GPS, ora existentes, eram desconhecidos, e as estruturas de apoio escassas, pelo que em três dias de buscas não foram capazes de descobrir o piloto perdido nas dunas do deserto, onde continuava vivo mas com poucas esperanças de sobreviver. Quis o destino que a sorte batesse então à porta do “pai” do famoso rally, quando um pequeno avião monomotor o avistou, salvando-o duma morte mais que certa.

Sabine, a quem o deserto quis “tragar” no ano de 1977, jamais o abandonou, tal foi a paixão pelo mesmo, até que a morte o arrebatou a 14 de Janeiro de 1986 num acidente de helicóptero. Nessa sua “prisão” de três dias entre as dunas, Sabine ficou com o entendimento que era necessário colher as fortes emoções que a travessia do deserto transmite e decidiu, então, dá-las a conhecer aos seus colegas pilotos, e ao mundo. Nasce-lhe, assim, o amor pela aventura de Todo-o-Terreno que atravesse a África, partindo de algum ponto da Europa. E a 26 de Dezembro de 1978, 170 participantes, com ele, partem da Place du Trocadero, frente à Torre Eiffel, com o intuito de chegar a Dakar. Destes aventureiros, apenas 69 completam a travessia que ficou para sempre conhecida por “Paris-Dakar”.

Motos, carros e camiões desde aí para cá, num crescendo constante, vêm fazendo, ano após ano, com partida no início de cada ano, a travessia de parte de África, num trajecto perigoso, difícil e acidentado que envolve os longínquos e infinitos desertos escaldantes. 

O arranque Lisboa – Dakar 2006 inicia-se em Abril de 2005, altura em que ficou mais ou menos assente que o Rally Dakar 2006 partiria desta vez de Lisboa, em detrimento de Roma ou Barcelona, possíveis candidatas ao evento.

Entendeu o então Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, e mais tarde como Primeiro-ministro de Portugal, que esta era uma excelente oportunidade para que Portugal se afirmasse no mundo, no que diz respeito à organização e execução de grandes eventos internacionais. Habitualmente a organização internacional remetia a partida deste acontecimento para Espanha ou França, mas desta vez os esforças desenvolver-se-iam no sentido de ser Lisboa o ponto de partida do famoso rally.

A contagem decrescente é cada vez mais rápida a partir da altura em que se consolidam os patrocínios do glorioso evento. Irão participar 509 concorrentes (252 motas, 183 carros e 74 camiões), sendo 42 portugueses.

O reconhecimento de que, pela sua posição geográfica, Portugal constitui um forte traço de união entre a Europa e a África, dá o impulso final à decisão de o considerar com vocação mais que suficiente para receber o Dakar.

Decidem-se então estratégias para a “confecção” de percursos. Reconhece-se que o Baixo Alentejo e o Algarve têm pistas ideias para decidir classificações para a entrada em África, antes dos pilotos entrarem em território espanhol. A par da atribuição das classificações de partida, outra finalidade das pistas em território nacional mais não é do que testar as capacidades das máquinas e treinar os concorrentes nos novos sistemas de navegação GPS.

As etapas em Portugal verificaram-se no fim-de-semana que coincidiu com o último dia do ano de 2005 e primeiro dia de 2006 no Alentejo e Algarve, com saída às 06H00 de 31 de Dezembro, de Lisboa, junto à Torre de Belém, donde os navegadores de Quinhentos partiram à descoberta de novos mundos por mares nunca dantes navegados, apenas munidos do sextante e outros parcos instrumentos de navegar e a sorte ditada pelos ventos e pelas estrelas.

O responsável pelo percurso Lisboa – Dakar em território Português, Orlando Romana, colocou no terreno duas classificações muito competitivas e interessantes num total de 200 quilómetros. A primeira classificação correu-se no Baixo Alentejo, nos concelhos de Beja, Aljustrel, Castro Verde, Ourique e Almodôvar, numa extensão de 85 quilómetros, “(…) numa etapa de planície, muito rápida, com largos estradões, bastante rectilínea e sem grande técnica de condução(…)”, numa altura em que alguma abundância de chuvas proporcionou que fosse dificultado o percurso fazendo valer a perícia dos pilotos para vencer as dificuldades. 

No domingo, dia 1 de Janeiro, foi disputada a segunda prova de classificação já em terras algarvias, nos concelhos de Silves, Almodôvar, Loulé e Alcoutim, numa extensão de 115 quilómetros “nas encomeadas do Algarve (numa área) totalmente oposta (à do primeiro dia) com (…) alguns precipícios pelo meio (e) estradões que ligam povoações (…) terminando num planalto entre Martim Longo e Alcoutim (…)

A travessia do Continente Africano inicia-se (dia 2 de Janeiro – 3.ª etapa) após a afirmação nas pistas descritas no território nacional português e depois de uma rápida passagem por Espanha, que serve apenas de ligação entre a Europa e África, por uma estrada de 400 quilómetros até ao embarcadouro de Málaga. A travessia durará sete horas.

A competição irá desenrolar-se por mais 13 etapas (num total de 15) no continente africano, terminando no dia 15 de Janeiro no Senegal, mais precisamente em Dakar, depois de atravessar Marrocos onde as armadilhas das travessias dos uades, arenosos ou cheios de pedras, fazem prever os grandes erros de navegação.

Já na Mauritânia – o reino das dunas e do fora de pista – o “coração do Sahara” é o local ideal para os navegadores se manifestarem, brilhando ou deitarem tudo a perder. Depois das dunas, os planaltos empedrados e a travessia de canyons e uades em eternos ziguezagues.

No Mali, o universo é outro. Vastos desertos e pistas traçadas no coração da floresta. É a eterna savana com pistas de terra vermelha e poeirenta serpenteando entre embondeiros descomunais e perigosas ravinas. Os Lagos Salgados, cheios de armadilhas, fazem a transição entre a África dos eternos e áridos desertos e a África Negra das florestas luxuriantes.

A Guiné, a quatro dias do término da grande corrida, surge no meio duma vegetação mais densa onde os pilotos terão oportunidade de descobrir uma variedade paisagística, única na região, e onde, mercê da multiplicidade de cursos de água ali existentes, os motociclistas terão muitas vezes que molhar os pés nas travessias de riachos e vaus.

O Senegal, na 13.ª etapa da prova, irá proporcionar uma travessia de montanha nalguns cumes de 1000 metros de altitude, com pistas estreitas e poeirentas de difíceis ultrapassagens. E a 15.ª etapa termina, finalmente, em Dakar, no dia 15 de Janeiro de 2006.

* Policial reformado e fotógrafo amador por opção e convicção, residente em Portugal
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