Edição 141 - Aracaju, 05 de setembro a 03 de outubro de 2010
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  meio ambiente
A luta contra a extinção
Os guigós dependem da floresta para sobreviver

Por Raone Beltrão Mendes*
Foto: João Pedro de Souza Alves

Pesando pouco mais de um quilo, o guigó-de-coimbra-filho (Callicebus coimbrai, como é chamado pela ciência) ocupa as matas úmidas do litoral sergipano e do litoral norte baiano. Sua restrita distribuição faz com que atualmente seja considerado ameaçado de extinção, basicamente porque pouco resta da Mata Atlântica original dessa área. Sua descoberta por pesquisadores, em pouco mais de uma década (1999), é uma das grandes provas da enorme diversidade de vida que a Mata Atlântica mantém, mesmo após 500 anos de intensa degradação.

História Natural

Vivendo em núcleos familiares, composto basicamente por pai, mãe e alguns filhotes, o guigó praticamente não é visto em grupos com mais de sete indivíduos, ao contrário de outros macacos. Isso ocorre porque normalmente os indivíduos adultos - pai e mãe - não toleram a presença de outros indivíduos adultos por perto, o que faz com que os filhotes subadultos, quando passam a poder se reproduzir, sejam expulsos do grupo para evitar competição e, consequentemente, consanguinidade.

Em um ambiente equilibrado normalmente um casal tem um filhote por ano e ocupa uma área de aproximadamente 25 hectares, que pode ser considerada seu território. Na defesa desse território, onde vivem com seus filhotes, os pais entoam vocalizações que podem ser ouvidas a quilômetros de distância, numa espécie de dueto. Às vezes esse dueto é acompanhado pelos juvenis, talvez num exercício para a vida adulta.

Percorrem seu território diariamente em busca de alimento, que se baseia principalmente em frutas, embora também se alimentem de folhas e insetos. São animais relativamente pequenos, tímidos e extremamente cuidadosos quando se locomovem, talvez para evitarem ser vistos por possíveis predadores. Quando se alimentam de frutas, algumas sementes podem ser ingeridas e a passagem pelo intestino em muitos casos facilita a germinação da semente, representando um processo chamado de quebra de dormência da semente e posterior dispersão, o que representa um importante papel na manutenção da diversidade na floresta.

Ameaças

A principal ameaça é a redução e fragmentação de seu hábitat por conta da degradação da Mata Atlântica. A retirada das matas para agricultura e pecuária foi e continua sendo a principal ameaça, não só para o guigó, como também para os demais seres vivos que dependem da floresta para sobreviver. No caso dos guigós, animais arborícolas que vivem em árvores, dependem exclusivamente da floresta para sobreviver.

A retirada da floresta gera dois impactos consideráveis para os guigós e muitos outros animais. A redução do hábitat, que é a quantidade absoluta de área disponível para que a espécie se desenvolva, comprime os animais a pequenas porções de hábitat, às vezes menores que o ideal para a manutenção de populações viáveis. Já a fragmentação, processo em que o hábitat é dividido em duas ou mais áreas separadas e pequenas porções de hábitat entre si, impede que as populações isoladas das espécies possam trocar indivíduos entre elas, evitando a consanguinidade.

Para o guigó, isso ainda representa a falta de manutenção da própria diversidade de plantas da floresta, uma vez que algumas localidades passam a não ter mais algumas dessas plantas que seriam dispersas por esta espécie. Isso acaba por gerar um ciclo. A retirada da mata reduz o hábitat e os recursos (alimento) disponíveis para os guigós, que por sua vez param de dispersar tais plantas e com o tempo o recurso fica ainda mais escasso, muitas vezes chegando ao ponto de não permitirem mais a presença da espécie, provocando extinção local.

Medidas de conservação

A extinção pontual em muitas localidades resulta numa condição de ameaça generalizada, como no caso do guigó, que atualmente ocorre em menos de 100 localidades conhecidas, espalhadas e separadas entre si muitas vezes por alguns quilômetros de distância. Nesse caso, a manutenção da espécie a longo prazo depende de estratégias de conservação, como criação de Unidades de Conservação da Natureza, a exemplo do Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, Estado de Sergipe; criação de corredores ecológicos (faixa de vegetação que interliga dois fragmentos antes isolados entre si) entre fragmentos de diversos tamanhos e que ainda contenham a espécie; além do enriquecimento de fragmentos considerados importantes no que diz respeito ao tamanho, mas que tenham baixa diversidade de espécies de plantas que possam servir de alimento e abrigo para essa espécie. Tais medidas são tão importantes que refletem na manutenção de uma infinidade de espécies, principalmente o Callicebus coimbrai.

*Biólogo da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Sergipe. E-mail: raonebm@yahoo.com.br