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Outros lados da ponte Após 33 anos, a ponte
Rio-Niterói
ainda cumpre bem seu papel
Paulo Marcio Vaz*, com fotos de Beatriz Cunha

Para que serve a Ponte
Rio-Niterói? Para ligar as duas cidades, certo? Certo e errado. A Ponte
Presidente Costa e Silva, inaugurada há 33 anos, ainda cumpre muito bem seu
papel principal, principalmente após a privatização da rodovia, a primeira a
ser concedida para uma empresa privada no Brasil, no caso, a Ponte S.A. Mas
não é só isso.
O que pouca gente sabe
é que a Ponte também cumpre um importante papel sócio-educativo, promovendo
passeios por seus bastidores, que vão desde excursões para crianças de
colégio – que também recebem dicas e noções de educação para o trânsito –
até visitas guiadas para engenheiros e estudantes de engenharia de várias
partes do mundo (a mais recente foi a de um grupo suíço), que têm o
privilégio de conhecer de muito, muito perto, detalhes da obra, por dentro e
por fora. Estudantes de enfermagem também estão entre o seleto grupo de
visitantes, tendo acesso às particularidades dos serviços de socorro e às
experiências de seus profissionais.
A Ponte S.A. também
recebe a visita de comitivas governamentais - como a de representantes da
China, em maio de 2006 - interessadas em saber detalhes sobre a construção e
administração da rodovia.
Por fora...

São 10 horas de uma
ensolarada manhã de terça-feira, quando um ônibus com cerca de 15 crianças –
todas estudantes do 2º ano do ensino fundamental - chega à Ponte Rio-Niterói.
Elas desembarcam junto ao prédio da administração, próximo ao pedágio, e são
recebidas pela simpática, sorridente e (por quê não dizer?) bela assessora
de comunicação, Raquel Alves, de 25 anos. Ela será a responsável por
leva-las a conhecer lugares que muitos marmanjos também gostariam de
visitar: o Centro de Controle de Tráfego, o Centro de Memória da Ponte e a
Base Operacional de Niterói - onde ficam a equipe e os carros aparelhados
para socorrer os usuários. De quebra, o passeio também inclui uma pequena
palestra do médico Ricardo Coimbra, um dos “super-heróis” responsáveis pelo
serviço de resgate.

No Centro de Memória - um pequeno museu batizado de Sala
Engenheiro Mário Vila Verde, em homenagem a um dos engenheiros que
trabalharam na construção da rodovia - Raquel tenta conter os ânimos da
garotada em frente a uma enorme e colorida maquete da Ponte, feita antes
mesmo de sua construção. Entre uma explicação e outra, ela também dá
informações sobre a história da obra e aproveita para falar sobre bons
hábitos de comportamento no trânsito.
“Não pode mexer no volante!”. Em vão, nossa brava guia
tenta impedir, sempre com carinho, que os meninos avancem sobre o jipe
DKW-Vemag cor de laranja - utilizado na época da construção pelo então
Ministro do Interior, Mário Andreazza, para fiscalizar as obras. O carro,
intacto, também faz parte do acervo do museu, assim como uma das antigas
luminárias do vão central e partes de peças de concreto e aço similares às
que compõem a estrutura da Ponte. Também estão expostos recortes de jornais
antigos, com reportagens da época da inauguração.
Na segunda parte da visita, as crianças chegam ao Centro de
Controle de Tráfego, um verdadeiro “Big Brother” rodoviário. De lá, os
operadores vasculham tudo o que acontece em cada milímetro de asfalto,
manipulando as 25 câmeras espalhadas pelo trajeto.
“É de verdade ou é só pra gente ver?”, pergunta o garoto
Thiago, de oito anos, fascinado em frente à enorme tela que exibe as
imagens.

Quase no fim do passeio, chega a hora do médico Ricardo
Coimbra abrir a U.T.I. móvel, subir no batente das portas e improvisar um
palanque, de onde explica seu trabalho e profere um discurso cheio de
recomendações:
“Lembrem-se de avisar ao papai e a mamãe que eles não podem
beber antes de dirigir e nem falar no celular quando estiverem no volante!”.
“Meu pai fala no celular...”, confidencia, para nossa reportagem, uma das
meninas.
Chega, enfim, a hora da despedida: Raquel, que há muito
tempo já virou “Tia”, distribui lanche e exemplares de uma revistinha
educativa, antes de receber abraços e beijos da garotada. Durante o passeio,
não foi possível perceber quem estava mais empolgada: se ela ou eles.
...e por dentro

Muitos já ouviram falar, mas poucos conhecem uma
importante parte da Ponte que vive escondida da grande maioria dos usuários:
o interior de sua estrutura. Para quem não sabe, é possível, literalmente,
passear por dentro do vão central, abaixo da pista. Além dos funcionários,
somente engenheiros e estudantes de engenharia – desde que encaminhados por
alguma instituição – podem visitar o interior da Ponte Rio-Niterói que, pelo
tipo de construção, é considerada, no jargão da engenharia, uma “Obra de
Arte Especial”.
Antes de chegarmos ao interior dos caixões – como são
chamadas as enormes e ocas estruturas metálicas situadas logo abaixo da
pista – é preciso, primeiro, passar por um teste de fogo. É praticamente
indescritível a sensação de, ainda na pista, em pleno vão central, pular a
mureta lateral e acessar a estreita escada em caracol que dá acesso ao
coração da estrutura. A vista de cima dos degraus - de uma altura de tirar o
fôlego e com a sensação de estar praticamente suspenso no ar - é uma
excelente oportunidade para medir o grau de acrofobia (medo de altura) de
qualquer um.

No interior da Ponte, a visão lembra um cenário de
ficção científica. Com paredes pintadas de uma cor entre o vermelho e o
abóbora – a tinta, anticorrosiva, é a mesma desde a inauguração – o caixão é
feito inteiramente de aço e comporta diversos equipamentos que vão desde o
“carrinho elétrico-hidráulico de inspeção e reparo”, que circula através de
um trilho central instalado por toda a estrutura, até um inusitado conjunto
de molas especiais que amortecem as grandes vibrações na pista. Antes da
instalação das molas, quando o vento chegava próximo dos 60 km/h, a Ponte
precisava ser fechada.
Quem nos acompanha durante o “passeio” é o engenheiro
Ariel Maciel, de 54 anos, cujo brilho nos olhos “entrega” sua paixão pela
obra de arte:
“Sou mesmo um apaixonado pela Ponte. Tenho muito
orgulho de trabalhar aqui”, diz Ariel, responsável por toda a estrutura
metálica.
O engenheiro considera que, apesar dos 33 anos de
construção, a Ponte hoje está mais nova do que na época da concessão, graças
a melhorias como a troca definitiva da pavimentação do vão central e,
principalmente, aos avanços em relação aos novos mecanismos de manutenção.
Pelo jeito, a velha obra de arte vai continuar cumprindo, por muito tempo,
todos os seus papéis.
*Repórter do
jornal "O Fluminense", de Niterói. E-mail:
paulomarciovaz@gmail.com
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