Edição 101 - Aracaju, 13 de maio a 10 de junho de 2007
_______________________________________________________________________________________________________________


 

  Outros lados da ponte
Após 33 anos, a ponte Rio-Niterói ainda cumpre bem seu papel

Paulo Marcio Vaz*, com fotos de Beatriz Cunha
 
Para que serve a Ponte Rio-Niterói? Para ligar as duas cidades, certo? Certo e errado. A Ponte Presidente Costa e Silva, inaugurada há 33 anos, ainda cumpre muito bem seu papel principal, principalmente após a privatização da rodovia, a primeira a ser concedida para uma empresa privada no Brasil, no caso, a Ponte S.A. Mas não é só isso.
 
O que pouca gente sabe é que a Ponte também cumpre um importante papel sócio-educativo, promovendo passeios por seus bastidores, que vão desde excursões para crianças de colégio – que também recebem dicas e noções de educação para o trânsito – até visitas guiadas para engenheiros e estudantes de engenharia de várias partes do mundo (a mais recente foi a de um grupo suíço), que têm o privilégio de conhecer de muito, muito perto, detalhes da obra, por dentro e por fora. Estudantes de enfermagem também estão entre o seleto grupo de visitantes, tendo acesso às particularidades dos serviços de socorro e às experiências de seus profissionais.
 
A Ponte S.A. também recebe a visita de comitivas governamentais - como a de representantes da China, em maio de 2006 - interessadas em saber detalhes sobre a construção e administração da rodovia.

Por fora...

São 10 horas de uma ensolarada manhã de terça-feira, quando um ônibus com cerca de 15 crianças – todas estudantes do 2º ano do ensino fundamental - chega à Ponte Rio-Niterói. Elas desembarcam junto ao prédio da administração, próximo ao pedágio, e são recebidas pela simpática, sorridente e (por quê não dizer?) bela assessora de comunicação, Raquel Alves, de 25 anos. Ela será a responsável por leva-las a conhecer lugares que muitos marmanjos também gostariam de visitar: o Centro de Controle de Tráfego, o Centro de Memória da Ponte e a Base Operacional de Niterói - onde ficam a equipe e os carros aparelhados para socorrer os usuários. De quebra, o passeio também inclui uma pequena palestra do médico Ricardo Coimbra, um dos “super-heróis” responsáveis pelo serviço de resgate.

No Centro de Memória - um pequeno museu batizado de Sala Engenheiro Mário Vila Verde, em homenagem a um dos engenheiros que trabalharam na construção da rodovia - Raquel tenta conter os ânimos da garotada em frente a uma enorme e colorida maquete da Ponte, feita antes mesmo de sua construção. Entre uma explicação e outra, ela também dá informações sobre a história da obra e aproveita para falar sobre bons hábitos de comportamento no trânsito.

“Não pode mexer no volante!”. Em vão, nossa brava guia tenta impedir, sempre com carinho, que os meninos avancem sobre o jipe DKW-Vemag cor de laranja - utilizado na época da construção pelo então Ministro do Interior, Mário Andreazza, para fiscalizar as obras. O carro, intacto, também faz parte do acervo do museu, assim como uma das antigas luminárias do vão central e partes de peças de concreto e aço similares às que compõem a estrutura da Ponte. Também estão expostos recortes de jornais antigos, com reportagens da época da inauguração.

Na segunda parte da visita, as crianças chegam ao Centro de Controle de Tráfego, um verdadeiro “Big Brother” rodoviário. De lá, os operadores vasculham tudo o que acontece em cada milímetro de asfalto, manipulando as 25 câmeras espalhadas pelo trajeto.

“É de verdade ou é só pra gente ver?”, pergunta o garoto Thiago, de oito anos, fascinado em frente à enorme tela que exibe as imagens.

Quase no fim do passeio, chega a hora do médico Ricardo Coimbra abrir a U.T.I. móvel, subir no batente das portas e improvisar um palanque, de onde explica seu trabalho e profere um discurso cheio de recomendações:

“Lembrem-se de avisar ao papai e a mamãe que eles não podem beber antes de dirigir e nem falar no celular quando estiverem no volante!”. “Meu pai fala no celular...”, confidencia, para nossa reportagem, uma das meninas.

Chega, enfim, a hora da despedida: Raquel, que há muito tempo já virou “Tia”, distribui lanche e exemplares de uma revistinha educativa, antes de receber abraços e beijos da garotada. Durante o passeio, não foi possível perceber quem estava mais empolgada: se ela ou eles.

...e por dentro
 
Muitos já ouviram falar, mas poucos conhecem uma importante parte da Ponte que vive escondida da grande maioria dos usuários: o interior de sua estrutura. Para quem não sabe, é possível, literalmente, passear por dentro do vão central, abaixo da pista. Além dos funcionários, somente engenheiros e estudantes de engenharia – desde que encaminhados por alguma instituição – podem visitar o interior da Ponte Rio-Niterói que, pelo tipo de construção, é considerada, no jargão da engenharia, uma “Obra de Arte Especial”.
 
Antes de chegarmos ao interior dos caixões – como são chamadas as enormes e ocas estruturas metálicas situadas logo abaixo da pista – é preciso, primeiro, passar por um teste de fogo. É praticamente indescritível a sensação de, ainda na pista, em pleno vão central, pular a mureta lateral e acessar a estreita escada em caracol que dá acesso ao coração da estrutura. A vista de cima dos degraus - de uma altura de tirar o fôlego e com a sensação de estar praticamente suspenso no ar - é uma excelente oportunidade para medir o grau de acrofobia (medo de altura) de qualquer um.
 
No interior da Ponte, a visão lembra um cenário de ficção científica. Com paredes pintadas de uma cor entre o vermelho e o abóbora – a tinta, anticorrosiva, é a mesma desde a inauguração – o caixão é feito inteiramente de aço e comporta diversos equipamentos que vão desde o “carrinho elétrico-hidráulico de inspeção e reparo”, que circula através de um trilho central instalado por toda a estrutura, até um inusitado conjunto de molas especiais que amortecem as grandes vibrações na pista. Antes da instalação das molas, quando o vento chegava próximo dos 60 km/h, a Ponte precisava ser fechada.
 
Quem nos acompanha durante o “passeio” é o engenheiro Ariel Maciel, de 54 anos, cujo brilho nos olhos “entrega” sua paixão pela obra de arte:
 
“Sou mesmo um apaixonado pela Ponte. Tenho muito orgulho de trabalhar aqui”, diz Ariel, responsável por toda a estrutura metálica.
 
O engenheiro considera que, apesar dos 33 anos de construção, a Ponte hoje está mais nova do que na época da concessão, graças a melhorias como a troca definitiva da pavimentação do vão central e, principalmente, aos avanços em relação aos novos mecanismos de manutenção. Pelo jeito, a velha obra de arte vai continuar cumprindo, por muito tempo, todos os seus papéis.

*Repórter do jornal "O Fluminense", de Niterói.  E-mail: paulomarciovaz@gmail.com