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Reportagem
Carpinteiro
das águas
Fabricar barcos de madeiras, de diversos
tamanhos, ainda é uma atividade meramente manual exercida por alguns
mestres, como Bruno Procópio Neto
Texto e fotos: Paulo Lima

O
galpão de madeira está situado nos fins da nova orla do bairro
Industrial, zona norte de Aracaju, bem às margens do rio Sergipe,
ocupando uma área de aproximados 100 m2. À primeira vista lembra um atracadouro
cercado de barcos, novos e velhos, grandes e pequenos. Procuro o Sr. Bruno
(foto), que um morador ali próximo indicou como o homem que
"faz barcos". Dois homens conversam, um em pé, sem camisa,
usando óculos e boné, outro martelando algo num barco pequeno. Pergunto
pelo carpinteiro.
- Sou eu -,
responde o que está sem camisa.
Me apresento e
explico o objetivo da minha visita. Quero saber como é esse negócio de
fabricar barcos. Embora à vontade, Bruno fala pouco. Vou plantando as
perguntas, começando das origens desse carpinteiro das águas. Bruno Procópio Neto, 50 anos de idade,
está no negócio há 17 anos. Vem de Escurial, um povoado próximo de
Nossa Senhora de Lourdes, região do baixo São Francisco, em Sergipe.
Filho de
roçeiros, se interessou por marcenaria desde cedo. Trabalhou com canoas,
fazendo fretes. Depois colocou um motor no barco, transformando-a numa
lancha. Por essa época já trabalhava na carpintaria de barcos.
Fabricava-os e trazia-os para vender em Aracaju. Depois, voltava. Um dia
chamaram-no para fazer dois barcos. Acabou ficando.
De 1980 até
hoje, ele assegura que já construiu uns 200 barcos. Bruno trabalha
basicamente com dois tipos de embarcação: a de grande porte, que vai
para o mar, medindo de 12 a 13 metros; a de pequeno porte, para pescar no
rio, e mede de 5 a 6 metros. Os preços são de acordo com as dimensões
das embarcações.
- Barco grande,
quanto é?, pergunto. Bruno pensa um pouco e responde: - 60 mil. Vou
tomando nota. - E pequeno? Novo titubeio, e a reposta: - 2 mil.
Sessenta mil...
sessenta mil... Me dou conta então da cifra.
- Peraí, o
senhor está rico?!
Bruno exibe um
sorriso indecifrável, talvez de zombaria. Vou multiplicando o valor de
cada barco grande por uma quantidade hipotética, até que pondero, com
meus botões: - o que esse cara está fazendo aqui? Deve ter uma fortuna
guardada...
Bruno explica,
então, que nunca vendeu um barco. Normalmente, ganha sobre trabalhos de
restauro ou vendendo somente a mão de obra. O material sempre é custeado
por quem solicita a fabricação do barco. Desfeito o mal entendido, ele
acrescenta: - mas barco pequeno eu vendo, sim.
Vende e vai
recebendo à prestação. Mudo de assunto. Pergunto sobre qual é a melhor
madeira para se fazer um barco. São de dois tipos, ele explica: louro
vermelho e louro amarelo, "porque são madeiras de boa
qualidade", diz. Quero saber se há sempre encomendas. No defeso,
período de proibição da pesca de camarão, por causa da sua
reprodução, a demanda mingua um pouco. Bruno se atém à manutenção,
até que tudo retorne ao ritmo normal.
- O senhor tem
filhos no negócio?
- Tenho 3 filhos, e o de 31 anos andou se interessando, mas não tive
paciência para ensinar. Hoje ele trabalha como sapateiro.
- E quantos pessoas o ajudam?
- Sou eu e mais um.
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O barco Netuno 2000, recém-reformado num prazo de
60 dias
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O "um"
era exatamente o senhor que martelava o fundo de um barco pequeno, quando
cheguei. No meio da conversa, Bruno tem uma reclamação a fazer. Com a
construção da nova orla, foi desalojado do seu ponto original e abrigado
temporariamente no balcão onde hoje trabalha. "Falam que vão fazer
um estaleiro, mas lá não há espaço para barco grande. Não há como
encostar lá, por causa dos bancos de areia", explica ele apontando
para o futuro local de trabalho.
E partimos para o
ponto culminante da conversa, como se faz um barco. Nos aproximamos de um
deles, para a aula. O barco começa a nascer pelo "pontal de
proa", que, mal traduzindo, é aquela parte pontiaguda que parte
frontal do barco. Depois, o trabalho segue para as laterais ou
"costado", que corresponde ao esqueleto do barco. Bruno segue
explicando com calma. Em seguida, fabrica-se as cavernas, que são
estruturas que atravessam o barco lateralmente, e sua função é segurar
as laterais e o fundo, para não abrir. O penúltimo passo é o fundo do
barco. E, por último, o acabamento.
Juro que aprendi
bastante sobre barcos, mas ainda resta uma curiosidade. Quero saber se
Bruno já pensou em seguir outra profissão. Ele explica que saiu da
escola com 12 anos de idade e cursou até o quarto ano primário.
"Não tenho outra profissão", afirma um resignado Bruno. Mas
nem de longe pareceu infeliz.
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