Webjornal - Quinzenal  - Edição 46 - Aracaju,  4  a  11  de janeiro  de 2004
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Reportagem

Carpinteiro das águas

Fabricar barcos de madeiras, de diversos tamanhos, ainda é uma atividade meramente manual exercida por alguns mestres, como Bruno Procópio Neto

Texto e fotos: Paulo Lima

O galpão de madeira está situado nos fins da nova orla do bairro Industrial, zona norte de Aracaju, bem às margens do rio Sergipe, ocupando uma área de aproximados 100 m2. À primeira vista lembra um atracadouro cercado de barcos, novos e velhos, grandes e pequenos. Procuro o Sr. Bruno (foto), que um morador ali próximo indicou como o homem que "faz barcos". Dois homens conversam, um em pé, sem camisa, usando óculos e boné, outro martelando algo num barco pequeno. Pergunto pelo carpinteiro.

- Sou eu -, responde o que está sem camisa. 

Me apresento e explico o objetivo da minha visita. Quero saber como é esse negócio de fabricar barcos. Embora à vontade, Bruno fala pouco. Vou plantando as perguntas, começando das origens desse carpinteiro das águas. Bruno Procópio Neto, 50 anos de idade, está no negócio há 17 anos. Vem de Escurial, um povoado próximo de Nossa Senhora de Lourdes, região do baixo São Francisco, em Sergipe.

Filho de roçeiros, se interessou por marcenaria desde cedo. Trabalhou com canoas, fazendo fretes. Depois colocou um motor no barco, transformando-a numa lancha. Por essa época já trabalhava na carpintaria de barcos. Fabricava-os e trazia-os para vender em Aracaju. Depois, voltava. Um dia chamaram-no para fazer dois barcos. Acabou ficando.

De 1980 até hoje, ele assegura que já construiu uns 200 barcos. Bruno trabalha basicamente com dois tipos de embarcação: a de grande porte, que vai para o mar, medindo de 12 a 13 metros; a de pequeno porte, para pescar no rio, e mede de 5 a 6 metros. Os preços são de acordo com as dimensões das embarcações.

- Barco grande, quanto é?, pergunto. Bruno pensa um pouco e responde: - 60 mil. Vou tomando nota. - E pequeno? Novo titubeio, e a reposta: - 2 mil.

Sessenta mil... sessenta mil... Me dou conta então da cifra.

- Peraí, o senhor está rico?!

Bruno exibe um sorriso indecifrável, talvez de zombaria. Vou multiplicando o valor de cada barco grande por uma quantidade hipotética, até que pondero, com meus botões: - o que esse cara está fazendo aqui? Deve ter uma fortuna guardada...

Bruno explica, então, que nunca vendeu um barco. Normalmente, ganha sobre trabalhos de restauro ou vendendo somente a mão de obra. O material sempre é custeado por quem solicita a fabricação do barco. Desfeito o mal entendido, ele acrescenta: - mas barco pequeno eu vendo, sim. 

Vende e vai recebendo à prestação. Mudo de assunto. Pergunto sobre qual é a melhor madeira para se fazer um barco. São de dois tipos, ele explica: louro vermelho e louro amarelo, "porque são madeiras de boa qualidade", diz. Quero saber se há sempre encomendas. No defeso, período de proibição da pesca de camarão, por causa da sua reprodução, a demanda mingua um pouco. Bruno se atém à manutenção, até que tudo retorne ao ritmo normal.

- O senhor tem filhos no negócio?
- Tenho 3 filhos, e o de 31 anos andou se interessando, mas não tive paciência para ensinar. Hoje ele trabalha como sapateiro.
- E quantos pessoas o ajudam?
- Sou eu e mais um.


O barco Netuno 2000, recém-reformado num prazo de 60 dias

O "um" era exatamente o senhor que martelava o fundo de um barco pequeno, quando cheguei. No meio da conversa, Bruno tem uma reclamação a fazer. Com a construção da nova orla, foi desalojado do seu ponto original e abrigado temporariamente no balcão onde hoje trabalha. "Falam que vão fazer um estaleiro, mas lá não há espaço para barco grande. Não há como encostar lá, por causa dos bancos de areia", explica ele apontando para o futuro local de trabalho.

E partimos para o ponto culminante da conversa, como se faz um barco. Nos aproximamos de um deles, para a aula. O barco começa a nascer pelo "pontal de proa", que, mal traduzindo, é aquela parte pontiaguda que parte frontal do barco. Depois, o trabalho segue para as laterais ou "costado", que corresponde ao esqueleto do barco. Bruno segue explicando com calma. Em seguida, fabrica-se as cavernas, que são estruturas que atravessam o barco lateralmente, e sua função é segurar as laterais e o fundo, para não abrir. O penúltimo passo é o fundo do barco. E, por último, o acabamento.

Juro que aprendi bastante sobre barcos, mas ainda resta uma curiosidade. Quero saber se Bruno já pensou em seguir outra profissão. Ele explica que saiu da escola com 12 anos de idade e cursou até o quarto ano primário. "Não tenho outra profissão", afirma um resignado Bruno. Mas nem de longe pareceu infeliz.  

 

    

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