
Webjornal - Quinzenal - Edição 47 - Aracaju,
18 a 25 de janeiro de 2004
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Reportagem Texto e fotos: Paulo Lima
A exposição das fotografias de Pierre Verger no Museu do Homem Sergipano (foto) ofereceu aos aracajuanos a chance de ver de perto parte de um acervo estimado em 65 mil negativos, retratando a produção desse antropólogo francês nascido Pierre Edouard Léopold Verger, em Paris, em 2 de novembro de 1902. "Comecei a viajar não tanto pelo desejo de fazer pesquisas etnográficas ou reportagens, mas por necessidade de distanciar-me e escapar do meio em que tinha vivido até então, cujos preconceitos e regras de conduta não me tornavam feliz", escreveu ele. Inspirado no conterrâneo Paul Gauguin, que abandonou Paris para viver a liberdade em meio aos nativos do Taiti, Verger viveu na cidade luz até os 30 anos, abandonando o spleen (melancolia) parisiense para percorrer um roteiro de altas viagens durante catorze anos consecutivos, sobrevivendo como fotógrafo: Polinésia (1933), Espanha (1935), Peru (1940), Vietnã (1938), México (1937), Benim (1936), Brasil (1946), Nigéria (1959). As magníficas imagens em preto e branco exibindo parte desse roteiro puderam ser vistas em algumas capitais do Brasil (150 mil pessoas visitaram a exposição, entre abril de 2002 e maio de 2003) , graças à iniciativa da Fundação Pierre Verger, de Salvador, responsável pela administração do legado do antropólogo. A rica iconografia revela a opção de Verger pelos costumes e pelas pessoas do povo, em diferentes culturas. A organização impecável da exposição permitiu que o visitante se transportasse no tempo acompanhando os passos de Verger pelo planeta. As músicas compostas especialmente para a exposição - adequadamente intitulada de "o olhar errante de Pierre Fatumbi Verger" - acrescentaram uma trilha sonora perfeita. A mãe África nunca pareceu tão próxima e assimilável.
Companheiros inseparáveis de Pierre Verger também foram colocados à mostra. Lá estava a Rolleiflex (foto ao lado), ainda em perfeito estado de conservação. E parte do material relacionado com as pesquisas dos cultos africanos (foto abaixo) que fizeram de Verger uma autoridade mundial no assunto, a ponto de ser condecorado por instituições respeitáveis como a Sorbonne de Paris. Em 1946 Verger visitou o Brasil pela primeira vez, desembarcando na Bahia. A tranqüilidade de Salvador, em constraste com o ambiente de insegurança que se instalara na Europa do pós-guerra, impressionou o antropólogo. O contato com as pessoas nas ruas, em sua maioria negra, a descoberta dos cultos e as tradições levaram Verger a escolher a cidade como novo lar. "Amo quase que igualmente as duas margens do atlântico, com um pouco mais de ternura pela boa terra da Bahia", confessou ele certa vez. O contato com a Bahia determinou novos interesses em Verger, tornado-se um estudioso dos cultos aos orixás (foto abaixo).
A partir da Bahia, Verger realizaria diversas viagens para a África e outras partes do mundo, sendo uma delas para estudar rituais na África, em 1948. Na África, Verger viveria um renascimento. "Lhe escrevo de Ketu, que agora é um pouco a minha cidade natal. Há um mês me tornei um fatumbi", escreve Verger em carta a Roger Bastide, em abril de 1953. Pierre Fatumbi Verger, o viajante de muitos mundos, parou de fotografar em 1970, quando fez suas últimas viagens à África. Morreu em Salvador, em1988. Dele disse Jorge Amado, em 1996: "Ele era uma ponte entre a Europa, a África e o Brasil. Ninguém conseguiu como ele compreender a alma e a cultura da Bahia. Ele era um francês que pesquisou a África e se fez mais baiano que todos. Era um baiano fundamental".
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