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Reportagem
Viagem ao Titikaka
O lago navegável mais alto do
mundo tem estatísticas surpreendentes e é o orgulho de duas nações
- Peru e Bolívia
Texto e fotos: Antônio Carlos Silva Ferreira*
Do Peru
Deixamos Cuzco às 8h da manhã e o ônibus
percorreu os quase 400 km até Puno fazendo
paradas em vários povoados pitorescos nos quais o guia Armando nos
fornecia valiosas informações. No trajeto eu já conhecera duas baianas em
férias e três professores gaúchos que aproveitaram um congresso de
Filosofia em Lima para dar uma esticada cultural pelo Peru. Agora eu
estava sentado ao lado de Noriko, uma jovem japonesa que me falava da exigüidade
de espaço no Japão. Ela me contava que lá até os controles do
Playstation são mais curtos e que, apesar dos edifícios de
apartamentos serem uma solução de otimização do espaço, ela me
confessava seu medo de morar em prédios, devido ao risco de terremotos.
No desenrolar deste papo passamos por Juliaca, última parada antes de
chegar a Puno. A cidade tem uns 200 mil habitantes, mas a profusão de
triciclos chispando pelas ruas - dizem que são cerca de 10 mil táxis-triciclo
- dá a impressão de que o
ser humano aqui é formado por cabeça, tronco e rodas.

Finalmente, quarenta quilômetros depois de Juliaca,
descortinamos do alto a
cidade de Puno (foto), dita capital folclórica do Peru. Com 100 mil
habitantes, Puno detém o privilégio de ser a cidade que divide duas
culturas, o povo de fala quéchua e o de fala aymara. Sem contar que é o
porto de partida da maior parte das excursões pelo
Lago Titikaka, orgulho binacional que pertence ao Peru e à Bolívia.
Na manhã seguinte, eu iria fazer uma excursão até
as Ilhas Flutuantes do Uros, a 5 km de Puno. Enquanto aguardávamos
a partida do barco, aproveitei
para trocar dólares e comprar água numa barraca de frutas. O
barraqueiro, sabendo qual seria o meu destino, convenceu-me a comprar 1 dúzia
de lápis destes com borrachinha na ponta. "Você certamente irá
tirar fotos de crianças nativas, elas irão pedir moedas, lápis
de escrever ou de cor, em troca", ele advertiu.
O barco demorou um pouco a partir, os barqueiros
abriram uma tampa que dava acesso ao motor e daí saíram dezenas de
mosquitos. Notamos que havia certa dificuldade em fazer o motor pegar e um
holandês a bordo brincou, em inglês: "Este é um motor high-tech".
Respondi para ele que já tinha visto motores com cavalos
de força (horse- power) mas aquele motor mosquito-power era inédito.

Resolvido o empecilho tecnológico, partimos água
adentro. Guido, nosso guia (foto), nos mostrava um mapa do lago navegável mais
alto do mundo e começava a nos surpreender com as estatísticas: situado
a 3.808 metros acima do nível do mar, o Lago Titikaka tem 8.300m2 e no
ponto mais central sua profundidade alcança 280 metros. Guido prossegue
dizendo que o grande lago peruano-boliviano é o balanceador do clima da
região, já que a suas águas absorvem e distribuem calor, fazendo com
que Puno não seja um cidade muito fria (para mim já era gélida). Aliás,
Guido é o responsável pelo Titikaka grafado com “k’ nesta matéria
porque ele fez questão de dizer que “caca” em espanhol tem sentido
pejorativo (como em português) e, além disso, diferente do “c”, o
“k” do nome de origem quéchua/aymara tem som aspirado e gutural,
produzido na garganta.

Chegamos nas Ilhas dos Uros (foto) e fomos recebidos por
nativos sorridentes, sendo que os mais novos falavam espanhol;
alguns
mais antigos só falavam o dialeto aymara. Eles vivem de caça,
pesca e do turismo, já que cobram pela visita às ilhas e vendem
artesanato (tecidos, cerâmica e peças de totora, claro).

Pisar no solo da ilha é como caminhar num colchão
de água, e até que acostume a gente fica
com aquele receio de que possa afundar. As ilhas dos Uros são
formadas por uma concentração de plantas chamadas totora, uma espécie de
junco local que cresce no fundo do lago, em profundidades de até 3
metros. Daí, aproveitando o totoral natural, os nativos colocam mais
feixes de totora cortada empilhados para formar o solo. As cabanas são
também feitas de totora, bem como os barcos que usam para a pesca.
Costuma-se chamar estes barcos de cavalos de totora, ou caballitos de totora
(foto), porque sempre têm uma cabeça na proa, à semelhança das carrancas dos
barcos do nosso Rio São Francisco. A plantinha de 1001 utilidades
também é usada como alimento quando os nativos estão pescando. O nosso
guia pegou um brotinho de totora, descascou como banana, deu uma mordida e
ofereceu aos passageiros a iguaria. "Tem gosto de alface",
garantiu ele. Notei que pareceu estranho ao paladar da maioria e houve quem comentasse
que aquilo tinha gosto de “nada”.

Notei que havia muitas crianças (foto) e adolescentes,
senhoras e homens maduros, mas não vi muitos homens jovens dos 18 aos 35
anos nas ilhas. Teriam ido pescar, caçar ou abandoaram as ilhas em busca
de paragens mais modernas? Soubemos que muitos dos nativos que tentaram
morar em terra firme não se adaptaram e, alegando a dificuldade e custo de
adquirirem terreno e casa, preferiam voltar para as ilhas, terra mãe
doada pela pródiga natureza. Dizem que antigamente os nativos quando
morriam eram lançados ao fundo do lago (amarravam pedras), pois a crença
diz que eles não vieram do pó e sim do lago, por isso ao lago teriam que
voltar. Hoje o costume está abolido, até porque a lei não permite, e
assim os aymaras são enterrados em terra firme.
Na segunda
ilha flutuante visitada notamos que havia uma escola para crianças,
que não era feita de totora e sim de madeira, como o posto de saúde que
está sendo construído pelo governo do estado numa outra ilha. Na varanda
da escola, em recesso de férias, um grupo de crianças jogava com
tampinhas plásticas de refrigerantes. Ficamos eu e o turista holandês
tentando entender o jogo, que parecia funcionar como o de
bolas de gude mas não notávamos progresso. Ao serem perguntadas,
as crianças não souberam nos dizer quem estava ganhando e aí foi que
caiu a ficha nas nossas mentes capitalistas: naquele jogo certamente
ganhavam todos e a brincadeira não tem hora para terminar, exceto quando a
adolescência chega e vai determinando o fim da infância.
Enquanto eu descansava num tronco com um mineiro, a
esposa dele chega até nós com uma linda criança nativa no colo.
Afirmava ela que a criança lhe fora ofertada pela mãe como presente. Depois de alguns minutos de mimos e de curtição temporária
do bebê, é claro que ela devolveu a criança à mãe pois quem pariu
Mateus, que balance.
Os habitantes de Uros demonstram interesse pelos
visitantes e queriam saber de onde eu era, o que eu fazia, que idade
tinha. Como Embaixador Avulso da Bahia que sou, claro que mostrei os
postais de Salvador que carrego comigo nas viagens (assim como as fitinhas
do Bonfim) e eles ficaram extasiados. Ao final da mostra, notei que um
senhor ainda segurava um dos postais (que mostrava uma praia cheia de
coqueiros), fitando-o como se estivesse hipnotizado. Ele não viu, ou não
quis ver, minha mão estendida à espera da devolução e tive que
recolher o postal sutil e delicadamente. Eu poderia ter-lhe presenteado
com o postal, mas pensei nas próximas pessoas que eu iria encontrar e que
iriam deixar de ver aquela bela imagem. Fui convidado a ficar à noite na
ilha com eles, o que poderia ter sido uma experiência fascinante, mas meu
espírito globe-trotter me lembrou que eu tinha que seguir viagem, pois
a
Bolívia me aguardava. Por ironia do destino, ou ira dos deuses, o fato é
que houve uma greve de transportes terrestres na região de Puno, no dia
seguinte, e eu não pude seguir de ônibus para a Bolívia a não ser 24
horas depois.
Nos despedimos das Ilhas dos Uros quando os pés já
estavam acostumados a caminhar no solo flutuante e quando o Titikaka já
nos parecia mais belo, mais grandioso e mais familiar. Na bagagem, muitas fotos de adultos, de crianças, de ilhas,
cabanas e caballlitos de totora, e quanto aos lápis de borrachinha
na ponta, que fizeram a alegria dos pequenos, somente um voltou para
ajudar a escrever esta história.
*Fotógrafo
amador, ex- publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside
em Salvador
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