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Reportagem
Fim da rua
24 horas
Comerciantes devem desocupar os
estabelecimentos até 31/03. Um shopping center será construído no
local.
Texto
e fotos: Paulo Lima

A
rua 24 horas, localizada na região central de Aracaju, nem mesmo
pode ser considerada uma rua, se tomarmos a definição ao pé da letra.
Com um pouco de boa vontade, está mais para uma galeria ladeada por duas
fileiras de lojas e um mezanino com um punhado de outras tantas lojas.
Como contraponto, existem na área algumas lanchonetes.
"Rua"
foi o eufemismo recebido por ocasião da sua criação - e lá se vão uns
bons 10 anos -, mais por uma questão de imitação. Na europeizada
Curitiba havia sido aberta, então, uma pioneira rua que deveria
funcionar 24 horas, conforme o projeto do prefeito da época, o
arquiteto Jaime
Lerner.
A nossa rua 24 horas teve
seus momentos de fama e freqüência entusiasmada. No entanto, com a
construção de shopping centers na zona sul da cidade, caiu em
ostracismo. Salvo as animadas noitadas de sexta-feira, quando se
transforma num concorrido point a céu aberto, a visita pública deve-se
mais à sua localização estratégica, como uma espécie de passagem que
liga o calçadão da rua Laranjeiras ao Parque Teófilo Dantas e arredores.
Almejada
revitalização
Agora a 24 horas está com os dias
contados. Em seu lugar, será construído um shopping center. O projeto
partiu do governo do estado. "O citado empreendimento, sem sombra de
dúvida, contribuirá de forma concreta para o soerguimento do
comércio local, sendo o primeiro e gigantesco passo para a almejada
revitalização do centro histórico de Aracaju". É o que diz a
notificação de 23/10/2003 da Companhia de Desenvolvimento Industrial do
Estado de Sergipe (Codise) entregue aos comerciantes instalados naquela
rua.
O shopping planejado terá
80 lojas e será erguido numa área de 9000m2. Terá espaço para
estacionamento, eventos regionais e shows. O governo assegura que
nenhum comerciante atualmente instalado na 24 horas será prejudicado.
Pelo menos é o que informa um dos comunicados distribuídos entre os
comerciantes: "O pagamento da indenização será equivalente ao
valor efetivamente pago a título de luvas pelo permissionário,
devidamente corrigido monetariamente pelo INPC".

Explica-se. Cada "permissionário"
(leia-se atual ocupante de um ponto na rua 24 horas) fez jus ao espaço
mediante participação em processo licitatório. O lance inicial, ou as
"luvas", correspondem ao valor originalmente ofertado pelos
comerciantes. A indenização, porém, não estará ao alcance de todos.
"Ficam ainda os permissionários obrigados a comprovar, por ocasião
da verba indenizatória, que estão quites com as taxas de condomínio sob
pena de ser suspenso o citado pagamento", continua a notificação da
Codise.
Na prática, trata-se de um
processo de exclusão dos atuais locatários da área. A rua 24 horas
será privatizada. A expectativa é de que os atuais valores do
condomínio e aluguel - algo em torno de R$ 130,00 e R$ 160,00,
respectivamente, dependo do ponto - subirão.
Fora do
alcance
Os comerciantes ouvidos
por esta reportagem não alimentam qualquer esperança de permanecer no
local. José Ricardo Nunes Pereira, empregado do salão de beleza Status
Cabeleireiro, na rua 24 horas há 9 anos, não vê com bons olhos a
modernização: "É ruim porque a gente só sabe que vai sair",
diz. Segundo José Ricardo, a 24 horas ainda é o melhor ponto no centro
da cidade, pois oferece segurança. Para ele, o point decaiu por
causa da má fama adquirida, em parte devido às fofocas divulgadas
pela própria imprensa. A área, que abriga pequenos bares,
virou ponto de encontro e azaração na hora do happy-hour, principalmente
às sextas-feiras.
Maria José Costa,
proprietária da R & M Imports e diretora financeira do condomínio da
rua 24 horas, é a favor do novo projeto: "É o ideal para o centro
de Aracaju", afirma. "O centro precisa ser revitalizado",
continua. Exaltada, ela atribui a culpa pela decadência do lugar aos
próprios comerciantes, por alimentarem os atuais índices de
inadimplência do condomínio. "Quem paga o condomínio está a
favor da reforma", explica.
As prateleiras da Nana Modas
Presentes estão quase vazias. Argemiro Macedo de Souza, na 24 horas desde
1998, parece resignado quanto ao futuro do local: "Eu acho que não
está ao meu alcance". Por um lado, ele mostra-se compreensivo.
"Não discordo que vai melhorar", diz. Mas reclama do
tratamento dado pelo governo quanto à indenização. "Falta uma
proposta mais concreta". Para Argemiro, a instituição dos
parquímetros nas ruas centrais afastaram os clientes - e por isso é um
dos responsáveis pela decadência da área.
Os comerciantes estão em
compasso de espera. Até o dia 31 de março de 2004, prazo limite dado
pela Codise, todos eles deverão ter deixado o local. A rua 24 horas será
apenas uma página no passado.
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