Webjornal - Quinzenal  - Edição 49 - Aracaju,  15  a  22   de fevereiro  de 2004
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Reportagem

Fim da rua 24 horas

Comerciantes devem desocupar os estabelecimentos até 31/03. Um shopping center será construído no local. 

Texto e fotos: Paulo Lima

A rua 24 horas, localizada na região central de Aracaju,  nem mesmo pode ser considerada uma rua, se tomarmos a definição ao pé da letra. Com um pouco de boa vontade, está mais para uma galeria ladeada por duas fileiras de lojas e um mezanino com um punhado de outras tantas lojas. Como contraponto, existem na área algumas lanchonetes. 

"Rua" foi o eufemismo recebido por ocasião da sua criação - e lá se vão uns bons 10 anos -, mais por uma questão de imitação. Na europeizada Curitiba havia sido aberta, então, uma pioneira rua que deveria funcionar 24 horas, conforme o  projeto do prefeito da época, o arquiteto Jaime Lerner.  

A nossa rua 24 horas teve seus momentos de fama e freqüência entusiasmada. No entanto, com a construção de shopping centers na zona sul da cidade, caiu em ostracismo. Salvo as animadas noitadas de sexta-feira, quando se transforma num concorrido point a céu aberto, a visita pública deve-se mais à sua localização estratégica, como uma espécie de passagem que liga o calçadão da rua Laranjeiras ao Parque Teófilo Dantas e arredores.

Almejada revitalização

Agora a 24 horas está com os dias contados. Em seu lugar, será construído um shopping center. O projeto partiu do governo do estado. "O citado empreendimento, sem sombra de dúvida, contribuirá de forma concreta para o soerguimento do comércio local, sendo o primeiro e gigantesco passo para a almejada revitalização do centro histórico de Aracaju". É o que diz a notificação de 23/10/2003 da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Estado de Sergipe (Codise) entregue aos comerciantes instalados naquela rua.

O shopping planejado terá 80 lojas e será erguido numa área de 9000m2. Terá espaço para estacionamento,  eventos regionais e shows. O governo assegura que nenhum comerciante atualmente instalado na 24 horas será prejudicado. Pelo menos é o que informa um dos comunicados distribuídos entre os comerciantes: "O pagamento da indenização será equivalente ao valor efetivamente pago a título de luvas pelo permissionário, devidamente corrigido monetariamente pelo INPC".

Explica-se. Cada "permissionário" (leia-se atual ocupante de um ponto na rua 24 horas) fez jus ao espaço mediante participação em processo licitatório. O lance inicial, ou as "luvas", correspondem ao valor originalmente ofertado pelos comerciantes. A indenização, porém, não estará ao alcance de todos. "Ficam ainda os permissionários obrigados a comprovar, por ocasião da verba indenizatória, que estão quites com as taxas de condomínio sob pena de ser suspenso o citado pagamento", continua a notificação da Codise.

Na prática, trata-se de um processo de exclusão dos atuais locatários da área. A rua 24 horas será privatizada. A expectativa é de que os atuais valores do condomínio e aluguel - algo em torno de R$ 130,00 e R$ 160,00, respectivamente, dependo do ponto - subirão. 

Fora do alcance

Os comerciantes  ouvidos por esta reportagem não alimentam qualquer esperança de permanecer no local. José Ricardo Nunes Pereira, empregado do salão de beleza Status Cabeleireiro, na rua 24 horas há 9 anos, não vê com bons olhos a modernização: "É ruim porque a gente só sabe que vai sair", diz. Segundo José Ricardo, a 24 horas ainda é o melhor ponto no centro da cidade, pois oferece segurança. Para ele, o point decaiu por causa  da má fama adquirida, em parte devido às fofocas divulgadas pela própria imprensa. A área,  que abriga pequenos bares,  virou ponto de encontro e azaração na hora do happy-hour, principalmente às sextas-feiras.   

Maria José Costa, proprietária da R & M Imports e diretora financeira do condomínio da rua 24 horas, é a favor do novo projeto: "É o ideal para o centro de Aracaju", afirma. "O centro precisa ser revitalizado", continua. Exaltada, ela atribui a culpa pela decadência do lugar aos próprios comerciantes, por alimentarem os atuais índices de inadimplência do condomínio.  "Quem paga o condomínio está a favor da reforma", explica. 

As prateleiras da Nana Modas Presentes estão quase vazias. Argemiro Macedo de Souza, na 24 horas desde 1998, parece resignado quanto ao futuro do local: "Eu acho que não está ao meu alcance". Por um lado, ele mostra-se compreensivo. "Não discordo que vai melhorar", diz.  Mas reclama do tratamento dado pelo governo quanto à indenização. "Falta uma proposta mais concreta". Para Argemiro, a instituição dos parquímetros nas ruas centrais afastaram os clientes - e por isso é um dos responsáveis pela decadência da área.

Os comerciantes estão em compasso de espera. Até o dia 31 de março de 2004, prazo limite dado pela Codise, todos eles deverão ter deixado o local. A rua 24 horas será apenas uma página no passado.   

 

    

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