
Webjornal - Quinzenal - Edição 50 - Aracaju,
29 de fevereiro a 07 de março de 2004
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Reportagem Por
Paulo Lima Aracaju, 1955. O visitante que quisesse presenciar uma macumba na pequenina capital de Sergipe, teria que seguir até a Lagoa da Jabotiana. Lá ele encontraria Nanã e Didi realizando "macumbas memoráveis". Poderia também optar pelo xangô da rua Porto da Folha, "atrás do alto de Dona Bebé e atrás da Caixa D'água". Se o interesse, porém, estivesse mais voltado para o profano, então que tomasse o rumo do Mercado Modelo, onde, à entrada, encontraria Marcelino Bitencourt, rodeado por "uma multidão de curiosos e de basbáques", recitando trovas de poetas e cantadores. Naquele ano longínquo, o aracajuano que pretendesse alçar vôo nas asas da imaginação poderia sintonizar a Rádio Difusora de Sergipe PRJ-6, ou a Rádio Liberdade de Sergipe ZYM-20, para ouvir algumas peças de teatro escritas por Paulo Barreto e Severino Uchôa. Ou poderia assistir a bons "conjuntos teatrais" como Os nossos, Jhalf-Pran ou o Paulistano e seu teatro. Todos esses grupos costumavam se apresentar no Teatro Rio Branco (posteriormente transformado em cinema. Foi demolido em 2002). Se o citadino quisesse revigorar as forças com um lanche alentado, que se abancasse à Confeitaria Céres. Ou à Padaria Minerva. Ou à Pastelaria Pirangí. Todas localizadas na rua Laranjeiras, local de compras do pequeno-burguês da Aracaju daquela época. Pois o grã-fino comprava na rua João Pessoa, e o operário no Mercado Modelo. Essas e outras histórias preenchem as quase trezentos e cinqüenta páginas do livro Roteiro de Aracaju, do escritor e poeta Mario Cabral, originalmente publicado em 1955 pela Livraria Regina Ltda., tendo atingindo uma segunda edição naquele mesmo ano, tamanha a acolhida do público. Quase 50 anos depois, a obra foi reeditada pela Secretaria de Estado da Educação. Pode ser adquirido no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, ao preço de R$ 20,00. Trata-se de um clássico guardado a sete chaves por aqueles que tiveram a sorte de poder conservar algum exemplar das duas primeiras edições de 1955. Hoje uns poucos remanescentes dessas primeiras tiragens só são encontrados em sebos de Salvador e Recife. Mesmo assim, a preços nada encorajadores. Os mais afortunados podem se dar por satisfeitos em poder conservar ao menos uma cópia da edição original. Este é o caso do professor Alan Barreto, da Universidade Tiradentes. Ele emprestara seu exemplar a uma namorada. O namoro acabou, a moça sumiu levando junto o livro. Tempos depois, num lance de sorte, Alan conseguiu uma cópia do livro graças a um encontro social fortuito. Mario Cabral, radicado em Salvador há muitos anos, ocupa a cadeira 17 da Academia Sergipana de Letras. É autor de obra vasta, mas nenhuma obteve o êxito de crítica e de público como o seu Roteiro. O livro é um passeio ufano-sentimental pelas coisas e causos da Aracaju do passado. "Não serei, certamente, um guia como Gilberto Freyre na sua Cidade do Recife, nem como Jorge Amado na sua Cidade do Salvador", alerta o escritor num "recado" endereçado ao leitor na segunda edição. Mas, apesar dos permeios poéticos e literários, o trabalho não se furta a oferecer lições de História. E de vida. É uma referência para pesquisadores, estudantes e interessados na Aracaju de outrora. Uma referência que atinge agora um público maior, com essa oportuna reedição.
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