|
Reportagem
Gigantes
pela própria natureza
O mais alto edifício de Sergipe
leva o nome da mais alta mulher do Brasil. Ambos vivem momentos de
dificuldade.
Por
Jaime Santana Neto e Rafael Heleno*
Qual
a relação entre a sergipana Maria Feliciana – a mulher mais alta
(2,25m) do
Brasil – e o edifício Estado de Sergipe?
A marcante estrutura foi
inaugurada em 1970, no então governo de Lourival Batista, que foi pautado
por uma série de obras ostensivas em pleno regime militar. Mesmo com
problemas na planta de elaboração da obra – hoje, fator bem visível
– a arquitetura representou para Sergipe um símbolo de modernidade na
época. Foi por muito tempo o maior edifício do Nordeste e permanece
sendo até hoje o mais alto do estado.
Intitulado pela população
de “Maria Feliciana”, apenas um dos seus 28 andares não era ocupado
pelo Banco do Estado de Sergipe (BANESE), no período em que foi
inaugurado. Devido a mudanças administrativas, o banco deixou no edifício
apenas sua agência central – uma das maiores de Sergipe. Com isso, seus
andares foram ocupados por órgãos estaduais e federais.
Embora de responsabilidade
do governo, como patrimônio da secretaria de administração, que não
subvenciona nenhuma verba para manutenção, o sistema adotado de comodato
entre os condôminos é o que mantém seu funcionamento básico.
“Não há pagamento de
aluguel no local, mas sim uma divisão de despesas, sem um valor
especifico. As despesas aqui geralmente giram em torno R$ 25.000,00
mensais, ratificados entre os ocupantes”, esclarece Albério Aração,
assistente de administração do local, ressaltando também, que caso haja
alguma redução nos custos mensais, o valor de taxa sofre alteração.
“Eu acho justo, o código civil prevê isso, o ocupante é responsável
pelo empreendimento”, complementa.
A administração estadual
não loca apenas uma sala, mas sim um andar completo. O número de
compartimentos varia dentro da necessidade de cada órgão, o que é só
possível por sua estrutura não ser de alvenaria, mesmo existindo
colunas.
Inadimplência
Hoje praticamente metade
do prédio está vazio, aguardando locadores. Mesmo não sendo ocupado por
famílias, o nível de inadimplência também é alto. “Alguns órgãos
atrasam e às vezes nem pagam, então nós temos estes impasses de caixa e
gerenciamento decorrentes da falta de dinheiro. Algumas secretarias não
saldam suas despesas”, afirmou o assistente administrativo.
A baixa ocupação acaba
por elevar os custos, que contribui para que cada vez mais o “Maria Feliciana”
seja esquecido como espaço utilitário público, se tornando algo
obsoleto aos olhos de quem deveria investir e reestruturar suas paredes e
colunas.
Histórias
Conta-se que no auge da
construção, o governador Lourival Batista, que possuía gado em São
Cristóvão, chegou a subir no 25° andar, de onde tentou avistar seus
rebanhos, mas não conseguiu, ficando bastante frustrado. Então ele
ordenou que se construísse mais dois andares, para assim alcançar o
objetivo almejado.
Mesmo sendo o maior do estado, um dado curioso é o
número de suicídios cometidos no local: muito poucos. Segundo Albério
Aragão, apenas dois casos foram registrados por ele.
O primeiro aconteceu na década de 80. Segundo o assistente, o
suicídio foi cometida por um funcionário do próprio Banese; a
causa não foi mencionada. O último ocorreu antes do carnaval (2004), mas
não trouxe grandes seqüelas para o adolescente que saltou e teve apenas
o punho quebrado.
Vale ressaltar que todas
as janelas são fechadas, e que o local é vigiado tanto por funcionários
quando pela brigada de incêndio do Corpo de Bombeiros de Sergipe.
***
Maria
Feliciana
Enquanto
o prédio que lhe tomou de empréstimo o nome não ficava pronto,
Maria Feliciana já trabalhava e se apresentava em circos, programas de
tevê e concursos. Dois pontos de referência para o estado de Sergipe.
Comprovadamente a maior mulher do nosso país, conforme o Guinness Book,
Maria Feliciana já jogou até tênis! Mas a carreira artística lhe
chamou mais a atenção. Hoje, essa grande mulher passa por dificuldades e
entrou na justiça, para que assim pudesse ser autenticado, de papel
passado, a troca de nomes, onde o popular edifício Estado de Sergipe
pudesse ser reconhecido como unicamente Maria Feliciana, em uma homenagem
a quem representou o estado no país inteiro e no mundo. “Me sinto muito
honrada em ser lembrada sempre pelo povo, quando se referem ao prédio,
chamando-o pelo meu nome; é uma forma de não ser esquecida
totalmente”, disse Maria Feliciana.
Contando
com a ajuda do artista plástico Delton Rios e com o apoio do deputado
Estadual Francisco Gualberto (PT-SE), o projeto que autoriza esta mudança
foi aprovado, só restando agora a transferência efetiva do nome.
*Estudantes
de Jornalismo da Universidade Tiradentes (SE).
|