
Webjornal - Quinzenal - Edição 52 - Aracaju,
28 de março a 04 de abril de 2004
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Reportagem Por
Paulo Lima
Antônio Belarmino, 33 anos, casado, 3 filhos, quando fala, costuma apertar os olhos, como se por reflexo procurasse se defender da luz intensa que o astro-rei costuma lançar lá no sertão, onde vive. Um homem jovem, mas o cabelo já apresenta o saldo de anos de luta no roçado e na vida. O raciocínio é claro e articulado. A fala é rápida, as palavras vão saindo com facilidade. E de palavras Belarmino entende muito bem. Elas são a matéria-prima com que ele canta, em versos de cordel, a vida brava no assentamento Lagoa das Areias, município de Poço Redondo, em Sergipe. Foi por causa das palavras que ele pegou um avião e viajou até Recife para gravar um disco com o Quinteto Violado. O gosto pelo cordel começou cedo. "Nasci no interior, nas roças, e a gente ia para as freiras livres. Eu, criança ainda, via sempre cordelistas vendendo folhetos, uns cantando, outros declamando", explica. "E aí veio esse despertar pela literatura de cordel". Mesmo vindo da roça, ele começou a ler e escrever cedo. "Como a gente não tinha acesso a livros, revistas, essas coisas, então o acesso maior era a literatura de cordel, até por ser mais barato". Ele conta que já escreveu pelo menos duzentos folhetos, explorando na maioria das vezes os temas que mais gosta: a realidade dos assentamentos e as lendas do povo. Publicados, porém, conta somente nove. Tentou o seminário, durante dois anos. Desistiu e voltou para a roça, seu ganha-pão, que considera "tão importante quanto escrever". A vida no assentamento forjou em Belarmino a compreensão do valor essencial das coisas. Ele canta: O
trabalho é um valor Sobre a participação no CD, ele explica tudo nesta conversa: Como se deu o contato com o Quinteto Violado? AB - O Quinteto Violado está fazendo uma parceria com o projeto Dom Hélder Câmara, que trabalha com assentamentos aqui na região de Sergipe. O projeto é ligado ao Ministério do Desenvolvimento Agrário. O Quinteto faz parceria com o projeto Dom Hélder no Nordeste inteiro, trabalhando a questão da cultura, da música, poesia, essas coisas, fazendo um resgate da cultura popular principalmente nos assentamentos. Como sempre tive contato com o projeto Dom Hélder, com pessoas que trabalham no projeto, e por eu ser um assentado, eu e o José Ailton, a gente teve essa oportunidade. Recebemos o convite do Quinteto para participar de uma conversa. No meio de outras pessoas que trabalham com a cultura, a gente foi escolhido para gravar esse CD. E como foi sua participação no CD? AB - Eu o companheiro José Ailton declamamos poesia de cordel. São histórias dos assentamentos, também lendas populares que o povo conta, que a gente vê muito forte na população, como história de lobisomem, de caipora. São mitos e lendas que o pessoal conta muito e coisas da realidade, como a vida do assentado, a história da reforma agrária na região e como começou tudo: a desapropriação, a formação dos assentamentos que são muitos na região do sertão. São essas coisas que a gente está colocando no CD. Como foi a gravação do CD? A gente nunca tinha feito gravações desse tipo. Aconteceu nos estúdios do Quinteto. Eles têm um estúdio simples, mas com qualidade espetacular, lá em Recife. Isso foi há uns quinze dias. Acreditamos que lá pelo dia 10 já esteja pronto o CD. A gente está pensando agora dia 14, se tudo correr bem, já fazer o lançamento lá na região do sertão, no assentamento. |
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