Webjornal - Quinzenal  - Edição 53 - Aracaju,   11  a  25  de abril  de 2004
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Reportagem

Símbolo de resistência

O Grande Hotel, um dos mais antigos da região central de Aracaju, sobreviveu à passagem do tempo e hoje é testemunha da história da cidade

Por Jaime Santana Neto*
Fotos: Paulo Lima

Meados da década de 70, coração do centro da cidade, intenso movimento no comércio. Esse era o pano de fundo perfeito para algo do tipo: um hotel. Mais de 60 quartos, 97 funcionários e hóspedes de todos os lugares passando por seus corredores e saguão, num intenso movimento, onde circulavam cantores, jogadores de futebol, empresários e turistas.

Entre concorrentes de peso, como o Hotel Palace, e alguns italianos, que mais tarde cederam seus lugares a lojas de departamento e bancos, estava o Grande Hotel, com seus suntuosos 5 andares e suas duas suítes, oferecendo de forma tradicional seus serviços ao público que sabia ali encontrar o que de melhor havia na cidade.

Pertencia na época a Maria Bernadete Rolemberg Mendonça, esposa do empresário João Machado Rolemberg, que se desfez do mobiliário em 1989, período em que já não havia mais tanto sentido assim em continuar administrando um prédio daquele porte.

Mudou-se o tempo, e com isto também o interesse dos hóspedes em alugar um quarto no Grande Hotel, principalmente pela localidade - o que antes era privilégio tornou-se um incômodo para quem vinha tratar de algum assunto em Aracaju. “Com a chegada das pousadas e de novos hotéis, na área da praia, o fluxo aqui diminuiu muito, tudo após o governo de Collor”, disse Renato Canuto de Araújo (foto), o mais velho dos funcionários do Grande Hotel.

Situação atual

Atualmente o Grande Hotel - que nunca fechou, ao contrário dos seus concorrentes do centro da cidade – possui oito funcionários em seu quadro administrativo. Seu atual dono, Raimundo Juliano, vem desenvolvendo uma série de reformas em sua estrutura, buscando trazer de volta não o período áureo que o hotel viveu, mas sim a dignidade de um patrimônio sergipano, que há muito vem sendo esquecido por quem visita Aracaju. “O proprietário não pode investir como deveria, já que seria inviável no momento tocar uma reforma tão grande, sem um retorno imediato”, esclareceu um funcionário da administração, que explicou ainda que o hotel vem passando por uma série de reformas desde janeiro de 2004.

Devido a essas reformas que vêm acontecendo aos poucos, o Grande Hotel já pode mais uma vez abrigar em seus quartos o número máximo de hóspedes. Outra coisa que mudou bastante foi o restaurante - o que antes era de cozinha internacional, passou a ser terceirizado, solução encontrada para que continuasse funcionando a parte gastronômica do local. Entre as mudanças, encontra-se em uma de suas salas uma ótica, o que torna evidente o aluguel de salas para outras empresas.

Também funcionando como apart-hotel, existem hoje no Grande Hotel alguns moradores que optaram por viver neste ambiente. Segundo Wellington Santos, esta decisão foi decorrente da segurança proporcionada pelo local, juntamente com o atendimento oferecido. “Já almoçava e jantava, só fiz acrescentar o café da manhã. Moro há 3 meses e já indiquei um grupo de pessoas que hoje dividem a cobertura a fazer o mesmo!”, esclareceu Wellington, que é filho de uma ex-funcionária do Hotel.

O público que freqüenta o Grande Hotel mudou; na sua maioria são vendedores e representantes que passam cerca de dois dias, viajando em seguida. Hoje, apenas quem restritamente tem algo para fazer no centro reserva um quarto no hotel. O que significava antes uma média de 25 clientes por semana, hoje representa 200, o que mostra  o retorno lucrativo proporcionado pelas reformas.

Por seguir uma linha bastante tradicional, o hotel é criterioso quando o assunto é a prostituição que acontece ao seu redor, no centro da cidade, à noite. “Mantemos o nível de primeira linha, sem com isso podar, impedir as atitudes de nossos hóspedes”, diz Renato Canuto.

Algumas histórias

Conta Renato Canuto que em 1980 houve dois crimes no Grande Hotel. Segundo ele, no primeiro caso, a mulher de um baiano saiu logo cedo e não retornou, e, quando a camareira entrou para limpar o quarto, o homem estava lá morto, caído no chão, coberto por lençóis: tinha sido enforcado. O segundo caso envolveu um funcionário da Petrobrás, que chegou armado e tentou matar um hóspede. Ele subiu, bateu na porta e com uma faca feriu um olho da vítima, sendo preso ainda no hotel.

Entre os hóspedes mais famosos que já passaram pelo hotel estão Pelé, Chacrinha, Roberto Carlos, entre outros.

    

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