|
Reportagem
Símbolo de
resistência
O Grande Hotel, um dos mais antigos
da região central de Aracaju, sobreviveu à passagem do tempo e hoje é
testemunha da história da cidade
Por Jaime Santana Neto*
Fotos: Paulo Lima

Meados
da década de 70, coração do centro da cidade, intenso movimento no comércio.
Esse era o pano de fundo perfeito para algo do tipo: um hotel.
Mais de 60 quartos, 97 funcionários e hóspedes de todos os lugares passando por seus corredores e saguão, num intenso movimento, onde
circulavam cantores, jogadores de futebol, empresários e turistas.
Entre concorrentes de peso,
como o Hotel Palace, e alguns italianos, que mais tarde cederam seus lugares
a lojas de departamento e bancos, estava o Grande Hotel, com seus
suntuosos 5 andares e suas duas suítes, oferecendo de forma tradicional seus serviços ao público que sabia ali encontrar o
que de melhor havia na cidade.
Pertencia na
época a
Maria Bernadete Rolemberg Mendonça, esposa do empresário João Machado
Rolemberg, que se desfez do mobiliário em 1989, período em que já não havia
mais tanto sentido assim em continuar administrando um prédio daquele
porte.

Mudou-se o tempo, e com
isto também o interesse dos hóspedes em alugar um quarto no Grande
Hotel, principalmente pela localidade - o que antes era privilégio
tornou-se um incômodo para quem vinha tratar de algum assunto em Aracaju.
“Com a chegada das pousadas e de novos hotéis, na área da praia, o
fluxo aqui diminuiu muito, tudo após o governo de Collor”, disse Renato Canuto
de Araújo (foto), o mais velho dos funcionários do Grande Hotel.
Situação
atual
Atualmente o Grande Hotel
- que nunca fechou, ao contrário dos seus concorrentes do centro da cidade
– possui oito funcionários em seu quadro administrativo. Seu atual
dono, Raimundo Juliano, vem desenvolvendo uma série de reformas em sua
estrutura, buscando trazer de volta não o período áureo que o hotel
viveu, mas sim a dignidade de um patrimônio sergipano, que há muito vem
sendo esquecido por quem visita Aracaju. “O proprietário não pode
investir como deveria, já que seria inviável no momento tocar uma
reforma tão grande, sem um retorno imediato”, esclareceu um funcionário
da administração, que explicou ainda que o hotel vem passando por uma série
de reformas desde janeiro de 2004.
Devido a essas
reformas que vêm acontecendo aos poucos, o Grande Hotel já pode mais uma
vez abrigar em seus quartos o número máximo de hóspedes. Outra coisa
que mudou bastante foi o restaurante - o que antes era de cozinha
internacional, passou a ser terceirizado, solução encontrada para que
continuasse funcionando a parte gastronômica do local. Entre as mudanças,
encontra-se em uma de suas salas uma ótica, o que torna evidente o aluguel
de salas para outras empresas.
Também funcionando como
apart-hotel, existem hoje no Grande Hotel alguns moradores que optaram
por viver neste ambiente. Segundo Wellington Santos, esta decisão foi
decorrente da segurança proporcionada pelo local, juntamente com o
atendimento oferecido. “Já almoçava e jantava, só fiz acrescentar o
café da manhã. Moro há 3 meses e já indiquei um grupo de pessoas que
hoje dividem a cobertura a fazer o mesmo!”, esclareceu Wellington, que
é filho de uma ex-funcionária do Hotel.
O público que freqüenta
o Grande Hotel mudou; na sua maioria são vendedores e representantes que passam cerca de dois dias, viajando em seguida.
Hoje, apenas quem restritamente tem algo para fazer no centro reserva um
quarto no hotel. O que significava antes uma média de 25 clientes por semana,
hoje representa 200, o que mostra o retorno lucrativo proporcionado pelas reformas.
Por seguir uma linha bastante tradicional, o hotel é
criterioso quando o assunto é a prostituição que acontece ao seu redor,
no centro da cidade, à noite. “Mantemos o nível de primeira linha, sem
com isso podar, impedir as atitudes de nossos hóspedes”, diz Renato
Canuto.
Algumas histórias
Conta
Renato Canuto
que em 1980 houve dois crimes no Grande Hotel. Segundo ele, no primeiro
caso, a mulher de um baiano saiu logo cedo e não retornou, e, quando a
camareira entrou para limpar o quarto, o homem estava lá morto, caído no
chão, coberto por lençóis: tinha sido enforcado. O segundo caso envolveu um funcionário da Petrobrás, que chegou
armado e tentou
matar um hóspede. Ele subiu, bateu na porta e com uma faca feriu um olho
da vítima, sendo preso ainda no hotel.
Entre
os hóspedes mais famosos que já passaram pelo hotel estão Pelé,
Chacrinha, Roberto Carlos, entre outros.
|