Webjornal - Quinzenal  - Edição 54 - Aracaju,   25  de abril  a  09  de maio  de 2004
________________________________________________________________________________________

Reportagem

O mito do Eldorado

Historiador estuda a gênese das lendas que falam da existência de ouro e prata na Serra de Itabaiana

Por Paulo Lima
Fotos: Paulo Lima e Marcel Nauer

Um dos mais persistentes mitos em torno da Serra de Itabaiana (foto), situada a 45 km de Aracaju,  indica que haveria por ali riquezas em metais.  A área ocultaria um "carneiro de ouro". Porém, ouro de verdade - e também prata - só é encontrado nas lojas de ouriversaria de Itabaiana, não muito longe daquele local. De onde veio esse mito? Por que continua vivo até hoje? O historiador e pesquisador Thiago Fragata, 30 anos de idade, alcunha de José Thiago da Silva Filho, se interessou pelo assunto e foi buscar nas brumas do tempo as respostas para a longa vida dessa tradição.

Segundo Fragata, esse mito surge a partir das expedições do aventureiro Belchior Dias Moréia, que alardeou a descoberta de uma grande quantidade de prata na região, no século 16. Embora nada tenha sido efetivamente localizado, a notícia serviu de impulso para outras expedições particulares e governistas, que tomaram os caminhos da Serra nos séculos seguintes.  

O mito de um eldorado em terras tropicais tem origem distante. Ele já vinha sendo  procurado pelos espanhóis desde o século 15. "Enquanto os portugueses ficaram apenas arranhando as costas do Brasil, a política espanhola vai tentar interiorizar", explica Fragata (foto). "É aí que esse mito ganha  o território brasileiro".

As primeiras minas de prata foram descobertas no Brasil por Gabriel Soares de Souza - primo de Belchior Dias Moréia - a serviço dos reis da Espanha. O alarde atrai o interesse de Dias Moréia, que por aqui acaba se estabelecendo. Após 10 anos de pesquisa, ele anuncia a descoberta das minas de prata, com o propósito de angariar títulos de nobreza. Na realidade, as tais minas jamais foram encontradas. 

Foram exatamente essas nuances pouco estudadas da colonização espanhola no Brasil, principalmente aqui em Sergipe, que determinaram o interesse de Thiago (foto) pelo assunto. O primeiro contato com o mito se deu pela leitura de um estudo de Sérgio Buarque de Holanda, o clássico Visões do Paraíso.  

O estudo de Fragata permite situar o mito do El dorado num outro contexto. "Ele vai deixar de ganhar o domínio espanhol para ganhar o domínio sergipano". O mito passa a ser reconsiderado também porque nunca antes o Eldorado havia sido procurado no Nordeste, e sim no Norte, na região amazônica. "O rio Orinoco, até o século 16, é que era o ponto preciso e real onde estava o Eldorado", explica. "Com Gabriel Soares de Souza, a perspectiva vai mudar para as cabeceiras do rio São Francisco (foto)". 

É esse mito que ganha os tempos atuais e povoa o imaginário em torno da Serra, alimentando o intenso comércio de jóias de Itabaiana. "O ouro de lá é oriundo de São Paulo, do Rio de Janeiro", diz Fragata. "Perceba como a população apropriou-se dessa fama". As pesquisas mineralógicas encaminhadas pelo governo e particulares até o alvorecer do século 20 - explica o historiador -  localizaram por lá apenas cascalhos de ouro. De acordo com Thiago Fragata, um outro historiador, Felisbelo Freire, afirma no clássico História de Sergipe  que chegou a encontrar ouro em pó na Serra de Itabaiana, porém com pouco valor comercial. 

Contra as evidências materiais, porém, continua valendo a força do mito, como substrato dos sonhos de riqueza e grandeza - essas coisas do reino dos homens.   

               

(c) Todos os Direitos Reservados