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Reportagem
O
mito do Eldorado
Historiador estuda a gênese das
lendas que falam da existência de ouro e prata na Serra de Itabaiana
Por Paulo
Lima
Fotos: Paulo Lima e Marcel Nauer

Um
dos mais persistentes mitos em torno da Serra de Itabaiana (foto), situada
a 45 km de Aracaju, indica
que haveria por ali riquezas em metais. A área ocultaria um
"carneiro de ouro". Porém, ouro de verdade - e também prata -
só é encontrado nas lojas de ouriversaria de Itabaiana, não muito longe
daquele local. De onde veio esse mito? Por que continua vivo até hoje? O
historiador e pesquisador Thiago Fragata, 30 anos de idade, alcunha de
José Thiago da Silva Filho, se interessou pelo assunto e
foi buscar nas brumas do tempo as respostas para a longa vida dessa
tradição.
Segundo
Fragata, esse mito surge a partir das expedições do aventureiro Belchior
Dias Moréia, que alardeou a descoberta de uma grande quantidade de prata na região, no século 16. Embora nada tenha sido efetivamente
localizado, a notícia serviu de impulso para outras expedições
particulares e governistas, que tomaram os caminhos da Serra nos séculos
seguintes.

O
mito de um eldorado em terras tropicais tem origem distante. Ele já vinha
sendo procurado pelos espanhóis desde o século 15. "Enquanto
os portugueses ficaram apenas arranhando as costas do Brasil, a política
espanhola vai tentar interiorizar", explica Fragata (foto). "É
aí que esse mito ganha o território brasileiro".
As
primeiras minas de prata foram descobertas no Brasil por Gabriel Soares de
Souza - primo de Belchior Dias Moréia - a serviço dos reis da Espanha. O
alarde atrai o interesse de Dias Moréia, que por aqui acaba se
estabelecendo. Após 10 anos de pesquisa, ele anuncia a descoberta das
minas de prata, com o propósito de angariar títulos de nobreza. Na
realidade, as tais minas jamais foram encontradas.
Foram
exatamente essas nuances pouco estudadas da colonização espanhola no
Brasil, principalmente aqui em Sergipe, que determinaram o interesse de
Thiago (foto) pelo assunto. O primeiro contato com o mito se deu pela
leitura de um estudo de Sérgio Buarque de Holanda, o clássico Visões
do Paraíso.

O
estudo de Fragata permite situar o mito do El dorado num outro
contexto. "Ele vai deixar de ganhar o domínio espanhol para ganhar o
domínio sergipano". O mito passa a ser reconsiderado também porque
nunca antes o Eldorado havia sido procurado no Nordeste, e sim no Norte,
na região amazônica. "O rio Orinoco, até o século 16, é que era
o ponto preciso e real onde estava o Eldorado", explica. "Com
Gabriel Soares de Souza, a perspectiva vai mudar para as cabeceiras do rio
São Francisco (foto)".
É
esse mito que ganha os tempos atuais e povoa o imaginário em torno da
Serra, alimentando o intenso comércio de jóias de Itabaiana. "O
ouro de lá é oriundo de São Paulo, do Rio de Janeiro", diz
Fragata. "Perceba como a população apropriou-se dessa fama".
As pesquisas mineralógicas encaminhadas pelo governo e particulares até
o alvorecer do século 20 - explica o historiador - localizaram por
lá apenas cascalhos de ouro. De acordo com Thiago Fragata, um outro
historiador, Felisbelo Freire, afirma no clássico História de Sergipe
que chegou a encontrar ouro em pó na Serra de Itabaiana, porém com pouco
valor comercial.
Contra
as evidências materiais, porém, continua valendo a força do mito, como
substrato dos sonhos de riqueza e grandeza - essas coisas do reino dos
homens.
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