
Webjornal - Quinzenal - Edição 56 - Aracaju,
23 de maio a 06 de junho de 2004
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Reportagem Sobre
ética e comunicação Texto
e foto:
Paulo
Lima
Terça-feira 18, auditório da reitoria da Universidade Federal de Sergipe. Marcada para iniciar às 9 h, a palestra do jornalista Eugênio Bucci começa com pelo menos uma hora de atraso. A palestra foi parte da semana de comemoração dos 36 anos de fundação da Universidade Federal de Sergipe. O tema proposto, ética e comunicação, foi ampliado pelo palestrante, que se estendeu por diversos outros tópicos ao longo de cerca 2 horas de exposição. Bucci opôs a ênfase dada à realidade de mercado à necessidade de uma postura crítica face à realidade existente. Segundo ele, o aprofundamento dessa crítica só pode ocorrer na universidade, cuja função é "servir de contraponto à realidade de mercado". É preciso distinguir ainda aquilo que o jornalismo coloca como entretenimento da sua verdadeira especificidade que é oferecer informação. E a informação, diz Bucci, é um direito do cidadão, uma conquista que nasce com a democracia. Atual presidente da Radiobrás, Bucci acumula ampla experiência na grande imprensa. Foi diretor das revistas Superinteressante e Quatro Rodas, articulista da Folha, do Estado de São Paulo e da Veja, e secretário editorial da Editora Abril. Como autor, escreveu Brasil em tempo de TV (1996), Sobre ética e imprensa (2000), e Do B - crônicas críticas para o caderno B do Jornal do Brasil (2003), entre outros livros. No final do evento, foi assinado um convênio entre a UFS e a Radiobrás que permitirá aos estudantes do curso de Rádio e TV produzir programas alinhados ao padrão daquela agência noticiosa do governo. Leia a seguir trechos da palestra. *** O fetiche da prática "Eu vejo algumas vezes em propagandas de universidades algumas instituições de ensino que se vangloriam de ensinar a partir da prática. É quase que um fetiche do valor da prática sobre o valor do conhecimento e do pensamento. Se a prática fosse o império da verdade, o pensamento de nada valeria. Se a prática fosse o critério da verdade, nesses termos como a expressão é posta hoje, sem o valor utópico que ela já teve uns 20 ou 30 anos atrás, nós ainda teríamos dentistas aprendendo a tratar a boca das pessoas na prática; nós teríamos médicos aprendendo o seu ofício na prática; nós teríamos rábulas e não teríamos advogados, e o pensamento seria sempre proscrito, retirado a segundo plano frente ao adestramento prático, como se as atividades fossem habilidades manuais apenas. Superar marcos Eu, quando recebia jovens universitários na Editora Abril, no nosso curso abril de jornalismo, eu dizia pra eles: você estão aqui para inventar um jeito diferente de fazer o que já é feito, e para superar os marcos daquilo como fazem essa mesma coisa hoje. Portanto, não desistam dos sonhos que vocês trazem hoje na cabeça, e não deixem que a tirania do dia-a-dia desmanchem as formulações que vocês puderam conhecer na faculdade". Função da universidade "A função da universidade é criticar a realidade existente. Eu posso dizer isso até o fundo, e posso dizer que a isso se reduz a razão de ser da universidade. Claro que se eu fizer essa afirmação, eu vou estar reduzindo o sentido da universidade. Mas eu posso fazer porque se não houver uma crítica da realidade existente, a universidade não servirá para nada. Portanto, é possível que a crítica da realidade existente não contenha tudo do que a universidade possa fazer. Mas é verdade que, sem a crítica da realidade existente, nada do que a universidade faz terá valor. A função da universidade hoje é servir de contraponto para a realidade de mercado". Realidade de mercado "A realidade de mercado é entendida muitas vezes como aquela dentro da qual pode acontecer a excelência jornalística, e só aí. O jornalismo muitas vezes é ensinado como algo que se desenvolveu no mercado e pelo mercado. Daí o fetiche de muitos que dizem "ah, fulano é um profissional de sucesso, fez isso, fez aquilo outro, e portanto tem muito a ensinar pra vocês". E, na universidade, essa pergunta é de cabeça para baixo. Nós deveríamos nos perguntar: o que o pensamento crítico pode ensinar ao mercado? E o que é que vocês, quando sair daqui, podem levar de novo para o mercado?" Especificidade do jornalismo "O jornalismo existe porque o cidadão tem direito à informação. Isso tem tudo a ver com a atividade jornalística, e tudo a ver com a ética jornalística. O direito à informação é uma conquista da democracia, é uma conquista política que começa a valer a partir da Declaração Universal dos Direitos do Homem ainda em 1789". Informação jornalística "Nós, quando somos entregues ao piloto automático do fetiche da prática e do fetiche do mercado, pensamos que a informação jornalística é uma mercadoria que você compra na banca, ou que você ouve no rádio ou na televisão. Aparentemente de graça se ouve a informação jornalística na televisão e no rádio, e não é de graça. Quando se ouve informação no rádio ou na televisão comerciais, acontece uma troca. Nós público emprestamos ouvidos e olhos para recebermos publicidade em troca de termos atrações que são chamadas de conteúdo de entretenimento". Direito à informação "Assim como tenho direito à educação, assim como uma criança tem direito a ir pra a escola, se nós ficarmos acostumando o nosso senso comum a entender que isso é um direito, um cidadão tem direito a estar bem informado, exista mercado da informação ou não exista mercado da informação. Isto é algo que se pode aprofundar dentro do ambiente universitário, porque o mercado não lhe dará tempo, na linha de produção da notícia, de se parar para se refletir sobre isso". Delegação de poder "Por que o cidadão tem direito à informação? Para que a democracia funcione. Ora, a democracia só pode funcionar se houver delegação de poder. A delegação de poder é o ato pelo qual o cidadão, fonte originária de todo o poder, delega, direta ou indiretamente, esse poder na forma de um mandato para o representante seu. Para que ele faça isso com propriedade, com sustentação, ele precisa estar bem informado. Por isso, as informações são de natureza pública, são de interesse público e o cidadão tem direito a ela". Ética na comunicação "Quando a gente fala em ética em comunicação, ou, mais propriamente, em ética no jornalismo, a gente está falando de uma atividade que só tem lugar social e só tem lugar institucional porque o cidadão tem direito à informação e toda a comunicação que se vai estabelecer aí é baseada na confiança entre os que lêem, os que vêem, os que escutam e aqueles que enunciam a comunicação. Só assim a democracia pode funcionar. Por isso se diz com razão que a imprensa livre é um dos pilares da democracia". |
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