Webjornal - Quinzenal  - Edição 57 - Aracaju,  06 a 20  de maio  de 2004
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Reportagem

Histórias do Brasil profundo

A jornalista Aline Cântia fala no X Encontro de Comunicação de Sergipe  sobre sua experiência junto à comunidade Kalunga, um remanescente de quilombo no sertão de Goiás

Texto e foto: Paulo Lima

Quem vê Aline Cântia em ação, descrevendo com entusiasmo a sua experiência jornalística, se surpreende ao tomar conhecimento da idade da moça: 22 anos. A bem da verdade, ela concluiu a graduação em Jornalismo em fins do ano passado. Um tempo tão curto, porém,  não reflete  o grau de maturidade que essa mineira de Belo Horizonte já foi capaz de adquirir. Durante 3 meses, entre os dias 27 de dezembro de 2003 e 16 de fevereiro de 2003, Aline, ao lado do fotógrafo Leonardo Boloni, abandonou as comodidades da vida urbana e foi ver de perto o modus vivendi da comunidade Kalunga, um remanescente de quilombo no sertão de Goiás.

"Queria fazer alguma coisa diferente", disse Aline em palestra realizada na noite de segunda-feira 31, durante o  X Encontro de Comunicação de Sergipe,  no campus II da Universidade Tiradentes, em Aracaju.

Discutindo o viés do Jornalismo como registro histórico, Aline enriqueceu o tema com nuances da sua incursão pelo Brasil profundo, trazendo à tona um tipo de relato que, normalmente, passa ao largo das páginas da grande imprensa. A sua iniciativa, que nasceu de um projeto desenvolvido no Curso de Pós-Graduação Latu Sensu em Jornalismo e Práticas Contemporâneas, da UNI-BH, coordenado pelos professores Fernando Resende e Bruno Leal, pode ser situada no âmbito da grande reportagem, um gênero que conheceu seus tempos áureos na década de 1970 com a pioneira revista Realidade, hoje considerado démodé pelos padrões do jornalismo pautado pelo fetiche do furo.

A preocupação de Aline em enveredar por um jornalismo alternativo, diverso da camisa-de-força normalmente praticada nos guetos das redações, já se manifestava nos tempos da faculdade.  Enquanto estudante, ela produziu um programa de rádio, o Papo de botequim,  e ajudou a criar uma cooperativa de jornalismo que chegou a contar com 20 integrantes. Aline visava, sobretudo, "outro jeito de fazer jornalismo e até ganhar dinheiro". E, por que não, conquistar a perenidade, ultrapassando o imediatismo do factual, "saindo da margem e se tornando memória", disse.

Movida por esse ideal, ela foi à luta. "Fiz um projeto e comecei a pedir dinheiro", explicou. "As pessoas me davam 10, 50 reais". Resolvido o problema orçamentário, Aline seguiu para o sertão de Goiás. Em meio à comunidade Kalunga, ela testará os seus limites de repórter, ultrapassando-os. "Cheguei lá com um olhar viciado, de jornalista, era registrar e achar que estava ótimo". 

Na comunidade moram 4.500 negros. O quilombo tem quase 500 anos de existência. É nesse cenário tão insólito quanto rico que Aline viverá um denso aprendizado. O desafio fundamental de se fazer compreender vai demandar mudanças em sua postura. "Percebi que tinha que entrar na comunidade, mudar minha linguagem".   

Trata-se de um esforço que implicou em retrabalhar o ponto de vista do observador. "Eu tinha que pegar o olhar deles", disse. "É fácil chegar com o nosso olhar e escrever qualquer coisa, que são miseráveis". Aline contou que, no início, enfrentou a desconfiança da comunidade. Jornalistas não angariavam muita simpatia por lá, tudo porque um coleguinha passou uma semana com os kalungas e a experiência rendeu um livro. Naturalmente detratando a comunidade, que ganhou a pecha de miserável e suja. 

Para Aline, a convivência com os kalungas significou, além de tudo, um diálogo do jornalismo com a antropologia, esgarçando assim a fronteira do meramente factual. Da sua experiência, ela extraiu, por assim dizer,  o seu manual pessoal de redação. O que ela aprendeu é que, em primeiro lugar, é preciso desconstruir a pauta. Trata-se de uma lição valorosa, uma vez que hoje, nas linhas de produção da notícia, não é incomum que repórteres cubram uma matéria com um pré-julgamento sobre a mesma matéria. O que Aline concluiu em seguida é que é preciso estabelecer uma observação participante. "Ia com as mulheres tomar banho nos rios", afirmou. "Não quis registrar, quis conviver com eles, sem interferir". 

Essa lição remete ao passo seguinte: é preciso aceitar a aventura de se colocar no lugar do outro. E, por último, mas não menos importante para Aline: é preciso considerar o fator tempo para realizar um trabalho com essa profundidade. O açodamento da informação,  o imperativo da velocidade propiciado por mudanças tecnológicas tem levado o jornalismo a viver uma ampla crise de identidade. 

De posse de uma tremenda massa de informações, Aline se deparou com o desafio final: produzir o texto que contasse a história. "Como vou conseguir passar isso  para o papel?", perguntava-se.  Mais uma vez, ela teve de construir seu caminho, criar uma narrativa que passava a milhas de distância do lead básico aprendido nos bancos da escola.  

O trabalho de Aline evoca uma reflexão do jornalista Fernando Morais, que, à luz da sua larga experiência de um grande contador de histórias (Olga, A ilha e Chatô, o rei do Brasil), afirma que há no Brasil muitas histórias a ser contadas, falta porém quem as conte. Se depender da sensibilidade e do esforço de jornalistas como Aline Cântia, o público conhecerá ainda muitas histórias. Um exemplo disso é o projeto de revista de cultura que ela, mineiramente e com persistência, vai tocando, fruto da sua aventura nos rincões de Goiás.

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Leia a narrativa de Aline Cântia e veja as fotos de Leonardo Boloni:

http:// www.labcom.ubi.pt/ agoranet/04/cantia-aline-boloni-leonardo-quilombo-kalunga.pdf
http://www.brasiloeste.com.br/noticia.php/1007

 

               

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