Webjornal - Quinzenal  - Edição 58 - Aracaju,  20  de junho a  04 de julho  de 2004
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Reportagem

Memória de uma cidade

Museu de rua instalado na ponte do imperador reproduz o centro de Aracaju nas primeiras décadas do século 20

Texto e fotos: Paulo Lima

"Tá massa", surpreende-se o jovem estudante enquanto observa a pequena cidade de brinquedo bem a sua frente. Maravilhado, ele vai contornando a estrutura de vidro e madeira que abriga a maquete reproduzindo o centro de Aracaju, da forma como os citadinos a vivenciavam entre as décadas de 1920 e 1940. "Perfeita", exclama um senhor grisalho encantado com as miniaturas que simulam o passado.

O local para a instalação do projeto do museu de rua, uma iniciativa da prefeitura de Aracaju,  não poderia ser mais simbólico - a velha ponte do imperador, construída em 1860 como um simples trapiche para receber o imperador D. Pedro II e sua entourage, em visita às províncias do Norte do Brasil. 

Às 9h da quinta-feira 17, um dia após a abertura para o público, o livro de visitas  já registra quase mil visitas. O local é varrido pela brisa anárquica do rio Sergipe, alvoroçando trajes e melenas, algo impensável para a costumeira quietude de um museu. A reprodução fidedigna do tempo do onça foi calcada em fotografias do período.   

Num relance é possível avistar todos os quadrantes desta cidade liliputiana. Lá está o hotel Brasil, um dos primeiros de Aracaju, hoje ocupado pelo prédio da Assembléia Legislativa. E vê-se o velho Cine Rio Branco, cujo passado centenário foi simplesmente posto a pique em 2002. E a lendária residência da família Nicola Mandarino, apedrejada por estudantes e populares na Segunda Guerra Mundial, em protesto contra os torpedeamentos de navios nas costas de Sergipe. Acusados de espiões do Eixo nazi-fascista, os Mandarino seriam posteriormente inocentados. E lá estão os hidroaviões que faziam o charme do rio Sergipe. Ao todo o museu mostra 48 pontos principais da então Aracaju, entre residências, órgão públicos e outras edificações. Com um simples apertar de um botão num painel, um desses pontos se acende e é facilmente identificado na maquete. 

O pequeno simulacro do passado evoca causos entre os mais idosos presentes ao museu. José Menezes Santos, um aposentado de 74 anos, se revê nas pequenas imagens de madeira. Ele aponta para um prediozinho amarelado e informa: "Ali no cabaré Imperial matavam três todas as noites". E arremata com sarcasmo: "Eram enterrados por ali mesmo, no areal, em covas cavadas com as mãos". Ele prossegue desencavando histórias. "Está vendo o prédio da rodoviária?", indaga. "Por ali era tudo morro de areia. Quando foram derrubados, descobriram-se várias ossadas". Detalhe: o Imperial existe até hoje, embora a maior parte do seu espaço tenha sido transformado em lojas comerciais. 

Mas visitante com conhecimento de causa, como José Menezes, era uma exceção naquela manhã. Estudantes, trabalhadores e curiosos dominavam o novo point, entrelaçando lições de história com lazer.  No museu de rua de Aracaju, não há lugar para pompas e circunstâncias. 

               

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