Webjornal - Quinzenal  - Edição 59 - Aracaju,   04  a 18 de julho  de 2004
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Reportagem

Um poeta das sombras

Obra do sergipano Hermes Fontes, que se tornou celebridade nacional aos 19 anos, ganha nova antologia

Por Paulo Lima

A avenida Hermes Fontes, que atravessa uma larga extensão da zona sul de Aracaju, pouco tem a ver com o poeta que hoje lhe empresta o nome, exceto talvez pela agitação que lhe é típica - os poetas, mesmo quando sob um aparente oceano de quietude, vivem agitadas ondas interiores.

Não foi diferente com Hermes Fontes, que nasceu em Boquim, interior de Sergipe, em 28 de agosto de 1888, e se perdeu na imensidão do mundo, alcançando o status de celebridade nacional com apenas 19 anos de idade, graças à sua grandeza como poeta. Cometeu suicídio em 26 de dezembro de 1930, no Rio de Janeiro, mesmo ano em que outro grande poeta, o russo Maiakóvsky, também desistia da vida.

O ato pouco original pôs fim a uma rica trajetória poética que agora é alvo de nova antologia - a obra do poeta já fora objeto da atenção de Manuel Bandeira, que a ela rendeu um trabalho. O livro Antologia Poética, organizada por José Costa Almeida, professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira da Universidade Federal de Sergipe, aborda a lírica de Hermes Fontes e traz estudos introdutórios sobre sua poesia.

O êxito como escritor, alcançado muito cedo, não trouxe benefício pessoal ao poeta. "Cantou, constantemente em suas obras, o sentimento idealizado do amor, mas suas relações amorosas eram inconstantes e traziam-lhe sempre, como saldo, uma amarga sensação de enjeitado", escreve Costa Almeida. Hermes Fontes tampouco conseguiu realizar o sonho de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Ele tentou cinco vezes. "De acordo com alguns imortais, seu físico era impróprio para um acadêmico: pequeno, 1,54m, cabeça grande demais, meio surdo e gago, além de extremamente feio". O poeta conseguiu, contudo, entrar para a Academia Sergipana de Letras.

Poética

Hermes Fontes estreou com o livro Apoteoses. Tinha 19 anos e obteve amplo reconhecimento do seu talento. Dele disse o poeta Olavo Bilac: "É Hermes Fontes um moço, quase um menino cujo livro Apoteoses é uma revelação de força lírica".  O livro influenciará a poesia brasileira no começo do século 20.

O poeta teve sua obra marcada por uma temática obsessiva, a equivalência entre a vida e a morte. "E o voluntário exílio me afigurara/Que ando seguindo o próprio enterramento/E abrindo, em vida, a própria sepultura...", escreveu de forma premonitória. 

"A vida definida por Hermes Fontes", escreve Almeida Costa, "é o espaço de desagregação do ser; tem o sabor da existência em que os pesares apenas se alteram".  

Ao longo da sua obra, o poeta se dedicou a temas universais, inclusive política, revelando-se, em algum momento, seguidor de idéias anarquistas. "Mas Hermes Fontes se mostra melhor poeta quando trata de assuntos interiores, quando fala de amor e de desilusões pessoais".

Como todo grande poeta. 

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Cronologia da obra de Hermes Fontes:

Apoteoses (1908)
Gênese (1913)
Mundo em Chamas e Ciclo de Perfeição (1914)
Juízos Efêmeros (prosa, 1916)
Miragem do Deserto (1917)
Epopéia da Vida (1917)
Microcosmo (1919)
O Despertar e A Lâmpada Velada (1922)
A Fonte da Mata (1930)


 
              

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