Webjornal - Quinzenal  - Edição 62 - Aracaju,   15 a  29 de agosto  de 2004
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Reportagem

Essa gente cearense

Retratos do cotidiano simples de um trabalhador de engenho, um pescador e uma rendeira 

Texto e foto:  Júlia Gaspar*

Seu Jorge trabalha com cana, faz rapadura, mel-de-cana, e caldo-de-cana.  Num engenho em Fortaleza (CE), labuta desde o raiar do dia até a hora em que o sol se põe.  “Se o sol trabalha, eu também trabalho, mas se ele vai dormir, eu sigo o seu exemplo”, diz o homem tímido, envaidecido pelas fotos tiradas.  Não gosta muito de falar, tampouco de perguntas pessoais, prefere trabalhar sossegado.  Ele bota a cana para ser espremida, seu caldo cai numa caldeira, e passa de uma caldeira para outra, e vai, e volta, e bota-se um pó branco, o qual ele chama de goma, e a parte “suja” vai para outra caldeira ao lado. “Mas para fazer o mel não leva a goma, esta é só para a rapadura”, explica ele depois de ter passado parte do que havia na última caldeira para uma panela bem larga, onde mexe até dar o ponto da rapadura.  “A senhora quer o puxa?”pergunta ele, enquanto pega um pouco de rapadura antes do ponto certo, dizendo que é preciso passar a goma na mão para não grudar, depois, então, é só puxar e amassar até ficar bem branquinho.    “É gostoso”, afirma ele, “as crianças vêm tudo aqui pedir e os turistas também gostam”.

Para colocar a rapadura na forma, não serve qualquer uma, tem que ser uma madeira especial, senão “não presta, não”, assegura Seu Jorge, sem conseguir levantar a cabeça, talvez por respeito, talvez por acanhamento.  O bagaço vai para aumentar o fogo, tudo se aproveita da cana.

Chegando à praia, o mar parece fazer um convite, suas águas calmas e quentes chamam para um banho, suas ondas mansas acariciam e demonstram guardar segredos.  Em Prainha (CE), a poucos metros do mar , numa casinha simples, moram Seu Oliveira e Dona Auristela.  Casados há 53 anos, tiveram 13 filhos, porém apenas 8 sobreviveram, 3 morreram ainda na barriga, 2 chegaram a nascer vivos, mas não agüentaram a vida difícil.  O casal conta que, quando completaram 50 anos de casados, ganharam um carneiro vivo de 51 quilos para a festa.

Eles já são bem idosos, mas não pararam de trabalhar, nem pretendem fazê-lo.  Seu Oliveira é pescador, isso é tudo o que ele sabe fazer na vida, além de jangadas de verdade e miniaturas, as quais vende para um comerciante revender a um preço muito superior ao que ele as julga.  Ele sempre as fez com a vela branca, mas o comerciante quis também amarela e vermelha, a fim de chamar mais a atenção dos turistas.  Ele explica que usa “cipó de Imbé, que vem do olho da árvore, na mata fechada, onde as cobras cantam.”  Mas diz nunca ter sido mordido por uma.  Também utiliza madeira Imburana, raiz de cajueiro, tranca, mata-matá, entre outros materiais que não conseguiu lembrar o nome.

O pescador conta que já viajou na vida.  Foi para Minas Gerais e ficou impressionado como lá tinha vaca.  “Eram muitas vacas deitadas e o compadre chamava cada uma pelo nome e elas vinham.  Chamou a mais bonita, aí ela levantou e o compadre lavou as tetas dela e eu tomei o leite”, contou num estado de nostalgia.  Mas do que ele entende mesmo é da pesca, e explica que no seu tempo não se usava fio de nylon para pescar, eram 3 fios de linha 10 enrolados e banhados num líquido fervido, depois de tirado de um “machucado” no tronco do cajueiro.

Fica feliz ao lembrar das suas pescarias e conta: “o compadre da cidade queria ir pescar na minha jangada, então eu levei o homem, mas ele não agüentou.  Pescou só dois peixinhos pequenininhos e não ficou muito gostoso de estar lá.  Disse que era pra voltar e que pagava o prejuízo do dia.  Eu deixei o compadre e voltei pro mar, quando cheguei de volta e o amigo viu o meu caixão de peixe, ficou impressionado.”

O casal tem um sabiá chamado  Cristina.  Antes tinham um campina de cabeça vermelha, mas, segundo eles, morreu de tristeza, causada pelo mau-olhado de um homem que o quis comprar, porém eles não venderam.  Alguns dias depois, o pássaro amanheceu morto.

Dona Auristela é rendeira e não interrompe seu trabalho ao falar da vida, nem para enxugar as lágrimas que brotam ao lembrar dos filhos brincando de roda na terra batida.  Hoje já estão todos criados e alguns foram tentar a vida em outros estados, como Bahia e Rio de Janeiro.  Uma de suas filhas é professora e candidata a vereadora, outra também é rendeira e faz seus trabalhos na barraca onde vende suas rendas e as da mãe.  A idade não permite mais que Dona Auristela faça o mesmo, por isso faz suas rendas em casa.  Ela conta, orgulhosa, que fez uma colcha linda e vendeu rápido.  Explica que usa o “birro” para fazer renda e ri ao lembrar que o turista o chama de “biurro”.  Mostrou uma toalha de mesa feita por ela, explica que o trabalho completo chama-se “renda de perna de polvo” e cada pedacinho é chamado de “barata”.  “Um turista perguntou se é barata de parede, porque se for é traça, eu disse que traça é pior, porque rói”, brincou a senhora, enquanto fazia sua renda, escrevendo a vida em pontos de linha e contando o tempo no balançar dos birros.

Perguntaram se, no Rio de Janeiro, era sempre que se esbarrava com algum artista, sem saberem eles que são artistas da vida, apesar de não estarem na mídia; e sem nunca terem medido o tamanho de suas forças, que, unidas, calariam qualquer poderoso.  Eu lhe quero muito bem, menina”, disseram na hora da partida.

* Estudante de Jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)

                  

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