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Reportagem
Essa
gente cearense
Retratos do cotidiano simples de um
trabalhador de engenho, um pescador e uma rendeira
Texto
e foto:
Júlia Gaspar*

Seu
Jorge trabalha com cana, faz rapadura, mel-de-cana, e caldo-de-cana.
Num engenho em Fortaleza (CE), labuta desde o raiar do dia até a
hora em que o sol se põe. “Se
o sol trabalha, eu também trabalho, mas se ele vai dormir, eu sigo o
seu exemplo”, diz o homem tímido, envaidecido pelas fotos tiradas.
Não gosta muito de falar, tampouco de perguntas pessoais,
prefere trabalhar sossegado. Ele bota a cana para ser espremida, seu caldo cai numa
caldeira, e passa de uma caldeira para outra, e vai, e volta, e bota-se um
pó branco, o qual ele chama de goma, e a parte “suja” vai para outra
caldeira ao lado. “Mas para
fazer o mel não leva a goma, esta é só para a rapadura”, explica
ele depois de ter passado parte do que havia na última caldeira para uma
panela bem larga, onde mexe até dar o ponto da rapadura.
“A senhora quer o puxa?”,
pergunta ele, enquanto pega um pouco de rapadura antes do ponto
certo, dizendo que é preciso passar a goma na mão para não grudar,
depois, então, é só puxar e amassar até ficar bem branquinho.
“É gostoso”, afirma
ele, “as crianças vêm tudo aqui
pedir e os turistas também gostam”.
Para
colocar a rapadura na forma, não serve qualquer uma, tem que ser uma
madeira especial, senão “não
presta, não”, assegura Seu Jorge, sem conseguir levantar a cabeça,
talvez por respeito, talvez por acanhamento.
O bagaço vai para aumentar o fogo, tudo se aproveita da cana.
Chegando
à praia, o mar parece fazer um convite, suas águas calmas e quentes
chamam para um banho, suas ondas mansas acariciam e demonstram guardar
segredos. Em Prainha (CE), a
poucos metros do mar , numa casinha simples, moram Seu Oliveira e Dona
Auristela. Casados há 53
anos, tiveram 13 filhos, porém apenas 8 sobreviveram, 3 morreram ainda na
barriga, 2 chegaram a nascer vivos, mas não agüentaram a vida difícil.
O casal conta que, quando completaram 50 anos de casados, ganharam
um carneiro vivo de 51 quilos para a festa.
Eles
já são bem idosos, mas não pararam de trabalhar, nem pretendem fazê-lo.
Seu Oliveira é pescador, isso é tudo o que ele sabe fazer na
vida, além de jangadas de verdade e miniaturas, as quais vende para um
comerciante revender a um preço muito superior ao que ele as julga.
Ele sempre as fez com a vela branca, mas o comerciante quis também
amarela e vermelha, a fim de chamar mais a atenção dos turistas.
Ele explica que usa “cipó
de Imbé, que vem do olho da árvore, na mata fechada, onde as cobras
cantam.” Mas diz nunca
ter sido mordido por uma. Também
utiliza madeira Imburana, raiz de cajueiro, tranca, mata-matá, entre
outros materiais que não conseguiu lembrar o nome.
O
pescador conta que já viajou na vida.
Foi para Minas Gerais e ficou impressionado como lá tinha vaca.
“Eram muitas vacas deitadas
e o compadre chamava cada uma pelo nome
e elas vinham. Chamou a mais
bonita, aí ela levantou e o compadre lavou as tetas dela
e eu tomei o leite”, contou num estado de nostalgia. Mas do que ele entende mesmo é da pesca, e explica que no
seu tempo não se usava fio de nylon para pescar, eram 3 fios de linha 10
enrolados e banhados num líquido fervido, depois de tirado de um
“machucado” no tronco do cajueiro.
Fica
feliz ao lembrar das suas pescarias e conta: “o
compadre da cidade queria ir pescar
na minha jangada, então eu levei o homem, mas ele não agüentou.
Pescou só dois peixinhos pequenininhos e não ficou muito gostoso
de estar lá. Disse que era
pra voltar e que pagava o prejuízo do dia. Eu deixei o compadre e voltei pro mar, quando cheguei de
volta e o amigo viu o meu caixão de peixe, ficou impressionado.”
O
casal tem um sabiá chamado Cristina.
Antes tinham um campina de cabeça vermelha, mas, segundo eles,
morreu de tristeza, causada pelo mau-olhado de um homem que o quis
comprar, porém eles não venderam. Alguns
dias depois, o pássaro amanheceu morto.
Dona
Auristela é rendeira e não interrompe seu trabalho ao falar da vida, nem
para enxugar as lágrimas que brotam ao lembrar dos filhos brincando de
roda na terra batida. Hoje já
estão todos criados e alguns foram tentar a vida em outros estados, como
Bahia e Rio de Janeiro. Uma
de suas filhas é professora e candidata a vereadora, outra também é
rendeira e faz seus trabalhos na barraca onde vende suas rendas e as da mãe.
A idade não permite mais que Dona Auristela faça o mesmo, por
isso faz suas rendas em casa. Ela
conta, orgulhosa, que fez uma colcha linda e vendeu rápido.
Explica que usa o “birro” para fazer renda e ri ao lembrar que
o turista o chama de “biurro”. Mostrou
uma toalha de mesa feita por ela, explica que o trabalho completo chama-se
“renda de perna de polvo” e cada pedacinho é chamado de “barata”.
“Um turista perguntou se é
barata de parede, porque se for
é traça, eu disse que traça é pior, porque rói”, brincou a
senhora, enquanto fazia sua renda, escrevendo a vida em pontos de linha e
contando o tempo no balançar dos birros.
Perguntaram
se, no Rio de Janeiro, era sempre que se esbarrava com algum artista, sem
saberem eles que são artistas da vida, apesar de não estarem na mídia;
e sem nunca terem medido o tamanho de suas forças, que, unidas, calariam
qualquer poderoso. “Eu
lhe quero muito bem, menina”, disseram na hora da partida.
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Estudante de Jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)
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