Webjornal - Quinzenal  - Edição 64 - Aracaju,  12 a 26  de setembro  de 2004
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Reportagem

Histórias de pescador

Causos de quem retira o sustento do mar são contados em livro

Texto e foto:  Paulo Lima

Para um pescador, José Raimundo dos Santos, 44 anos, até que fala pouco. De início, desdiz a fama daqueles que, dependendo do mar para sobreviver, contam histórias de grandeza, pescarias generosas que fazem o ouvinte arregalar os olhos, de tão fantásticas. Mas a economia de palavras de Raimundo, casado e pai de 7 filhos, é só aparente. Quando se sente mais à vontade com o interlocutor, desanda a falar, e acaba por tomar a dianteira na conversa.

Raimundo é filho de pescador. Nasceu no Povoado Rua da Palha, na região do Crasto, litoral sul de Sergipe. Como tantos outros que nascem nas mesmas condições de pobreza franciscana, estudou pouco. Parou com 14 anos. "O estudo na época era devagar, porque não tinha bons professores e havia a dificuldade de ir para a cidade", explica ele. "Além disso, a professora só ensinava até a quarta-série".

O jeito foi tomar o caminho da roça e do mar, como havia feito seu pai.  A pesca se revelou promissora na época em que tomou a decisão. "Era muito boa, porque tinha muito crustáceo e marisco". Hoje, porém, Raimundo passa o dia todo pescando e não traz mais nada.

Fim dos caranguejos

Abre-se um parêntese para explicar. O Crasto era um dos celeiros produtores e exportadores de caranguejo-uçá em Sergipe. O caranguejo, até tempos atrás, era um petisco abundante nas mesas de bar de Aracaju. Uma iguaria altamente apreciada por turistas. De repente, o crustáceo sumiu dos mangues, a ponto de precisar ser exportado de lugares distantes, como o Pará. Uma ironia que tem custado caro para a sobrevivência de pescadores como José Raimundo.

"A partir de 5 anos para cá, foi ficando difícil pescar, muito difícil mesmo", revela Raimundo. A mortandade dos caranguejos ganhou as páginas da mídia local. Algumas explicações para o fenômeno foram dadas. A primeira é que os caranguejos foram envenenados por produtos químicos utilizados na carcinicultura, a cultura de camarão. A segunda é que se trata de uma bactéria ainda desconhecida.

Raimundo tem lá seu palpite:  "Pode ter acontecido de ter um metal pesado ou uma pestilência, pode ter vindo por uma destruição, uma desobediência divina". Se as razões teóricas são difíceis de compreender, a prática explica tudo. Segundo Raimundo, antes era possível vender para todo o estado de Sergipe cerca de 3 mil cordas de caranguejo, e 5 mil para a vizinha Salvador. Uma corda de caranguejo costuma conter em média 6 caranguejos. "Dava para levar uma vida sossegada, os catadores de caranguejo tinham mais dinheiro, trabalhavam mais consciente, porque só trabalhavam 4 dias por semana", diz Raimundo. O que sobrava da semana era gasto entre a roça e o lazer, revela ele entre sorrisos.

Engajado e já mirando o futuro, José Raimundo tentava colocar na cabeça dos colegas que tudo aquilo poderia acabar um tempo, a vidinha mansa de pescar de manhã para comer de tarde. Com o agravamento das condições de pesca do caranguejo, Raimundo foi pragmático: fundou a Associação de Catadores de Caranguejo do Crasto, da qual é presidente. A associação já conta com 120 sócios, todos da região.

O livro

Vem desse momento a idéia de Raimundo de escrever um livro. Convidou para a empreitada o colega Nivaldo, por "ter a letra mais bonita". Nivaldo relutou, achou difícil a missão. Acabou convencido por Raimundo. 

E o livro saiu, escrito à mão, num caderno. Conta as lendas que envolvem os pescadores, como o Saci, a Caipora. "O pescador tem uma idéia de se perder no mangue, por causa da Caipora", explica Raimundo. Por isso que a "vovó do mangue", como os pescadores chamam a Caipora, é retratada no livro.

E o livro é fruto não só das vivências de Raimundo, mas também de pesquisas. Ele conta que foi atrás de gente mais velha, para saber mais histórias, formas mais antigas de pescar que estão além da sua vivência.

Uma vez o livro escrito, restou a Raimundo buscar auxílio para publicá-lo. Ele conta que correu atrás do Ibama, contou alguma histórias ao Sebrae, que pediu o caderno para avaliar. Até o momento, o livro está numa espécie de prelo: foi trabalhado pelo Sebrae, que o colocou em um disquete.

Realista, Raimundo esboça ceticismo quando à publicação das suas narrativas, cruamente intituladas de Vida de Pescador. "A idéia do livro é muito natural", conta Raimundo, agora visivelmente motivado para vender esse novo peixe. "No mato existe uma árvore que se chama canafístula", prossegue ele. "E a canafístula diz o período em que o caranguejo está de leite, não pode ser pescado". Além de servir de bússola para o pescador, Raimundo ensina que a canafístula é uma erva medicinal, utilizada para combater a gripe.

A peça

A história já parecia  estar de bom tamanho. Zé Raimundo tinha que terminar de contá-la, pois, estando em Aracaju, precisava tomar o ônibus de volta ao Crasto às 18 h. Não tinha muito tempo. Mas aí foi que ele saiu-se com uma nova informação que esticou um pouco mais a conversa. Escrevera uma peça. Uma peça! Segundo ele, diferente do livro, a peça é diferente do livro. "O livro foi escrito, e a peça mostra, é realidade". Percebendo que não foi compreendido pelo repórter,  ele arrematou com ênfase: "A peça, no fim, faz rir". E traz, segundo ele,  "um repertório musical que fala de poluição, de mortalidade e de coisas que não existem mais no manguezal".

Demonstrando faro para o negócio, ele se revela também um bom empresário, ao sugerir meios de divulgação da peça: poderia ser apresentada em palestras sobre meio ambiente. A conversa rendeu ainda algum tempo e expôs a inteligência natural desse pescador de traços duros, pele curtida pelas intempéries e com a visão do olho esquerdo comprometida. Mas essa história bem que poderia terminar com a seguinte moral: se não há mais tanto caranguejo e peixe como antigamente, tampouco os pescadores são os mesmos.     

                  

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