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Reportagem
Histórias
de pescador
Causos de quem
retira o sustento do mar são contados em livro
Texto
e foto:
Paulo Lima

Para
um pescador, José Raimundo dos Santos, 44 anos, até que fala pouco. De
início, desdiz a fama daqueles que, dependendo do mar para sobreviver,
contam histórias de grandeza, pescarias generosas que fazem o ouvinte
arregalar os olhos, de tão fantásticas. Mas a economia de palavras de
Raimundo, casado e pai de 7 filhos, é só aparente. Quando se sente mais
à vontade com o interlocutor, desanda a falar, e acaba por tomar a
dianteira na conversa.
Raimundo
é filho de pescador. Nasceu no Povoado Rua da Palha, na região do Crasto,
litoral sul de Sergipe. Como tantos outros que nascem nas mesmas
condições de pobreza franciscana, estudou pouco. Parou com 14 anos.
"O estudo na época era devagar, porque não tinha bons professores e
havia a dificuldade de ir para a cidade", explica ele. "Além
disso, a professora só ensinava até a quarta-série".
O
jeito foi tomar o caminho da roça e do mar, como havia feito seu
pai. A pesca se revelou promissora na época em que tomou a
decisão. "Era muito boa, porque tinha muito crustáceo e
marisco". Hoje, porém, Raimundo passa o dia todo pescando e não
traz mais nada.
Fim
dos caranguejos
Abre-se
um parêntese para explicar. O Crasto era um dos celeiros produtores e
exportadores de caranguejo-uçá em Sergipe. O caranguejo, até tempos
atrás, era um petisco abundante nas mesas de bar de Aracaju. Uma iguaria
altamente apreciada por turistas. De repente, o crustáceo sumiu dos
mangues, a ponto de precisar ser exportado de lugares distantes, como o
Pará. Uma ironia que tem custado caro para a sobrevivência de
pescadores como José Raimundo.
"A
partir de 5 anos para cá, foi ficando difícil pescar, muito difícil
mesmo", revela Raimundo. A mortandade dos caranguejos ganhou as
páginas da mídia local. Algumas explicações para o fenômeno foram
dadas. A primeira é que os caranguejos foram envenenados por produtos
químicos utilizados na carcinicultura, a cultura de camarão. A segunda
é que se trata de uma bactéria ainda desconhecida.
Raimundo
tem lá seu palpite: "Pode ter acontecido de ter um metal
pesado ou uma pestilência, pode ter vindo por uma destruição, uma
desobediência divina". Se
as razões teóricas são difíceis de compreender, a prática explica
tudo. Segundo Raimundo, antes era possível vender para todo o estado de
Sergipe cerca de 3 mil cordas de caranguejo, e 5 mil para a vizinha
Salvador. Uma corda de caranguejo costuma conter em média 6 caranguejos.
"Dava para levar uma vida sossegada, os catadores de caranguejo
tinham mais dinheiro, trabalhavam mais consciente, porque só trabalhavam
4 dias por semana", diz Raimundo. O que sobrava da semana era gasto
entre a roça e o lazer, revela ele entre sorrisos.
Engajado
e já mirando o futuro, José Raimundo tentava colocar na cabeça dos
colegas que tudo aquilo poderia acabar um tempo, a vidinha mansa de pescar
de manhã para comer de tarde. Com o agravamento das condições de pesca
do caranguejo, Raimundo foi pragmático: fundou a Associação de
Catadores de Caranguejo do Crasto, da qual é presidente. A associação
já conta com 120 sócios, todos da região.
O
livro
Vem
desse momento a idéia de Raimundo de escrever um livro. Convidou para a
empreitada o colega Nivaldo, por "ter a letra mais bonita".
Nivaldo relutou, achou difícil a missão. Acabou convencido por
Raimundo.
E
o livro saiu, escrito à mão, num caderno. Conta as lendas que envolvem
os pescadores, como o Saci, a Caipora. "O pescador tem uma idéia de
se perder no mangue, por causa da Caipora", explica Raimundo. Por
isso que a "vovó do mangue", como os pescadores chamam a
Caipora, é retratada no livro.
E
o livro é fruto não só das vivências de Raimundo, mas também de
pesquisas. Ele conta que foi atrás de gente mais velha, para saber mais
histórias, formas mais antigas de pescar que estão além da sua
vivência.
Uma
vez o livro escrito, restou a Raimundo buscar auxílio para publicá-lo.
Ele conta que correu atrás do Ibama, contou alguma histórias ao Sebrae,
que pediu o caderno para avaliar. Até o momento, o livro está numa
espécie de prelo: foi trabalhado pelo Sebrae, que o colocou em um
disquete.
Realista,
Raimundo esboça ceticismo quando à publicação das suas narrativas,
cruamente intituladas de Vida de Pescador. "A idéia do livro
é muito natural", conta Raimundo, agora visivelmente motivado para
vender esse novo peixe. "No mato existe uma árvore que se
chama canafístula", prossegue ele. "E a canafístula diz o
período em que o caranguejo está de leite, não pode ser pescado".
Além de servir de bússola para o pescador, Raimundo ensina que a
canafístula é uma erva medicinal, utilizada para combater a gripe.
A
peça
A
história já parecia estar de bom tamanho. Zé Raimundo tinha que
terminar de contá-la, pois, estando em Aracaju, precisava tomar o ônibus
de volta ao Crasto às 18 h. Não tinha muito tempo. Mas aí foi que ele
saiu-se com uma nova informação que esticou um pouco mais a conversa.
Escrevera uma peça. Uma peça! Segundo ele, diferente do livro, a peça
é diferente do livro. "O livro foi escrito, e a peça mostra, é
realidade". Percebendo que não foi compreendido pelo
repórter, ele
arrematou com ênfase: "A peça, no fim, faz rir". E traz,
segundo ele, "um repertório musical que fala de poluição,
de mortalidade e de coisas que não existem mais no manguezal".
Demonstrando
faro para o negócio, ele se revela também um bom empresário, ao sugerir
meios de divulgação da peça: poderia ser apresentada em palestras sobre
meio ambiente. A conversa rendeu ainda algum tempo e expôs a
inteligência natural desse pescador de traços duros, pele curtida pelas
intempéries e com a visão do olho esquerdo comprometida. Mas essa história bem que poderia terminar com a seguinte
moral: se não há mais tanto caranguejo e peixe como antigamente,
tampouco os pescadores são os mesmos.
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