Webjornal - Quinzenal  - Edição 65 - Aracaju,  26  de setembro a 10 de outubro  de 2004
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Reportagem

Futuro à deriva

A construção da ponte Aracaju-Barra dos Coqueiros pode determinar o fim dos tototós, barcos que fazem a travessia entre os dois municípios

Texto e fotos:  Paulo Lima

Em sua maioria, eles são diminutos, quase uma pequena casca de madeira a se lançar nas águas nem sempre tranqüilas do rio Sergipe. Eles vêm e vão, desenhando uma trajetória ziguezagueante, vencendo o marulho das ondas com a força de pequenos motores. O som ritmado e seco que produzem  - tototó, tototó, tototó... - valeu o apelido definitivo a esses barcos que fazem o transporte diário de passageiros entre Aracaju e a Barra dos Coqueiros. 

A onomatopéia simples, todavia, foi ofuscada nos últimos meses por uma realidade hiperbólica, e que poderá varrer da paisagem fluvial as prosaicas figuras dos tototós. Trata-se da construção da ponte Aracaju-Barra, trombeteada aos quatro ventos pelo governador João Alves Filho como a realização de uma antiga aspiração da população.  Segundo projeções governamentais, a ponte pode significar uma alavanca para o turismo em Sergipe.  Se concretizada, a obra também apagará do mapa os 24 barcos que hoje empregam diretamente cerca de 50 pessoas e transporta, a uma tarifa de R$ 0,50,  centenas de ilhéus para as suas atividades em Aracaju.

Concorrência

Essa não é a primeira vez que os tototós sofrem uma concorrência tão dramática. Há cerca de duas décadas, foi implantado um sistema de modernas lanchas, oferecendo mais comodidades aos usuários dos roteiros Aracaju-Barra dos Coqueiros e Aracaju-Atalaia Nova, exclusivamente cobertos pelos barcos.

Ali os barqueiros viram o negócio ir, literalmente, por água abaixo. Porém, um inesperado boom populacional na Barra dos Coqueiros catapultou a demanda por esse tipo de serviço, com a construção do conjunto Prisco Viana, com aproximadamente 800 casas,  e a abertura de loteamentos. A convivência pacífica do moderno com o tradicional foi então possível. Até hoje.

O cotidiano aparentemente sem sobressalto dos barqueiros, que começam a trabalhar às 5 da manhã e param às 8 da noite, oculta uma preocupação. Como enfrentar a nova marola que pode extinguir suas ocupações? Ely Praxedes dos Santos, de 34 anos,  é presidente da Associação dos Proprietários de Canoas de Barra dos Coqueiros. Foi reeleito para o cargo há 3 meses, para um mandato de 2 anos. Passou 5 anos no primeiro mandato.  Barqueiro há vinte anos, pai de 2 filhos, o mais novo com 4 meses, ele revela o fulcro de suas preocupações: se um sistema integrado de ônibus for criado com a ponte, será o fim dos tototós. 

Compensação

Ele tenta se antecipar a esse cenário, e planeja fazer uma visita aos representantes do governo para discutir o problema. Na mesa, pretende colocar uma proposta de compensação para os barqueiros.  Como? Ainda não consegue definir muito bem. Hoje um trabalhador dos barcos ganha em média cerca de R$ 600,00 por mês, caso não seja dono da própria embarcação. Para os proprietários, flui um percentual de 60% do negócio. Os restantes 40% são repartidos igualmente entre os 2 tripulantes do tototó: o condutor e o cobrador. O vínculo empregatício funciona à base de contrato. As despesas com a contribuição social ficam às expensas do próprio trabalhador. 

Praxedes, que é também candidato a vereador nas eleições de outubro, tem objetivos de modernizar os serviços dos barcos. Vai instituir entre a marujada o uso de fardamento. Para maior comodidade dos usuários, um serviço de sirene e relógio será oferecido. E vai adaptar os flutuantes para as operações de atracação, já que hoje o embarque e desembarque de passageiros é efetuado nas margens, numa operação que requer dos que utilizam o serviço habilidades de equilibrista. 

José Matias dos Santos, 60 anos, pai de 9 filhos, trabalha como barqueiro desde a adolescência. Embora acredite que a ponte vai beneficiar todo o estado, não esconde a preocupação com o destino dos barcos. "A decadência  preocupa, e muito", disse. Ele manifesta apreensão especialmente quanto à situação do filho, também barqueiro. "E como vai ficar para os meus filhos?", indaga com a expressão sobrecarregada pela incerteza.

Sobrefôlego

 A solução visível, nesse momento, é "pressionar o governo para uma proposta, uma solução", sugere Matias. Com a construção da ponte, a previsão é que a serventia dos barcos vá acabando gradativamente. O que fazer? "Aí é que é a dificuldade", acredita ele, que mantém, porém, uma esperança. O preço de um provável serviço de ônibus dificilmente poderá concorrer com a tarifa dos barcos.  Daí a chance de um sobrefôlego para os tototós.

Valdemar Matias dos Santos é filho de José Matias. Tem 31 anos. Concluiu o segundo grau e foi para o ramo. "Vim trabalhar para ajudar a família", disse Valdemar, que é casado e tem um filho de 1 ano e 3 meses. Ele não tem dúvida: a ponte causará impacto sobre a rotina dos barcos. "Vai diminuir o tráfego de passageiros e o ganho será menor". 

Precavendo-se contra o futuro encapelado, Valdemar  ensaia voltar para os bancos da escola. "Meu pensamento é começar o próximo ano estudando". Em 2 anos, ele acredita que vai estar apto a fazer um curso profissionalizante, única saída que vê no momento, pois "trabalho à vista não tem". De qualquer modo, ele segue maquinando saídas. Uma delas é usar o Turismar, barco de vinte anos que ele divide com o pai José Matias, para transportar turistas. Outra saída passa ao largo da ponte. Segundo ele, o governo poderia construir na ilha uma indústria, uma demanda antiga da população da Barra dos Coqueiros. E o tipo da fábrica? De reciclagem em geral, acredita ele, que teria o efeito benéfico de acabar com a sujeira das margens do rio, impregnada de copos plásticos e outros entulhos. 

Valdemar tem esperança numa solução malthusiana para o dilema dos tototós. "Uma nova onda pode surgir, fazendo crescer a população, aumentando a procura pelos barcos". Os pequenos barcos de madeira são uma imagem incorporada à paisagem fluvial de Aracaju. Já sobreviveram a um primeiro surto tecnológico, com a chegada das lanchas, no passado. Se a presença da ponte vai provocar a sua extinção, só o tempo dirá.     

                         

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