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Reportagem
Futuro à deriva
A construção da ponte
Aracaju-Barra dos Coqueiros pode determinar o fim dos tototós, barcos que
fazem a travessia entre os dois municípios
Texto
e fotos:
Paulo Lima

Em
sua maioria, eles são diminutos, quase uma pequena casca de madeira a se
lançar nas águas nem sempre tranqüilas do rio Sergipe. Eles
vêm e vão, desenhando uma trajetória ziguezagueante, vencendo o marulho
das ondas
com a força de pequenos motores. O som ritmado e seco que produzem
- tototó, tototó, tototó... - valeu o apelido
definitivo a esses barcos que fazem o transporte diário de passageiros entre
Aracaju e a Barra dos Coqueiros.
A
onomatopéia simples, todavia, foi ofuscada nos últimos meses por uma
realidade hiperbólica, e que poderá varrer da paisagem fluvial as
prosaicas figuras dos tototós. Trata-se da construção da ponte
Aracaju-Barra, trombeteada aos quatro ventos pelo governador João Alves
Filho como a realização de uma antiga aspiração da população.
Segundo projeções governamentais, a ponte pode significar uma alavanca
para o turismo em Sergipe. Se concretizada, a obra também apagará
do mapa os 24 barcos que hoje empregam diretamente cerca de 50 pessoas e
transporta, a uma tarifa de R$ 0,50, centenas de ilhéus para as
suas atividades em Aracaju.
Concorrência
Essa
não é a primeira vez que os tototós sofrem uma concorrência tão
dramática. Há cerca de duas décadas, foi implantado um sistema de
modernas lanchas, oferecendo mais comodidades aos usuários dos roteiros
Aracaju-Barra dos Coqueiros e Aracaju-Atalaia Nova, exclusivamente
cobertos pelos barcos.
Ali
os barqueiros viram o negócio ir, literalmente, por água abaixo. Porém,
um inesperado boom populacional na Barra dos Coqueiros catapultou a
demanda por esse tipo de serviço, com a construção do conjunto Prisco
Viana, com aproximadamente 800 casas, e a abertura de loteamentos. A
convivência pacífica do moderno com o tradicional foi então possível.
Até hoje.

O
cotidiano aparentemente sem sobressalto dos barqueiros, que começam a
trabalhar às 5 da manhã e param às 8 da noite, oculta uma
preocupação. Como enfrentar a nova marola que pode extinguir suas
ocupações? Ely Praxedes dos Santos, de 34 anos, é presidente da
Associação dos Proprietários de Canoas de Barra dos Coqueiros. Foi
reeleito para o cargo há 3 meses, para um mandato de 2 anos. Passou 5
anos no primeiro mandato. Barqueiro há vinte anos, pai de 2 filhos,
o mais novo com 4 meses, ele revela o fulcro de suas preocupações: se um
sistema integrado de ônibus for criado com a ponte, será o fim dos
tototós.
Compensação
Ele
tenta se antecipar a esse cenário, e planeja fazer uma visita aos
representantes do governo para discutir o problema. Na mesa, pretende
colocar uma proposta de compensação para os barqueiros. Como?
Ainda não consegue definir muito bem. Hoje um trabalhador dos barcos
ganha em média cerca de R$ 600,00 por mês, caso não seja dono da
própria embarcação. Para os proprietários, flui um percentual de 60%
do negócio. Os restantes 40% são repartidos igualmente entre os 2
tripulantes do tototó: o condutor e o cobrador. O vínculo empregatício
funciona à base de contrato. As despesas com a contribuição social ficam
às expensas do próprio trabalhador.

Praxedes,
que é também candidato a vereador nas eleições de outubro, tem
objetivos de modernizar os serviços dos barcos. Vai instituir entre a
marujada o uso de fardamento. Para maior comodidade dos usuários, um
serviço de sirene e relógio será oferecido. E vai adaptar os flutuantes
para as operações de atracação, já que hoje o embarque e desembarque
de passageiros é efetuado nas margens, numa operação que requer dos que
utilizam o serviço habilidades de equilibrista.
José
Matias dos Santos, 60 anos, pai de 9 filhos, trabalha como barqueiro desde
a adolescência. Embora acredite que a ponte vai beneficiar todo o estado,
não esconde a preocupação com o destino dos barcos. "A
decadência preocupa, e muito", disse. Ele manifesta apreensão
especialmente quanto à situação do filho, também barqueiro. "E
como vai ficar para os meus filhos?", indaga com a expressão
sobrecarregada pela incerteza.
Sobrefôlego

A
solução visível, nesse momento, é "pressionar o governo para uma
proposta, uma solução", sugere Matias. Com a construção da ponte,
a previsão é que a serventia dos barcos vá acabando gradativamente. O
que fazer? "Aí é que é a dificuldade", acredita ele, que
mantém, porém, uma esperança. O preço de um provável serviço de
ônibus dificilmente poderá concorrer com a tarifa dos barcos. Daí
a chance de um sobrefôlego para os tototós.
Valdemar
Matias dos Santos é filho de José Matias. Tem 31 anos. Concluiu o
segundo grau e foi para o ramo. "Vim trabalhar para ajudar a
família", disse Valdemar, que é casado e tem um filho de 1 ano e 3
meses. Ele não tem dúvida: a ponte causará impacto sobre a rotina dos
barcos. "Vai diminuir o tráfego de passageiros e o ganho será
menor".

Precavendo-se
contra o futuro encapelado, Valdemar ensaia voltar para os bancos da
escola. "Meu pensamento é começar o próximo ano estudando".
Em 2 anos, ele acredita que vai estar apto a fazer um curso
profissionalizante, única saída que vê no momento, pois "trabalho
à vista não tem". De qualquer modo, ele segue maquinando saídas.
Uma delas é usar o Turismar, barco de vinte anos que ele divide com o pai
José Matias, para transportar turistas. Outra saída passa ao largo da
ponte. Segundo ele, o governo poderia construir na ilha uma indústria,
uma demanda antiga da população da Barra dos Coqueiros. E o tipo da
fábrica? De reciclagem em geral, acredita ele, que teria o efeito
benéfico de acabar com a sujeira das margens do rio, impregnada de copos
plásticos e outros entulhos.
Valdemar
tem esperança numa solução malthusiana para o dilema dos tototós.
"Uma nova onda pode surgir, fazendo crescer a população, aumentando
a procura pelos barcos". Os pequenos barcos de madeira são uma
imagem incorporada à paisagem fluvial de Aracaju. Já sobreviveram a um
primeiro surto tecnológico, com a chegada das lanchas, no passado. Se a
presença da ponte vai provocar a sua extinção, só o tempo
dirá.
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