Webjornal - Quinzenal  - Edição 66 - Aracaju, 10 a 24  de outubro  de 2004
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Reportagem

De pai para filho

Único sebo existente em Aracaju oculta uma história de persistência dedicada ao comércio de livros

Texto e fotos:  Paulo Lima

Quem visita o sebo Coquetel da Cultura instalado no número 1199, da rua Campo do Brito, zona sul de Aracaju, não tem idéia de que ali estão os remanescentes de um negócio que já viveu momentos de prosperidade. O seu proprietário, Luiz Henrique Souza Angélico, 41, possui todo o registro nas páginas da memória.  Sentado numa cadeira, espreitado por centenas de livros, pacificado como um sobrevivente de muitas batalhas, ele conta a história. 

"Sou filho de livreiro", explica Luiz, que começou a mexer com livros aos 14 anos, trabalhando como vendedor na livraria Civilização Brasileira, uma das mais tradicionais de Salvador, cidade onde nasceu. Ele conseguiu o emprego por intermédio do tio, que era proprietário do negócio. Acabou seguindo os passos do pai, que durante muito tempo trabalhou na mesma livraria, a ponto de ficar conhecido como o "Toninho da Civilização Brasileira".

Filho e sobrinho de livreiro, o caminho estava traçado. Em 1984, Luiz monta uma sociedade com o pai que resulta em quatro livrarias, espalhadas por bairros distintos da cidade. A "No lar" e "Saber" chegam à praça de Salvador com inovações. Segundo Luiz, as livrarias foram as primeiras a colocar mesas para os clientes, para leitura, uma cortesia hoje comum em qualquer estabelecimento do gênero. A "No lar" ganhou esse nome porque fazia entrega dos livros na casa dos compradores. 

O pai adoece e resolve desacelerar o ritmo de trabalho. Passa então uma das lojas para Luiz. Nesse meio tempo, ele forma nova sociedade com um primo, criando a livraria Jubiabá, em 1989. 

Mudança de ares

Nesse mesmo ano, surge a oportunidade de uma nova empreitada. Em Aracaju é construído o primeiro shopping center, o Riomar. Atraído pelo novo espaço, Luiz instala uma filial da Jubiabá. Investe pesado na nova estrutura. O ponto não poderia ser melhor: ficaria ao lado da Mesbla, uma loja muito visitada à época. Segundo as estimativas otimistas de então, a Jubiabá atrairia 60% dessa clientela. 

Luiz e o primo investiram 188 mil dólares num espaço de 116 m2. Planejavam recuperar os gastos num prazo de 5 anos. Tudo ia muito bem. A Jubiabá oferecia o que podia haver de melhor, num ambiente moderno para os padrões locais. 

Mas os ventos mudaram. A política econômica do governo Collor levou a economia a nocaute. A Mesbla fechou as portas, levando com ela parte do público do shopping. Também o cinema, o único existente, encerrou as atividades. Como se isso não fosse o bastante, a cidade viu surgir um novo shopping no recém-criado bairro Jardins.

Foram momentos difíceis para a Jubiabá. Luiz resistiu como pôde, puxando recursos de lojas em Salvador, sacrificando  o lado que se mantinha saudável em seus negócios, para enfrentar as altas taxas de condomínio e a obrigação com aluguel. Tentou negociar uma solução com o shopping, sem sucesso. Acabou se desfazendo da loja aos poucos, vendendo parte das instalações para sobreviver. Enfrentou uma via-crúcis. "O shopping foi desumano comigo", lamenta. "Fizeram de tudo para não resolver meu problema". Luiz afirma que tentou negociar para pegar uma loja menor, mas não teve êxito. Precisou vender bens - casa e carro - para pagar as dívidas junto ao shopping. Por fim, foi alvo de uma ação de despejo. 

Recomeço

Em 2002, ele dá início a uma nova etapa na sua vida de livreiro. Abre o sebo, que começou com um acervo de 9 mil livros. Hoje funcionando num imóvel alugado, o acervo está calculado em 86 mil exemplares, o segundo maior do Nordeste, de acordo com Luiz, perdendo somente para a Livraria e Sebo do Brandão, de Salvador, que mantém filiais em Recife e São Paulo.

Nesse meio tempo, o sebo já passou por nove reformas. Foi evoluindo aos poucos. O seu estoque inicial foi sendo encorpado com livros mantidos em depósito. O acervo foi ampliado com a chegada de 42 mil volumes que haviam sido dados em consignação para uma causa judicial, movida contra Luiz em Salvador. Ele ganhou a ação e pôde recuperar os livros.

O sebo se espalha por todo o térreo e primeiro andar de uma casa de fachada simples, com uma única entrada, em cujo frontispício um desenho anuncia que, além de sebo, ali funciona uma lanchonete. No primeiro andar, uma sala de estudos e pesquisas está sendo preparada para ampliar os serviços. Luiz planeja ainda informatizar o local.

Os preços dos livros seguem um percentual de 10 a 20% calculado sobre o preço de um livro novo. O Coquetel da Cultura conta com exemplares raríssimos, ainda sem cotação. São ao todo, segundo Luiz, 300 raridades que não estão por enquanto à venda. Ele mostra um original do History of home, editado em 1868. De acordo com um historiador que examinou a obra, talvez só restem 5 dessas relíquias no mundo. Outra preciosidade é o Selecta - Latini Sermonis, editado em Paris, em 1876.  Luiz exibe com orgulho mais uma especiaria, o Cours de physique, impresso em 1881 em Paris. Todos em perfeito estado de conservação.

Registrado à página 60 do Guia dos Sebos do Brasil, editado pelo Armazém do Livro Usado Editora, o Coquetel da Cultura desponta como o único existente em Aracaju, sintoma do pouco apreço que a cidade mantém por esse tipo de iniciativa. Em Maceió, capital do vizinho estado de Alagoas, chega a 8 o número de sebos.  

Enquanto isso, Luiz Henrique vai divulgando o sebo junto a feiras de livros em escolas e colégios de Aracaju, preenchendo com persistência e coragem mais uma página da sua longa história escrita com muito trabalho.  

                         

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