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Reportagem
De
pai para filho
Único sebo existente
em Aracaju oculta uma história de persistência dedicada ao comércio de
livros
Texto
e fotos:
Paulo Lima

Quem
visita o sebo Coquetel da Cultura instalado no número 1199, da rua Campo
do Brito, zona sul de Aracaju, não tem idéia de que ali estão os
remanescentes de um negócio que já viveu momentos de prosperidade. O seu
proprietário, Luiz Henrique Souza Angélico, 41, possui todo o registro
nas páginas da memória. Sentado numa cadeira, espreitado por
centenas de livros, pacificado como um
sobrevivente de muitas batalhas, ele conta a história.
"Sou
filho de livreiro", explica Luiz, que começou a mexer com livros aos 14
anos, trabalhando como vendedor na livraria Civilização Brasileira, uma
das mais tradicionais de Salvador, cidade onde nasceu. Ele conseguiu o
emprego por intermédio do tio, que era proprietário do negócio. Acabou
seguindo os passos do pai, que durante muito tempo trabalhou na mesma
livraria, a ponto de ficar conhecido como o "Toninho da Civilização
Brasileira".
Filho
e sobrinho de livreiro, o caminho estava traçado. Em 1984, Luiz monta uma
sociedade com o pai que resulta em quatro livrarias, espalhadas por
bairros distintos da cidade. A "No lar" e "Saber"
chegam à praça de Salvador com inovações. Segundo Luiz, as livrarias
foram as primeiras a colocar mesas para os clientes, para leitura, uma
cortesia hoje comum em qualquer estabelecimento do gênero. A "No lar" ganhou esse
nome porque fazia entrega dos livros na casa dos compradores.
O
pai adoece e resolve desacelerar o ritmo de trabalho. Passa então uma das
lojas para Luiz. Nesse meio tempo, ele forma nova sociedade com um primo,
criando a livraria Jubiabá, em 1989.
Mudança
de ares
Nesse
mesmo ano, surge a oportunidade de uma nova empreitada. Em Aracaju é
construído o primeiro shopping center, o Riomar. Atraído pelo novo
espaço, Luiz instala uma filial da Jubiabá. Investe pesado na nova
estrutura. O ponto não poderia ser melhor: ficaria ao lado da Mesbla, uma
loja muito visitada à época. Segundo as estimativas otimistas de então,
a Jubiabá atrairia 60% dessa clientela.
Luiz
e o primo investiram 188 mil dólares num espaço de 116 m2. Planejavam
recuperar os gastos num prazo de 5 anos. Tudo ia muito bem. A Jubiabá
oferecia o que podia haver de melhor, num ambiente moderno para os
padrões locais.
Mas
os ventos mudaram. A política econômica do governo Collor levou a
economia a nocaute. A Mesbla fechou as portas, levando com ela parte do
público do shopping. Também o cinema, o único existente, encerrou as
atividades. Como se isso não fosse o bastante, a cidade viu surgir um
novo shopping no recém-criado bairro Jardins.
Foram
momentos difíceis para a Jubiabá. Luiz resistiu como pôde, puxando
recursos de lojas em Salvador, sacrificando o lado que se mantinha
saudável em seus negócios, para enfrentar as altas taxas de condomínio
e a obrigação com aluguel. Tentou negociar uma solução com o shopping,
sem sucesso. Acabou se desfazendo da loja aos poucos, vendendo parte das
instalações para sobreviver. Enfrentou uma via-crúcis. "O shopping
foi desumano comigo", lamenta. "Fizeram de tudo para não
resolver meu problema". Luiz afirma que tentou negociar para pegar
uma loja menor, mas não teve êxito. Precisou vender bens - casa e carro - para
pagar as dívidas junto ao shopping. Por fim, foi alvo de uma
ação de despejo.
Recomeço

Em
2002, ele dá início a uma nova etapa na sua vida de livreiro. Abre o
sebo, que começou com um acervo de 9 mil livros. Hoje funcionando num
imóvel alugado, o acervo está calculado em 86 mil exemplares, o segundo
maior do Nordeste, de acordo com Luiz, perdendo somente para a Livraria e
Sebo do Brandão, de Salvador, que mantém filiais em Recife e São Paulo.
Nesse
meio tempo, o sebo já passou por nove reformas. Foi evoluindo aos poucos.
O seu estoque inicial foi sendo encorpado com livros mantidos em
depósito. O acervo foi ampliado com a chegada de 42 mil volumes
que haviam sido dados em consignação para uma causa judicial, movida
contra Luiz em Salvador. Ele ganhou a ação e pôde recuperar os livros.
O
sebo se espalha por todo o térreo e primeiro andar de uma casa de fachada
simples, com uma única entrada, em cujo frontispício um desenho anuncia que, além de sebo,
ali funciona uma lanchonete. No
primeiro andar, uma sala de estudos e pesquisas está sendo preparada para
ampliar os serviços. Luiz planeja ainda informatizar o local.
Os
preços dos livros seguem um percentual de 10 a 20% calculado sobre o preço
de um livro novo. O Coquetel da Cultura conta com exemplares raríssimos,
ainda sem cotação. São ao todo, segundo Luiz, 300 raridades que não
estão por enquanto à venda. Ele mostra um original do History
of home, editado em 1868. De acordo com um historiador que examinou a
obra, talvez só restem 5 dessas relíquias no mundo. Outra preciosidade
é o Selecta - Latini Sermonis, editado em Paris, em 1876.
Luiz exibe com orgulho mais uma especiaria, o Cours de physique,
impresso em 1881 em Paris. Todos em perfeito estado de conservação.
Registrado
à página 60 do Guia dos Sebos do Brasil, editado pelo Armazém do Livro
Usado Editora, o Coquetel da Cultura desponta como o único existente em
Aracaju, sintoma do pouco apreço que a cidade mantém por esse tipo de
iniciativa. Em Maceió, capital do vizinho estado de Alagoas, chega a 8 o
número de sebos.
Enquanto
isso, Luiz Henrique vai divulgando o sebo junto a feiras de livros em
escolas e colégios de Aracaju, preenchendo com persistência e coragem
mais uma página da sua longa história escrita com muito trabalho.
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