Webjornal - Quinzenal  - Edição 68 - Aracaju,  07 a 21 de novembro  de 2004
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Reportagem

Futuro mais limpo

Caminhão do Greenpeace leva o conhecimento de novas fontes de energia a 21 cidades brasileiras

Por Arthuro Paganini e Anderson Barbosa*
Fotos: Arthuro Paganini

O Brasil é considerado, segundo pesquisadores, a principal potência energética do mundo. É justamente isso que a organização não-governamental Greenpeace está mostrando durante o trajeto da expedição “Energia Positiva para o Brasil”. São diversas amostras de criações e exemplos práticos de como os brasileiros podem aproveitar cada detalhe do território, mostrando um país que precisa ser redescoberto e encarado com responsabilidade ambiental. A exposição sobre as energias renováveis, ou limpas, está sendo apresentada dentro de um contêiner, carregado por um caminhão movido a biodiesel. 

Até o momento foram percorridos 14 mil quilômetros. No dia 4 de novembro, a caravana passou por Aracaju. No total serão 21 cidades visitadas, incluindo Brasília, onde está marcada uma audiência com o presidente Lula para a entrega de um documento assinado pelos visitantes da exposição, contendo informações sobre as potencialidades do Brasil em termos de energia.

Quem teve a oportunidade de conferir a exposição conheceu na prática alguns exemplos de como podem ser aproveitadas as energias, a exemplo do próprio contêiner, que é abastecido com a luz do sol. No teto foram instaladas placas fotovoltaicas, que absorvem a energia dos raios solares, produzindo energia suficiente para manter ligado um aparelho DVD, um televisor, lâmpadas, um resfriador de ar e um computador. Para exemplificar melhor esse processo, no contêiner está exposto o sistema de captação de energia solar, que mede a potência gerada, assim como a maneira de armazenamento, por meio de baterias recarregáveis. A monitora Karen Araújo explicou que o Brasil, como outros países, já dispõe de uma produção quantitativa e qualitativa para atender a população, e a utilização da energia solar depende da consciência de cada cidadão e de ações políticas eficazes.

No contêiner são mostrados fotos e textos ressaltando a garantia de que Brasil poderá ser uma grande potência, colaborando não apenas para o seu desenvolvimento, como também ajudando os países próximos. O uso de energias limpas, como a biomassa, o biocombustível, a eólica, o biogás e a energia solar deverá garantir para as próximas gerações a sua sobrevivência. Em contrapartida, a utilização constante de energia nuclear, carvão mineral, gás natural e petróleo, consideradas energias sujas, tem provocado uma redução na expectativa de vida da população mundial. Essa referência tem mobilizado diversas instituições a fazerem campanhas em defesa do meio ambiente, como a que o Greenpeace está realizando.

Sentimento de cidadania

Durante a viagem um fato inesperado deixou cismada a tripulação da expedição. O caminhão foi parado por policiais rodoviários na estrada próxima a Vitória/ES. Na conversa, as autoridades alegaram que o caminhão não poderia seguir viagem, devido à utilização de combustível produzido a partir de óleos vegetais, ou seja, o biodiesel. Questionado pelos membros do Greenpeace, os patrulheiros disseram que se tratava de uma questão de segurança nacional. Ponto final.

Apesar disso eles continuaram a viagem e seguiram percorrendo as capitais brasileiras. Em Aracaju foi a primeira vez que o Greenpeace esteve presente. Para alguns visitantes, como o estudante de engenharia ambiental Rafael Figueiredo de Souza, a visita foi considerada satisfatória. “Foi bastante educativa pois demonstrou vários métodos de como devem ser empregadas as tecnologias baratas sem agredir o nosso meio ambiente”, frisou o estudante. De acordo com André Macedo, que acompanha a expedição como monitor, as pessoas ficam curiosas com a presença da exposição e acabam descobrindo coisas interessantes. “Em cada cidade as pessoas ficam felizes quando recebem a visita do Greenpeace, muitas vezes pela importância mundial da organização. Elas ficam surpresas com as informações, como por exemplo aquecer a água do chuveiro de graça, fazendo eles mesmo um coletor solar de baixo custo. E nosso trabalho tem sido gerar o sentimento de cidadania, fazendo com que cada um perceba que pode fazer a diferença”, esclarece André.

Não só do sol pode ser gerada a energia. Como prova disso a expedição colocou à mostra uma pequena turbina eólica, com capacidade de produzir energia equivalente a 400w, o suficiente para manter quatro lâmpadas acesas. A fonte utilizada é a força do vento, meio que vem sendo bastante utilizado no sertão do Ceará para o abastecimento de fazendas. Para isso são utilizados modernos aerogeradores, desenvolvidos por agências aeroespaciais, como também moinhos e cata-ventos. As pesquisas na área apontam que o Brasil pode gerar 85 mil MW (megawats) de energia com a captação dos ventos. O país gera atualmente, somando todas as fontes energéticas, cerca de 74 mil MW, sendo a Chesf, empresa que abastece todo o Nordeste, responsável por 5 mil MW. E é justamente no Nordeste onde a produção de energia por meio de ventos alcançará seu potencial máximo. De acordo com pesquisadores, a região pode produzir cerca de 20 mil MW, capacidade suficiente para acabar de vez com a falta de energia na região e ainda abastecer os estados mais próximos.

A coordenadora da expedição, Gabriela Vuolo, explica que a iniciativa surgiu no ano de 2002 na África do Sul. “O primeiro contêiner foi construído para atender uma comunidade isolada do país e hoje promove o desenvolvimento local da comunidade”, disse. Após isso, outros países, como o Brasil, China, Índia, Tailândia e México, fizeram uma réplica com o intuito de difundir para a população a importância em utilizar energias limpas. No Brasil o contêiner está sendo levado para o Amapá, onde servirá como fonte energética para uma comunidade de castanheiros. “A nossa proposta é apresentar um outro de tipo de geração de energia. Esta é uma comunidade isolada da rede elétrica e, portanto, eles dependem do diesel, um combustível fóssil, que é poluente e é vendido a preço alto”, enfatizou a coordenadora.  

A curiosidade não ficou apenas restrita às criações sobre energia. Produtos reciclados também chamaram a atenção do publico. A mesa onde fica o computador e a lista de presença é feita totalmente com tubos de pasta de dente. O piso é um compensado de madeira com certificado do FSC Brasil (Conselho de Manejo Florestal. Os matériais informativos são todos produzidos com papéis reciclados. Também foi entregue aos visitantes um guia do consumidor com uma lista de produtos com ou sem transgênicos.

*Estudantes de Jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) 

                         

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