Webjornal - Quinzenal  - Edição 69 - Aracaju,  21 de novembro a  05 de dezembro  de 2004
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Reportagem

Umbigo da Bahia

Construído em 1650 para defender Salvador da invasão dos holandeses, o Forte São Marcelo é aberto à visitação pública

Por Antônio Carlos Silva Ferreira*
Fotos: Antônio Carlos Silva Ferreira/ABRAF

No meio do caminho tinha um forte, tinha um forte no meio do caminho”. A pedra que tanto calo deu no sapato do Drummond, em razão das críticas que sofreu, me serve de inspiração para ilustrar o que foi o Forte São Marcelo no meu caminho de conhecer Salvador. Desde os meus tempos de guia de turismo que o Forte São Marcelo permanece ali, encravado na Baía de Todos os Santos, no caminho marítimo entre Salvador e a “intrépida” Ilha de Itaparica, sem que eu pudesse conhecê-lo. Dizia-se que era propriedade da Marinha do Brasil e como instalação militar, ainda que sem uso, não estava aberto à visitação pública.

E eu fui vivendo sem nunca me conformar com a idéia de que conhecia os quatro cantos da cidade, mas não tinha o direito de acariciar com os pés o que Jorge Amado apelidara de o “umbigo da Bahia”.  E vez por outra surgia uma notícia de que o forte iria ser reaberto como edificação histórica que é aliando ainda as funções de centro de eventos culturais ou centro de compras e houve até quem falasse em restaurante. Notícias ou boatos a parte, o fato é que ele permanecia lá isolado e a experiência mais próxima de uma visita, que eu tive, foi quando o programa Bahia Náutica apresentou uma reportagem na qual seu apresentador e diretor, Denis Peres, nos levou a percorrer, através da TV,  as instalações do forte e chamou atenção para a necessidade de recuperação daquele patrimônio esquecido.

Finalmente, me chega trazendo enorme dose de alegria, a notícia de que o Forte estaria aberto à visitação pública a partir de 12 de novembro. Agora sob os cuidados da ABRAF – Associação Brasileira dos Amigos das Fortificações Militares e Sítios Históricos, o Forte São Marcelo pode ser visitado e, em que pese ainda estar carente de recuperação e implantação de infra-estruturajá se nota o esforço da ABRAF em valorizar o nosso secular guardião.    

Adquirimos, no Centro Náutico, o ingresso no valor de R$ 10,  que cobre a travessia de barco e um tour guiado nas dependências do forte. A emoção aumentava quanto mais o forte nos parecia se aproximar do barco até o momento histórico em que nosso grupo transpôs o pórtico que dá acesso ao interior da edificação. 

Uma pincelada de história

O Forte São Marcelo foi construído, sob um banco de areia, em 1650, visando principalmente evitar o retorno de invasores holandeses, que já haviam atacado Salvador em 1624 e 1638. Construído pelos engenheiros franceses Felipe Guiton e Pedro Garcin, que se sucederam na empreitada, o forte foi concebido em planta circular para permitir à sua artilharia atirar em qualquer direção. O São Marcelo, que sofreu duas reformas no século XVIII, alcançou na segunda metade daquele século seu maior poder de fogo com 54 peças de bronze e ferro. Com esta bateria o Guardião da Cidade da Bahia intimidava e bombardeava naus inimigas que ameaçavam invadir e saquear a cidade.

Teve importante participação nas lutas pela Independência do Brasil na Bahia, consolidada em 02 de julho de 1823. O bem elaborado folheto distribuído pela ABRAF nos conta ainda que o forte fora o principal relógio público de Salvador, disparando tiros que ressoavam num raio de 80 quilômetros, às 4h da manhã e às 9h da noite.

Explorando o São Marcelo

Visitando as 30 salas do forte pisávamos agora o mesmo chão onde pisaram  personagens históricos como Bento Gonçalves, da Revolução Farroupilha, e Cipriano Barata, líder da Revolta dos Alfaiates que ali estiveram presos. Na caminhada com o guia não podíamos deixar de notar que o Forte pede ajuda. Não há mobiliário, nenhuma das suas peças de artilharia está por lá e há até mesmo paredes e piso que foram cobertos de azulejo e  cerâmica modernos, desfigurando o monumento. Não há energia elétrica nem  instalações sanitárias para uso dos visitantes mas sabe-se que a direção da ABRAF já  está providenciando a instalação de um banheiro químico e vislumbra a revitalização do forte com inclusão de atividades temáticas,  recolocação dos antigos canhões, uso de uniformes de época e a implantação de lanchonete e  lojas de souvenirs.  O passeio em si torna-se pobre devido às condições físicas e de ambientação do forte, mas serve ao mesmo tempo como denúncia e alerta para a necessidade de uma ação reparadora.

Ao final dos cerca de 60 minutos de passeio, o guia nos acompanha até o píer de onde o barco nos trará de volta à terra firme em cinco minutos de travessia. Do passeio resta a consciência de que ainda não se fez tarde para resgatarmos o Forte São Marcelo, mas que é preciso a sociedade civil engajar-se na luta pela sua recuperação, inclusive cobrando ação dos poderes públicos. E é claro que ficou também o gostinho de ter finalmente conquistado e incorporado ao nosso acervo de riquezas o antes intocável umbigo da Bahia.

*Fotógrafo amador, ex-publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em Salvador 

                         

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