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Reportagem
Umbigo da Bahia
Construído em 1650
para defender Salvador da invasão dos holandeses, o Forte São Marcelo é
aberto à visitação pública
Por Antônio Carlos Silva Ferreira*
Fotos: Antônio Carlos Silva Ferreira/ABRAF

“No
meio do
caminho tinha um forte, tinha um
forte no meio do caminho”. A
pedra que tanto calo deu no sapato do Drummond, em razão das críticas
que sofreu, me serve de inspiração para ilustrar o que foi o Forte São
Marcelo no meu caminho de conhecer Salvador. Desde os meus tempos de guia
de turismo que o Forte São Marcelo permanece ali, encravado na Baía de
Todos os Santos, no caminho marítimo entre Salvador e a “intrépida”
Ilha de Itaparica, sem que eu pudesse conhecê-lo. Dizia-se que era
propriedade da Marinha do Brasil e como instalação militar, ainda que
sem uso, não estava aberto à visitação pública.
E
eu fui vivendo sem nunca me conformar com a idéia de que conhecia os
quatro cantos da cidade, mas não tinha o direito de acariciar com os pés
o que Jorge Amado apelidara de o “umbigo da Bahia”. E
vez por outra surgia uma notícia de que o forte iria ser reaberto como
edificação histórica que é aliando ainda as funções de centro de
eventos culturais ou centro de compras e houve até quem falasse em
restaurante. Notícias ou boatos a parte, o fato é que ele permanecia lá
isolado e a experiência mais próxima de uma visita, que eu tive, foi
quando o programa Bahia Náutica apresentou uma reportagem na qual seu
apresentador e diretor, Denis Peres, nos levou a percorrer, através da
TV, as instalações do forte
e chamou atenção para a necessidade de recuperação daquele patrimônio
esquecido.

Finalmente,
me chega trazendo enorme dose de alegria, a notícia de que o Forte
estaria aberto à visitação pública a partir de 12 de novembro. Agora
sob os cuidados da ABRAF – Associação Brasileira dos Amigos das
Fortificações Militares e Sítios Históricos, o Forte São Marcelo pode
ser visitado e, em que pese ainda estar carente de recuperação e
implantação de infra-estrutura, já
se nota o esforço da ABRAF em valorizar o nosso secular guardião.
Adquirimos,
no Centro Náutico, o ingresso no valor de R$ 10, que
cobre a travessia de barco e um tour guiado nas dependências do forte. A
emoção aumentava quanto mais o forte nos parecia se aproximar do barco
até o momento histórico em que nosso grupo transpôs o pórtico que dá
acesso ao interior da edificação.
Uma pincelada de história
O
Forte São Marcelo foi construído, sob um banco de areia, em 1650,
visando principalmente evitar o retorno de invasores holandeses, que já
haviam atacado Salvador em 1624 e 1638. Construído pelos engenheiros
franceses Felipe Guiton e Pedro Garcin, que se sucederam na empreitada, o
forte foi concebido em planta circular para permitir à sua artilharia
atirar em qualquer direção. O São Marcelo, que sofreu duas reformas no
século XVIII, alcançou na segunda metade daquele século seu maior poder
de fogo com 54 peças de bronze e ferro. Com esta bateria o Guardião da
Cidade da Bahia intimidava e bombardeava naus inimigas que ameaçavam
invadir e saquear a cidade.
Teve
importante participação nas lutas pela Independência do Brasil na
Bahia, consolidada em 02 de julho de 1823. O bem elaborado folheto
distribuído pela ABRAF nos conta ainda que o forte fora o principal relógio
público de Salvador, disparando tiros que ressoavam num raio de 80 quilômetros,
às 4h da manhã e às 9h da noite.
Explorando o São Marcelo

Visitando
as 30 salas do forte pisávamos agora o mesmo chão onde pisaram personagens históricos como Bento Gonçalves, da Revolução
Farroupilha, e Cipriano Barata, líder da Revolta dos Alfaiates que ali
estiveram presos. Na caminhada com o guia não podíamos deixar de notar
que o Forte pede ajuda. Não há mobiliário, nenhuma das suas peças de
artilharia está por lá e há até mesmo paredes e piso que foram
cobertos de azulejo e cerâmica
modernos, desfigurando o monumento. Não há energia elétrica nem
instalações sanitárias para uso dos visitantes mas sabe-se que a
direção da ABRAF já está
providenciando a instalação de um banheiro químico e vislumbra a revitalização
do forte com inclusão de atividades temáticas, recolocação
dos antigos canhões, uso de uniformes de época e a implantação de
lanchonete e lojas de
souvenirs. O passeio em si
torna-se pobre devido às condições físicas e de ambientação do forte,
mas serve ao mesmo tempo como denúncia e alerta para a necessidade de uma
ação reparadora.
Ao
final dos cerca de 60 minutos de passeio, o guia nos acompanha até o píer
de onde o barco nos trará de volta à terra firme em cinco minutos de
travessia. Do passeio resta a consciência de que ainda não se fez tarde
para resgatarmos o Forte São Marcelo, mas que é preciso a sociedade
civil engajar-se na luta pela sua recuperação, inclusive cobrando ação
dos poderes públicos. E é claro que ficou também o gostinho de ter
finalmente conquistado e incorporado ao nosso acervo de riquezas o antes
intocável umbigo da Bahia.
*Fotógrafo
amador, ex-publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside
em Salvador
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