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Reportagem
Cantos
de latino América
A rua é o palco
iluminado de músicos que subsistem com uma pequena estrutura material,
mas que são capazes de divulgar sua arte
Texto
e fotos: Paulo Lima

José
Collantes chega para mais um dia de trabalho. No palco improvisado montado
ao lado do prédio da Caixa Econômica Federal, no centro de Aracaju, cantará um variado
repertório de canções até o final da tarde. Estará encerrado mais um
longo show. Mesmo fazendo umas paradas para almoço e descanso, deixa no
chinelo qualquer apresentação feita por músicos em espaços tradicionais,
cuja duração não costuma ultrapassar 2 horas, incluindo o bis da
platéia. Collantes terá tocado para um público rotativo de centenas de
pessoas que param, espiam, ouvem e vão embora.
Violão,
flauta de pan e uma engenhoca com as músicas programadas lá dentro. Este
é o cenário. E, naturalmente, um pequeno mostruário com CDs à venda.
Collantes se apruma todo, empunha o violão, aperta um botão dentre uns
tantos outros botões, e a música começa a fluir pelo calçadão afora,
espalhando o seu canto plangente da latino América.
Dicen
que la distância es ser olvido, diz a melodiosa canção que será
repetida ao longo do dia. Collantes, um hombre com ar pacato e
gestos lentos, veio de terra distante. Peruano de Lima, 36 anos.
Começou a se interessar por música aos 9 anos. Em portuñol, ele
vai abrindo as páginas do seu diário de bordo.
Está
no Brasil há 8 anos. Vem seguidamente a Aracaju, lá se
vão 4 anos. Já rodou todo o Nordeste, "pelo Maranhon,
Ceará" e centro do País, "demonstrando a cultura e a música
latina". Nas capitais fica uns meses. Costuma levar o seu trabalho
mais para cidades pequenas do interior.

Ao
todo, já gravou 13 CDs instrumentais, "com flauta de pan e
instrumentos andinos". Cantados são 3 trabalhos. O público de
Aracaju foi agraciado com o lançamento do seu último CD, um acústico,
"muito pedido, o pessoal gostou muito".
Em
Lima, começou a tocar violão, cantar um pouquinho. "A
música vai crescendo, crescendo e a gente vai aprendendo um pouco mais a
cada dia". Collantes vem de família de músicos, "pero eles non
ejercen a profisson". Músico de rua, já fez apresentações em
lugares grandes para todo tipo de evento. "O trabalho de rua é para
demonstrar o trabalho cultural que a gente faz".
Os
CDs são gravados em estúdio particular em São Paulo, através da
Associação Cultural Macchu Picchu, que congrega uns 40 a 50 músicos,
entre peruanos, bolivianos e alguns brasileiros.
Das
andanças, há somente um registro grave: há 4 anos sofreu um acidente
com o grupo com o qual viajava, na altura do estado da Bahia.
"Felizmente ningún saiu com dano físico. Deus presente, a
gente sai adelante", explica Collantes, escandindo sempre as
vogais, influência marcante do espanhol.
A
sua música já atravessou oceanos. "Morei 8 anos na Alemanha".
É na América Latina, contudo, que Collantes concentra o saldo da sua experiência.
Morou no Equador, Colômbia, Bolívia e quase todo o continente
americano.
Foi
o Brasil, porém, que ele escolheu como seu território afetivo.
"Gostei muito aqui do Brasil." Não de todo o Brasil, explica:
"Non tanto hablando o comércio, mas a cultura do povo, muito alegre,
acolhedora".
A
surpresa ficou para o final. José Collantes é engenheiro têxtil de
formação, profissão que chegou a exercer algum tempo numa empresa no
Peru, mas largou tudo. "Eu estudei e não ejerco porque me sinto
mejor fazendo lo que estou fazendo, cultura e arte, e dá para seguir
trabajando", diz, misturando idiomas e deixando de lado limites entre
culturas e fronteiras.
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