Webjornal - Quinzenal  - Edição 71 - Aracaju, 19 de dezembro  de 2004 a 02 de janeiro de 2005
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Reportagem

Na solidão sou rei

Encosta a sua cabecinha no meu ombro e chora... Quem nunca escutou estes famosos versos de Paulo Borges?

Texto e fotos: Júlia Gaspar e Paulo Marcio Vaz*

Com 88 anos e uma vitalidade de causar inveja em muito marmanjo, o compositor Paulo Borges, autor de clássicos como Cabecinha no Ombro, é solteirão convicto e vive feliz com o destino que ditou para si.  Há mais de 40 anos morador da Rua Santa Clara, em Copacabana, lembra Como se fosse ontem de encontros com grandes personalidades. De JK a Tom Jobim e com mais de 50 músicas gravadas, Paulo Borges tem histórias pra contar...

Rio Antigo

Paulo descreve, com uma incrível riqueza de detalhes, uma Copacabana que não existe mais:  Só havia a Rua Siqueira Campos e muitas ruas de hoje eram “picadas de mula”.  Ao invés de prédios, muitos terrenos e casas; os bairros ainda não estavam definidos.    Conta também que a comunicação era difícil. Era muito raro ter telefone e automóvel, os ônibus eram poucos.

Infância e Música

Na infância, os primeiros contatos com a música. As festas, na fazenda do avô, eram regadas a polcas, valsas, mazurcas e modas de viola. Toda família era ligada à música: sua avó era excelente pianista e as tias também tocavam e cantavam com seu pai ao violão. Era música que não acabava mais, diz ele, enquanto desanda a cantar suas lembranças.

O despertar pela música veio por volta dos 14 anos, instintivamente. No começo, as criava usando apenas uma corda do violão.  Sua primeira composição, Dia de Novena, foi em parceria com um vizinho chato e arrogante:  Ele me ouviu tocar da janela e fez a segunda parte da música, então veio me mostrar com a cara enfezada.

Ainda na adolescência, ganhou seu primeiro concurso com a música Menina Bonita.  Com isso, foi levado à casa de Noel Rosa por Assis Valente.  Malandro, Assis propôs que a música saísse no nome dele e disse que dividiria o dinheiro.  Paulo Borges não aceitou a proposta.  Afirma que isso era muito comum na época, mas que nunca sucumbiu a esse tipo de oferta, ao contrário de Nelson Cavaquinho e outros músicos que, segundo ele,  já venderam muitas músicas. 

Trabalho

Contrariando a vontade do pai, começou a trabalhar aos 16 anos como office-boy.  Com a educação recebida em casa, fato comum naquela época, já falava francês e arranhava o inglês, o que o qualificou para seu segundo emprego, no Banco Francês e Italiano.  Na guerra, em 43, fez um teste para a embaixada americana. Como falava inglês, conseguiu o emprego e um salário bem melhor.  Depois da guerra, foi trabalhar na Caixa Registradora National, onde ficou por 17 anos, até se aposentar.  Apesar do sucesso, Paulo Borges nunca viveu só de música.

Anjos do Inferno

Ainda morando em Boca do Mato, foi fazer um piquenique em Paquetá com o seu irmão Otto.  Ficamos tocando o dia todo e fomos chamados para fundar um conjunto com outros rapazes. Assim nasceu o grupo Anjos do Inferno.  Em poucos meses de ensaio, Paulo escreveu todas as músicas para o grupo.

Com o Anjos do Inferno, estreou no programa de Ary Barroso, no Cinema Império. Por ser menor de idade, Paulo foi obrigado a deixar o grupo. Fiquei muito decepcionado, mas sempre fui forte, diz ele.  Tempos depois, seu irmão Otto, o crooner, conheceu uma moça que o obrigou a largar o grupo.  Nesta época, Paulo, já maior de idade,  substituiu o irmão, voltando para o conjunto. 

Casamento

Paulo Borges nunca se casou. Tinha a vida cheia de afazeres com o trabalho e com sua madrasta, a quem se refere com muito carinho: meu pai, antes de morrer, me incumbiu de cuidar dela.  Fazia todas as suas vontades. Ela era exigente demais e nunca daria certo com uma nora.  Não aceitava nem empregada, diz Paulo.

Porém, não lhe faltaram pretendentes.  Uma delas chorava em seu ombro durante uma viagem de bonde, pois apesar de gostar dele, se casaria com outro. Assim nasceu sua principal música: Cabecinha no ombro.

Personalidades

Em sua trajetória, conheceu muitas personalidades. Ensinou a Nara Leão e Roberto Menescal os primeiros acordes no violão.  Conta que Nara tinha a voz muito baixinha, na época e lhe dava conselhos: Solta essa voz! Assim você nunca vai ser cantora!!!. Estudou no grupo escolar dirigido por Júlia Kubitschek, mãe de JK, o que o levou a conviver com o ex-presidente. Participou e promoveu saraus com Tom Jobim, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, entre outros.

Paulo, hoje

Apesar de estar sem enxergar há três meses, se recuperando de uma cirurgia, Paulo Borges esbanja alegria e felicidade sem nunca ter parado de compor. Faz questão de mostrar seus troféus,  os LP’s e CD’s que contêm suas músicas e recibos de direitos autorais, tudo guardado com extrema organização e carinho. Em seu livro de anotações, constam todas as músicas gravadas e cada centavo recebido desde 1953. A riqueza de detalhes nos mostra um número espantoso: 6.226.353 discos vendidos até junho de 2004, contendo composições suas em todo o mundo.  Se os direitos autorais fossem pagos de verdade, eu estaria milionário, lamenta.

Paulo, além de excelente músico, mostrou-se poeta.  Em 2003,  publicou o livro de poesias Na Solidão Sou Rei, organizado por Suzana Martins, amiga que ao organizar seus arquivos, descobriu seu legado poético entre recortes de jornal.

Durante a entrevista, emocionantes pausas para ouvi-lo tocar e cantar. Muito cortês, fez questão de nos levar à portaria.  Na despedida, tivemos a honra de ouvir: Vocês já são meus amigos! Ventura a nossa...

*Estudantes de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)

                        

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