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Reportagem
Casamento
com a capoeira
Uma
história de amor na qual conta cultura,
lazer, saúde e
trabalho social
Texto
e foto: Júlia Gaspar*

A paixão brota dos poros
de Leonardo Soares Crespo ao falar da arte pela qual dedica a vida.
Aos 39 anos de idade consagrou 22 à capoeira e acha pouco.
Conhecido como Léo Pivete, vive da capoeira, respira ritmos e caminha ginga.
Pertence ao grupo Capoeira Brasil e tem um amplo trabalho na Região Oceânica de
Niterói (RJ).
Casado com Beatriz, mas amante da
capoeira. Pai de Júlia e
Pedro, porém padrinho de crianças carentes incluídas no Projeto Pivete – trabalho desenvolvido em parceria com Calango,
aluno graduado. De segunda à
sexta, aulas para quem pode pagar. Aos
sábados, paga quem pode, ou o quanto pode.
E Léo Pivete sonha com mais: Gostaríamos
de melhorar o Projeto Pivete com a capoeira de manhã, à tarde assistência
médica ou dentária e outro esporte, além da capoeira, para tirar a
comunidade da rua, onde pode ser marginalizada.
Ainda não temos tudo isso, por enquanto é só a capoeira.
Mas os alunos do Projeto que vemos que são assíduos e estudam,
abrimos as portas para o dia-a-dia na academia.
Ajudando a quem quer ser ajudado.
Contra-Mestre, aluno do Mestre
Paulinho Sabiá e formado em educação física, Léo Pivete dá aulas na região há 11 anos, desde quando voltou dos
Estados Unidos. Na Flórida,
trabalhou com a capoeira por 4 anos, sendo um dos pioneiros do esporte por
lá. Relata a própria história
com realização, saudades e expectativas do por vir.
Com muito carinho, contou sobre o que sabe fazer na vida: capoeira.
A História da Capoeira
A História da capoeira se dá
com a chegada dos portugueses no Brasil, para desbravar esta terra.
A princípio, eles tentaram escravizar os índios, depois foi a vez
dos negros. Na fusão de
escravatura havia muitas raças. Então
a capoeira é uma miscigenação de culturas.
Dizem que a cabeçada era uma
prova que os índios faziam na juventude para saber quem era o mais forte.
O chute, como uma meia lua de compasso ou um martelo
(golpes de capoeira) era derivado da visualização do índio com o coice
da zebra e dos cavalos.
Os ritmos são principalmente
africanos. Muito espertos,
disfarçavam a luta como dança para poderem praticar o esporte. O treinamento acontecia nas senzalas, eles formaram uma luta,
a partir dos conhecimentos de cada cultura para poderem se libertar e
defender. A palavra capoeira
significa mato rasteiro, onde os escravos se escondiam nas fugas, se
arrastando, até chegarem aos quilombos.
Quando a princesa Isabel assinou
a Lei Áurea, muitos escravos não tinham trabalho na sociedade, sendo
dados como malandros. Logo, a
capoeira virou sinônimo de marginalização e foi proibida.
A perseguição do esporte resultava em cadeia, mas malandro que é
malandro tem sempre uma carta na manga.
Os capoeiristas eram reconhecidos por apelidos, a fim de ocultar a
identidade. Quando eram presos,
identificavam-se pelo nome, escondendo o apelido que os revelava
capoeiristas. O hábito de ter um
apelido continua até hoje.
O branco do uniforme da capoeira
é porque todo malandro usava esta cor.
São coisas que não se tira da capoeira para não perder a tradição.
Os malandros se vestiam todos de branco, levavam consigo uma
navalha, usavam um chapéu e um lenço de seda no pescoço, porque navalha
não corta seda. Antigamente, as armas mais usadas eram brancas.
De pouco em pouco a capoeira foi
sendo aperfeiçoada e transformada no que é hoje. Sempre mantendo as tradições,
algumas coisas foram alteradas para uma prática melhor.
Trabalhando com canto, músicas e instrumentos musicais, este
esporte mistura luta, dança e jogo, desenvolvendo reflexos, agilidade e
ritmo.
Angola e Regional
Angola e regional são padrões
de capoeira. A princípio,
a capoeira era única, a distinção entre essas duas linhas veio depois.
Bimba (Manoel dos Reis
Machado) era batuqueiro, lutador do Cais de Porto e capoeirista.
Mestre Bimba achou que a capoeira tava lenta demais, então
acrescentou outros golpes, mudou a ginga, criou os toques da capoeira,
deixando-a mais ágil, fazendo assim a Capoeira
Regional. Enquanto a
capoeira mais lenta foi desenvolvida por Pastinha
(Vicente Ferreira), denominada Capoeira
de Angola.
Bimba foi o criador do Batizado
na capoeira. O formando tinha
que ir de branco, ganhava uma medalha e um formado antigo jogava com ele
tentando tirá-la. Se
conseguisse, não se formava. Também não podia estar sujo, para mostrar mais perícia.
Hoje, os batizados são uma forma de apresentação do aluno ao
grupo, sem medalhas, porém com a roupa branca e um mestre ou aluno
formado tenta derrubá-lo.
Bimba também criou sete toques
na capoeira regional, cada um tem a sua conduta e o berimbau é que
comanda a roda. Tem o Iuna que é só
para mestres; Santa Maria que é para o jogo com dinheiro no chão; Banguela, que é uma capoeira mais manhosa, mais lenta;
Cavalaria, que anunciava a presença de policiais...
O Mestre Itapuã do Grupo Ginga
fez uma música baseada nos sete toques de Bimba:
Onde
teve o início do jogo foi na roça do lobo, onde teve o início do jogo
foi na roça do lobo. Aprendi
os sete toques da capoeira regional, São Bento Grande, Banguela, Iuna,
Idalina, Amazonas, Santa Maria, Cavalaria e também o Hino da Capoeira
Regional.
No Jogo de Santa Maria coloca-se
dinheiro no meio da roda e os capoeiristas tem que pegar a nota com a
boca. Um tenta impedir o
outro de conseguir fazê-lo, quem alcançar o objetivo levará o dinheiro,
mas para isto é preciso muita malícia e malandragem.
Ao falar deste estilo de jogo, Léo
Pivete é tomado por lembranças:
No Sul da Bahia, em Caravelas, fizemos uma roda de capoeira com o jogo
de Santa Maria que eu nunca mais esqueci.
Os baianos jogavam dinheiro porque gostavam de ver. Mas,
hoje, para ver uma roda no Mercado Modelo, por exemplo, já
te cobram, virou um ponto turístico, tudo cobram, até para tirar fotos.
Na orquestra da capoeira angola
tem o atabaque, os berimbaus, os pandeiros, o agogô e o reco-reco de
madeira. Mas na capoeira do
Bimba era o berimbau e o pandeiro. Para
apresentações na academia só um berimbau;
para apresentações fora da academia podia-se utilizar um berimbau
e dois pandeiros. O Grupo
Capoeira Brasil, apesar de ser regional, utiliza todos os instrumentos da
angola de Pastinha com os três tipos de berimbaus (gunga, médio e
viola). Assim funcionam muitos grupos de Capoeira Regional.
Trabalho com a regional, mas onde estiver capoeira eu vou, independente
do estilo. – Declara Léo
Pivete, capoeirista apaixonado.
Maculelê
O Maculelê não é capoeira,
assim como o Samba de Roda e a Puxada de Rede, muito trabalhados nos
grupos de capoeira. São manifestações culturais admiradas e praticadas
por capoeiristas. O
Maculelê vem do escravo que ficava no canavial.
Dizem que quando havia briga era de facão mesmo.
Porém, hoje, existe a dança com as grimas (bastões de madeira) e
com os facões. Dizem que, na
época que os portugueses vieram colonizar o Brasil, invadiram uma aldeia
de surpresa, na qual homens saíram para caçar e só havia mulheres,
crianças e velhos. Aproveitando a situação, os portugueses tentaram escravizá-los.
Munidos com pedaços de pau, a tribo conseguiu afugentá-los.
Quando os caçadores voltaram, contaram o feito e sempre
comemoravam a dança dos bastões, que deu origem ao Maculelê.
Capoeira é mais que um esporte,
é arte. Seus “bandos” são
denominados grupos. As
“disputas” iniciam com um aperto de mão e terminam com um abraço.
Suas músicas sempre têm um romantismo embutido:
Que bom estar com vocês, aqui nesta roda, com este conjunto...
Ou lembram o tempo da escravidão:
Eu já fui rei, minha mulher já foi rainha pela mata eu vivia livre
como um animal, mas, hoje em dia, eu só tenho dor e calo, trabalhando no
embalo do chicote do feitor. Ô
corta cana, corta cana, corta cana, corta cana no canavial...
Declaram paixões:
Leva morena, me leva, leva pro seu bangalô...
Dizem adeus:
É chegada a hora, adeus minha terra, eu vou-me embora. Na bagagem patoá
e meu berimbau viola, mas meu amor não chore, enxugue as lágrimas
de agora, de você levo saudades e um canto de angola.
A vida é para ser vivida, porque a vida é ligeira, vou cantando
minha saudade, ai meu Deus, vou jogando a capoeira.
* Estudante de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio
Alonso (RJ)
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