|
Reportagem
O jornal dos que não sabem ler
A
Rádio Mec e sua trajetória
Por
Júlia Gaspar*
Fotos: Divulgação

Tudo começou com fortes semelhanças a uma geringonça infantil. "Uma vara de bambu, plantada no jardim, servia de antena. Dela escorriam
fios de cobre que iam até a sala e se enfiavam numa bobina de papelão, a
qual devia ser o aparelho. Deste saíam uma tomada de terra, ligada à torneira da pia, e um fone comum, de telefone, para ser aplicado
à orelha". Esta descrição é do jornalista Ruy Castro, num especial sobre Roquette-Pinto em 1996. E assim nasceu a primeira rádio do Brasil, pelas
mãos de Edgard Roquette-Pinto e de um grupo de cientistas.
A inicialmente Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi
concebida numa academia de ciências, e, por objetivo de seu criador,
predestinada a transmitir cultura, sem espaços para comerciais. A
primeira instalação ocorreu na Sala de Física Experimental da Escola
Politécnica, no Largo de São Francisco, onde funciona atualmente o
Instituto de Filosofia e Ciências da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
A primeira transmissão da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
ocorreu no dia primeiro de maio de 1923 pelos professores Henrique Morize e
Edgard Roquette-Pinto, cuja residência servia de estúdio. Nela, costumavam
ler poemas e outras obras através do microfone. Também havia críticas e
debates com os ouvintes. Após, aconteceu a primeira transmissão na
América do Sul de uma Ópera Completa em discos.
Abalado pela concorrência comercial de novas estações que
surgiram, Roquette-Pinto viu-se impedido de manter o seu ideal, e a Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro entrou
em crise. O criador
resolveu, então, entregar a criação ao Ministério da Educação e Saúde, em
7 de Setembro de 1936, com a promessa da finalidade exclusivamente
educativa. Na cerimônia de doação, o poeta Carlos Drumond de Andrade
registrou em crônica: o ato tinha qualquer coisa de casamento, no seio
de uma família muito unida que via a filha sair nos braços do rapaz
escolhido livremente.

Acompanhando os ideais de Roquette-Pinto, a lei nº. 378, de
13 de Janeiro de 1937, determinou o artigo 50: Fica instituído o
Serviço de Rádiofusão Educativa, destinado a promover, permanentemente, a
irradiação de programas de caráter educativo.
Tempos depois, os objetivos sonhados por Roquette-Pinto
foram ameaçados, contudo sem êxito. Durante a implantação da Nova
Capital, em Brasília, o Congresso Nacional votou uma lei aprovando que os
canais da Rádio Mec fossem transferidos para aquele organismo. A família
de Roquette-Pinto, ao perceber que a filosofia da emissora seria mudada,
conseguiu, através de sentença na Justiça, impedir a transferência da
Rádio Mec.
Porém, em 23 de Abril de 1998, uma polêmica mudança. A
medida provisória nº. 1648-7 extingue a Fundação Roquette-Pinto, que passa
a ser qualificada como a Organização Social ACERP (Associação de
Comunicação Educativa Roquette-Pinto), a qual compreende três emissoras:
a Rádio Mec AM e FM, no Rio de Janeiro e Rádio Mec AM, em Brasília.
Entretanto, a filosofia educadora de Roquete-Pinto,
apelidado como o Homem-Multidão, permanece funcionando na Rádio Mec com os
seus 69 anos de existência. Pela cultura dos que vivem em nossa terra,
pelo progresso do Brasil, lema de Roquette- Pinto, cultivado até os
dias de hoje.
*Estudante
de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)
|