Webjornal - Quinzenal  - Edição 76 - Aracaju,  20 de março a 24 de abril  de 2005
________________________________________________________________________________________

Reportagem

O jornal dos que não sabem ler

A Rádio Mec e sua trajetória

Por Júlia Gaspar*
Fotos: Divulgação

Tudo começou com fortes semelhanças a uma geringonça infantil. "Uma vara de bambu, plantada no jardim, servia de antena. Dela escorriam fios de cobre que iam até a sala e se enfiavam numa bobina de papelão, a qual devia ser o aparelho. Deste saíam uma tomada de terra, ligada à torneira da pia, e um fone comum, de telefone, para ser aplicado à orelha". Esta descrição é do jornalista Ruy Castro, num especial sobre Roquette-Pinto em 1996.  E assim nasceu a primeira rádio do Brasil, pelas mãos de Edgard Roquette-Pinto e de um grupo de cientistas.

A inicialmente Rádio Sociedade do Rio de Janeiro foi concebida numa academia de ciências, e, por objetivo de seu criador, predestinada a transmitir cultura, sem espaços para comerciais. A primeira instalação ocorreu na Sala de Física Experimental da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco, onde funciona atualmente o Instituto de Filosofia e Ciências da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A primeira transmissão da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro ocorreu no dia primeiro  de maio de 1923 pelos professores Henrique Morize e Edgard Roquette-Pinto, cuja residência servia de estúdio. Nela, costumavam ler poemas e outras obras através do microfone. Também havia críticas e debates com os ouvintes.  Após, aconteceu a primeira transmissão na América do Sul de uma Ópera Completa em discos.

Abalado pela concorrência comercial de novas estações que surgiram, Roquette-Pinto viu-se impedido de manter o seu ideal, e a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro entrou em crise.  O criador resolveu, então, entregar a criação ao Ministério da Educação e Saúde, em 7 de Setembro de 1936, com a promessa da finalidade exclusivamente educativa.  Na cerimônia de doação, o poeta Carlos Drumond de Andrade registrou em crônica:  o ato tinha qualquer coisa de casamento, no seio de uma família muito unida que via a filha sair nos braços do rapaz escolhido livremente.

Acompanhando os ideais de Roquette-Pinto, a lei nº. 378, de 13 de Janeiro de 1937, determinou o artigo 50:  Fica instituído o Serviço de Rádiofusão Educativa, destinado a promover, permanentemente, a irradiação de programas de caráter educativo.

Tempos depois, os objetivos sonhados por Roquette-Pinto foram ameaçados, contudo sem êxito. Durante a implantação da Nova Capital, em Brasília, o Congresso Nacional votou uma lei aprovando que os canais da Rádio Mec fossem transferidos para aquele organismo.  A família de Roquette-Pinto, ao perceber que a filosofia da emissora seria mudada, conseguiu, através de sentença na Justiça, impedir a transferência da Rádio Mec.

Porém, em 23 de Abril de 1998, uma polêmica mudança.  A medida provisória nº. 1648-7 extingue a Fundação Roquette-Pinto, que passa a ser qualificada como a Organização Social ACERP (Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto), a qual compreende três emissoras:  a Rádio Mec AM e FM, no Rio de Janeiro e  Rádio Mec AM, em Brasília. 

Entretanto, a filosofia educadora de Roquete-Pinto, apelidado como o Homem-Multidão, permanece funcionando na Rádio Mec com os seus 69 anos de existência.  Pela cultura dos que vivem em nossa terra, pelo progresso do Brasil, lema de Roquette- Pinto, cultivado até os dias de hoje.

*Estudante de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)

                        

(c) Todos os Direitos Reservados