Webjornal - Quinzenal  - Edição 78 - Aracaju,  22 de maio a 19 de junho de 2005
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Reportagem

Os sem-teto da literatura

Escritores independentes disputam com famosos espaço na Bienal do Livro, do Rio de Janeiro

Por Paulo Marcio Vaz
Fotos: Elisa Sauerbronn

Nem só de Jô Soares, Tom Wolfe ou Casseta e Planeta vive a XII Bienal do Livro, realizada de 12 a 22 de maio no Riocentro, Rio de Janeiro. Dentre autores de peso da nossa e de outras literaturas que compõem, juntamente com grandes editoras nacionais e estrangeiras, um mercado cada vez mais voraz, também podemos encontrar um pequeno exército de escritores independentes e editoras dependentes, que, se por um lado travam uma luta sempre desigual no quesito poder econômico com as grandes editoras, por outro, muitas vezes se igualam a elas em termos de qualidade e conteúdo. Mas, sem sombra de dúvidas, quando as armas são garra e força de vontade, esse pequeno exército é imbatível.

A XII versão da Bienal do Livro chegou com números assombrosos: 106 mil pessoas visitaram a feira, só no primeiro fim de semana. A expectativa dos organizadores é de receber 600 mil visitantes até o fim do evento, que conta com 944 expositores distribuídos pelos 55 mil metros quadrados de 3 pavilhões do Riocentro. Sem dúvida, um mega-evento, que tem entre os seus principais atributos o de oferecer espaço também para os escritores “sem-teto”, que também têm direito a um espaço na Bienal. Dentre esses soldados da persistência, algumas belas histórias de garra, talento e, acreditem, sucesso de vendas.

A jornalista e escritora Shirley Castilho é uma das que se encaixam perfeitamente nesse perfil: vinda de Belém do Pará especialmente para a Bienal, Shirley vendeu todas as 400 cópias de seu livro “Confissões de Uma Criança de Rua”. “Fiquei surpresa com a aceitação do livro. A divulgação se deu através do boca a boca. As pessoas compravam e indicavam pra outras e assim foi”, diz ela, que pagou R$1.050,00 para alugar um dos menores stands da feira que, além dos livros, ainda abriga toda a bagagem da autora. “Consegui o dinheiro graças aos meus próprios leitores que se cotizaram e conseguiram pagar minha passagem e do meu marido, mais o aluguel desse espaço”, completa a autora, que se hospeda “clandestinamente” numa casa alugada nas proximidades do Riocentro: “É uma casa de veraneio de um bacana. O caseiro nos deixou dormir lá por 30 reais.” Apesar das dificuldades, Shirley ainda consegue doar uma parte de seu “lucro” para instituições carentes que amparam crianças de rua em seu estado.

No grande labirinto de editoras e escritores, também se destaca, não pelo tamanho, mas sim pela qualidade e originalidade, o stand do “Atelier Imaginarte”. Uma pequena empresa carioca que há 5 anos restaura livros e documentos de maneira artesanal, procurando preservar a memória familiar ou individual das pessoas, através da restauração de documentos antigos e livros de família que pertenceram a antigas gerações. As irmãs Lucca e Anna Gabriela Malta, proprietárias da Imaginarte, trabalham na própria garagem de casa e, durante a Bienal, promovem atividades para crianças, buscando conscientizá-las e ensiná-las a conservar e cuidar de seus próprios livros.

Outro stand “alternativo” que surpreendeu foi o das editoras universitárias. Cerca de 50 instituições de ensino superior ocuparam 800 m2 da Bienal, oferecendo grande variedade de títulos, abrangendo os mais variados temas, dentre eles: cinema, teatro, arquitetura, artes plásticas, filosofia, além de livros técnicos e didáticos.

Pegando carona no stand universitário, a Imprensa Oficial apresentou o lançamento da coleção Aplauso, que apresenta perfis de grandes atrizes e atores brasileiros, assim como traz a íntegra de peças teatrais e roteiros de grandes filmes nacionais. Ruth de Souza, uma das atrizes que mereceram um volume da coleção, estava presente na Bienal e ressaltou a importância da preservação da memória artística brasileira, principalmente numa época em que, segundo ela, “o ator ou atriz só é lembrado enquanto está no ar”.

Jô Soares, Tom Wolfe e os Cassetas devem estar muito satisfeitos com a venda assombrosa de seus livros na Bienal. Do mesmo modo, escritores como a paraense Shirley Oliveira e tantos outros guerreiros da literatura “sem-teto”, mas com qualidade, puderam experimentar o doce gosto do sucesso, no amargor das dificuldades.

*Estudante de jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (RJ)

                        

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