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Reportagem
Começaria tudo outra vez
Preso, torturado, exilado. Para Cid Benjamin, nada
foi em vão
Por
Paulo Marcio Vaz
Foto: Cortesia Cid Benjamin

Codinome, Willy. Às vezes, Miro. Também podia ser
chamado de Célio ou Levi. Nos tempos da ditadura não era aconselhável o
uso do nome verdadeiro. Principalmente quando se contestava o regime de
forma tão ousada e corajosa.
Ainda estudante, trocou a caneta e o papel por armas mais
pesadas. As idas ao Maracanã foram suspensas. As rodas de samba passaram
a acontecer na Argélia, Chile, Cuba, México e Suécia, países onde andou
exilado, às vezes sem identidade, sem rumo, sem cidadania. Tudo em defesa
da liberdade. Da nossa liberdade.
Hoje, Cid Queiroz Benjamim (Na foto acima, em Ibiúna, 1968,
o segundo da esquerda para a direita) já pode se identificar. Professor do curso de
Jornalismo da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso – RJ), é parte da
história em pessoa. História de dor e resistência. De vitórias e derrotas.
De dúvidas e certezas, como a de que, se fosse preciso faria tudo de novo,
mudando apenas a forma, segundo ele equivocada, que a resistência pela
luta armada adotou.
Namorando a militância
Cid nasceu em Pernambuco, 1948. Aos 12 anos, veio para o
Rio. Desde o Colégio de Aplicação da UFRJ, onde estudou, já praticava
política estudantil. Mas foi a partir de sua entrada no curso de
Engenharia da UFRJ, em 67, que se deixou embriagar “por essa cachaça que é
a militância política”. Seu pai, militar contrário ao golpe, sempre apoiou
o engajamento do filho.
“Nunca namorei tanto, enquanto praticava a militância.
Continuei tocando meu violão e indo aos jogos do Flamengo. Essa visão que
as pessoas tem do militante político como sendo um ‘mala’ que só fala por
chavões, é inteiramente falsa. Apesar da militância, éramos um grupo muito
feliz e divertido. Tinha até gente que entrava para o movimento estudantil
só pra arrumar namorada.”
Sua primeira prisão ocorreu em outubro de 68, durante o
congresso clandestino da UNE em Ibiúna, SP. Cerca de 1000 estudantes foram
presos, mandados para seus estados e soltos após serem interrogados.
“Naquela época ficávamos pouco tempo presos. A violência policial existia,
mas era nada, se comparada à tortura que chegaria após o AI-5”, diz ele.
Até meados de 68, as armas dos estudantes eram mais
eficazes que as da polícia: rolhas e bolas de gude derrubavam a cavalaria.
Bombas de gás eram chutadas de volta e os cassetetes policiais quase não
eram usados pois, devido à chuva de pedras portuguesas arrancadas da
calçada e arremessadas pelos estudantes, a polícia sempre saía correndo. A
situação começou a se complicar a partir do segundo semestre de 68, quando
armas de fogo passaram a ser usadas contra os estudantes. As faculdades,
até então portos seguros, começaram a ser invadidas pela repressão. Os
líderes estudantis se viram forçados a abandonar suas famílias e a
faculdade. Cid ainda conseguia, nessa época, ir ao Maracanã e, de vez em
quando, encontrar os pais. Mas essa “mordomia” iria acabar.
Luta armada
A partir do AI-5, em 69, os líderes estudantis ficaram
definitivamente isolados. “Fazer política dentro das universidades ficou
impossível. Não havia como fazer oposição através dos canais legais e
institucionais.” Era o início da luta armada, à qual Cid se integrou a
partir de 69. O ápice do movimento foi o seqüestro do embaixador
americano, Charles Elbrick. “A partir daí, a repressão fechou o cerco. A
bem sucedida operação do seqüestro deu uma falsa impressão de poder que a
resistência, na verdade, não tinha. A casa que serviu de cativeiro foi
logo descoberta e vigiada 24 horas por dia. A embaixada americana deu
ordens expressas aos militares brasileiros, proibindo a invasão. Mesmo
assim, a tensão foi grande.” Os momentos da libertação do embaixador estão
bem guardados na memória de Cid: “Parecia cena de filme americano:
estávamos em dois carros. O Jonas, comandante da ação, saiu com o
embaixador no carro dirigido por nosso melhor motorista. Eu dirigia o
carro de cobertura, carregado com granadas e metralhadoras. Os agentes da
repressão nos seguiam. Quando percebemos que um grande esquema estava
sendo montado para nos pegar, diminuí a velocidade e fiz sinal para nos
ultrapassarem. Iríamos abrir fogo contra eles. Mas o agente fez sinal pra
mim, dizendo que não. Nessa história toda, perdemos contato visual com o
carro onde estava o embaixador. Então, dei uma guinada para a direita,
entrei numa rua e, ao final, todos nos perdemos de todos(risos)! Depois
nos reencontramos num ponto previamente marcado, e tomamos uma cervejinha
pra comemorar.”
O seqüestro do embaixador resultou na libertação de 15
presos políticos e na leitura, em rede nacional, de um manifesto contra a
ditadura.
Tortura, exílio e
retorno
Em 21 de abril de 70, Cid foi preso novamente. Dessa vez,
numa situação bem diferente de Ibiúna, ele era um dos homens mais
procurados pela ditadura. Levado para a sede do DOI-CODI, foi cruelmente
torturado. A dor foi tanta, que chegou a pedir a seus torturadores que o
matassem. Mas esse “direito” lhe foi negado: “Aqui você só vai morrer
quando nós quisermos...”, foi a resposta. Transferido para o DOPS, Cid
ainda conseguiu, mesmo preso, colaborar com o seqüestro do embaixador
alemão. O êxito dessa operação, possibilitou nova libertação de presos,
inclusive a do próprio Cid, imediatamente deportado.
Argélia, Chile, México, Cuba e Suécia.
A via crucis do exílio durou 9 anos. Alternando momentos de legalidade
e clandestinidade, Cid sempre teve a intenção de voltar ao Brasil.
Em 1979, com a anistia, pode finalmente retornar. Se inicia
então, a vida do jornalista Cid Benjamim. “Me tornei jornalista por uma
questão de necessidade. Comecei trabalhando no movimento sindical e me
virei também fazendo traduções, até que um amigo me recomendou para o
Evandro Carlos de Andrade, na época diretor de redação de O Globo.
Fui contratado como redator de Política. Foram 10 anos em O Globo e
2 anos no JB, onde fui editor de política.”
Eterno revolucionário
Hoje, Cid se diz satisfeito com seu trabalho na FACHA. Como
jornalista, atua como “free-lancer” e também é o Secretário-Geral do
Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro: “Abrimos
recentemente espaço para a pré-sindicalização de estudantes de Jornalismo.
Os interessados podem acessar o site do sindicato (www.jornalistas.org.br).”
Eterno apreciador das coisas boas da vida, Cid não deixa de
bater ponto semanalmente nas rodas de samba cariocas e ressalta que, mesmo
nos períodos mais turbulentos do exílio, seu violão nunca deixou de ser
parte da bagagem.
Como um dos fundadores do PT, se diz decepcionado com o
atual governo e indignado com outra ditadura: a do capital financeiro. Em
relação às mudanças esperadas que, segundo ele, não aconteceram, diz: “Não
se trata de dar cavalo de pau em transatlântico, como diz o Zé Dirceu. Mas
se trata de mudar o rumo do navio.” Ainda segundo Cid, no início dos anos
80 havia mais perspectivas de mudanças do que agora, no sentido da
resolução dos problemas sociais: “Hoje as perspectivas são piores do que
eram em 1980, quando se fundou o PT. Uma tragédia.”
Se considerando um eterno revolucionário, Cid é simples e
direto ao dar um conselho para a nova geração: “Lutem por seus direitos e
exijam o cumprimento de todas as promessas que fizerem a vocês.”
Com a palavra, os estudantes...
* Estudante de
Jornalismo da FACHA - RJ
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