Webjornal - Quinzenal  - Edição 79 - Aracaju, 19 de junho a 17 de julho  de 2005
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Reportagem

Começaria tudo outra vez

Preso, torturado, exilado. Para Cid Benjamin, nada foi em vão

Por Paulo Marcio Vaz
Foto: Cortesia Cid Benjamin

Codinome, Willy. Às vezes, Miro. Também podia ser chamado de Célio ou Levi. Nos tempos da ditadura não era aconselhável o uso do nome verdadeiro. Principalmente quando se contestava o regime de forma tão ousada e corajosa.

Ainda estudante, trocou a caneta e o papel por armas mais pesadas.  As idas ao Maracanã foram suspensas. As rodas de samba passaram a acontecer na Argélia, Chile, Cuba, México e Suécia, países onde andou exilado, às vezes sem identidade, sem rumo, sem cidadania. Tudo em defesa da liberdade. Da nossa liberdade.

Hoje, Cid Queiroz Benjamim (Na foto acima, em Ibiúna, 1968, o segundo da esquerda para a direita) já pode se identificar. Professor do curso de Jornalismo da FACHA (Faculdades Integradas Hélio Alonso – RJ), é parte da história em pessoa. História de dor e resistência. De vitórias e derrotas. De dúvidas e certezas, como a de que, se fosse preciso faria tudo de novo, mudando apenas a forma, segundo ele equivocada, que a resistência pela luta armada adotou.

Namorando a militância

Cid nasceu em Pernambuco, 1948. Aos 12 anos, veio para o Rio. Desde o Colégio de Aplicação da UFRJ, onde estudou, já praticava  política estudantil. Mas foi a partir de sua entrada no curso de Engenharia da UFRJ, em 67, que se deixou embriagar “por essa cachaça que é a militância política”. Seu pai, militar contrário ao golpe, sempre apoiou o engajamento do filho.

 “Nunca namorei tanto, enquanto praticava a militância. Continuei tocando meu violão e indo aos jogos do Flamengo. Essa visão que as pessoas tem do militante político como sendo um ‘mala’ que só fala por chavões, é inteiramente falsa. Apesar da militância, éramos um grupo muito feliz e divertido. Tinha até gente que entrava para o movimento estudantil só pra arrumar namorada.”

Sua primeira prisão ocorreu em outubro de 68, durante o congresso clandestino da UNE em Ibiúna, SP. Cerca de 1000 estudantes foram presos, mandados para seus estados e soltos após serem interrogados. “Naquela época ficávamos pouco tempo presos. A violência policial existia, mas era nada, se comparada à tortura que chegaria após o AI-5”, diz ele.

Até meados de 68, as armas dos estudantes eram mais eficazes que as da polícia: rolhas e bolas de gude derrubavam a cavalaria. Bombas de gás eram chutadas de volta e os cassetetes policiais quase não eram usados pois, devido à chuva de pedras portuguesas arrancadas da calçada e arremessadas pelos estudantes, a polícia sempre saía correndo. A situação começou a se complicar a partir do segundo semestre de 68, quando armas de fogo passaram a ser usadas contra os estudantes. As faculdades, até então portos seguros, começaram a ser invadidas pela repressão. Os líderes estudantis se viram forçados a abandonar suas famílias e a faculdade. Cid ainda conseguia, nessa época, ir ao Maracanã e, de vez em quando,  encontrar os pais. Mas essa “mordomia” iria acabar.

Luta armada

A partir do AI-5, em 69, os líderes estudantis ficaram definitivamente isolados. “Fazer política dentro das universidades ficou impossível. Não havia como fazer oposição através dos canais legais e institucionais.” Era o início da luta armada, à qual Cid se integrou a partir de 69. O ápice do movimento foi o seqüestro do embaixador americano, Charles Elbrick. “A partir daí, a repressão fechou o cerco. A bem sucedida operação do seqüestro deu uma falsa impressão de poder que a resistência, na verdade, não tinha. A casa que serviu de cativeiro foi logo descoberta e vigiada 24 horas por dia. A embaixada americana deu ordens expressas aos militares brasileiros, proibindo a invasão. Mesmo assim, a tensão foi grande.” Os momentos da libertação do embaixador estão bem guardados na memória de Cid: “Parecia cena de filme americano: estávamos em dois carros. O Jonas, comandante da ação, saiu com o embaixador no carro dirigido por nosso melhor motorista. Eu dirigia o carro de cobertura, carregado com granadas e metralhadoras. Os agentes da repressão nos seguiam. Quando percebemos que um grande esquema estava sendo montado para nos pegar, diminuí a velocidade e fiz sinal para nos ultrapassarem. Iríamos abrir fogo contra eles. Mas o agente fez sinal pra mim, dizendo que não. Nessa história toda, perdemos contato visual com o carro onde estava o embaixador. Então, dei uma guinada para a direita, entrei numa rua e, ao final, todos nos perdemos de todos(risos)! Depois nos reencontramos num ponto previamente marcado, e tomamos uma cervejinha pra comemorar.”

O seqüestro do embaixador resultou na libertação de 15 presos políticos e na leitura, em rede nacional, de um manifesto contra a ditadura.

Tortura, exílio e retorno

Em 21 de abril de 70, Cid foi preso novamente. Dessa vez, numa situação bem diferente de Ibiúna, ele era um dos homens mais procurados pela ditadura. Levado para a sede do DOI-CODI, foi cruelmente torturado. A dor foi tanta, que chegou a pedir a seus torturadores que o matassem. Mas esse “direito” lhe foi negado: “Aqui você só vai morrer quando nós quisermos...”, foi a resposta. Transferido para o DOPS, Cid ainda conseguiu, mesmo preso, colaborar com o seqüestro do embaixador alemão. O êxito dessa operação, possibilitou nova libertação de presos, inclusive a do próprio Cid, imediatamente deportado.

Argélia, Chile, México, Cuba e Suécia. A via crucis do exílio durou 9 anos. Alternando momentos de legalidade e clandestinidade, Cid sempre teve a intenção de voltar ao Brasil.

Em 1979, com a anistia, pode finalmente retornar. Se inicia então, a vida do jornalista Cid Benjamim. “Me tornei jornalista por uma questão de necessidade. Comecei trabalhando no movimento sindical e me virei também fazendo traduções, até que um amigo me recomendou para o Evandro Carlos de Andrade, na época diretor de redação de O Globo. Fui contratado como redator de Política. Foram 10 anos em O Globo e 2 anos no JB, onde fui editor de política.”

Eterno revolucionário

Hoje, Cid se diz satisfeito com seu trabalho na FACHA. Como jornalista, atua como “free-lancer” e também é o Secretário-Geral do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro: “Abrimos recentemente espaço para a pré-sindicalização de estudantes de Jornalismo. Os interessados podem acessar o site do sindicato (www.jornalistas.org.br).”

Eterno apreciador das coisas boas da vida, Cid não deixa de bater ponto semanalmente nas rodas de samba cariocas e ressalta que, mesmo nos períodos mais turbulentos do exílio, seu violão nunca deixou de ser parte da bagagem.

Como um dos fundadores do PT, se diz decepcionado com o atual governo e indignado com outra ditadura: a do capital financeiro. Em relação às mudanças esperadas que, segundo ele, não aconteceram, diz: “Não se trata de dar cavalo de pau em transatlântico, como diz o Zé Dirceu. Mas se trata de mudar o rumo do navio.” Ainda segundo Cid, no início dos anos 80 havia mais perspectivas de mudanças do que agora, no sentido da resolução dos problemas sociais: “Hoje as perspectivas são piores do que eram em 1980, quando se fundou o PT. Uma tragédia.”

Se considerando um eterno revolucionário, Cid é simples e direto ao dar um conselho para a nova geração: “Lutem por seus direitos e exijam o cumprimento de todas as promessas que fizerem a vocês.”

Com a palavra, os estudantes...

* Estudante de Jornalismo da FACHA - RJ

                        

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