
Webjornal - Mensal - Edição 83 - Aracaju, 09 de outubro
a 06 de novembro de 2005
________________________________________________________________________________________
|
|
Reportagem
O mestre imaginário Por Paulo Lima
Hoje em dia a educação parece indissociável da tecnologia. Longe está o tempo em que a noção de aprendizado bem sucedido estava ligada à figura de um professor, um quadro-negro, lápis, cadernos e muitos livros. O corpo a corpo com a página impressa, com o rascar de um giz e com o esforço de um mestre tutor foi substituído, em larga escala, pela onipresença de uma telinha luminosa de computador. Isto significa uma conquista sem retorno? O computador veio facilitar a vida de mestres e pupilos em sala de aula, ou trouxe novos e ainda incontornáveis problemas? A julgar pela enxurrada de ofertas das escolas, que costumam apresentar como principal atrativo o acesso irrestrito a laboratórios de computação, trata-se de uma batalha vencida. E não se fala mais nisso. Mas não é bem assim. Uma pesquisa recente realizada na Universidade de Munique, envolvendo 174 mil estudantes de 31 países, indicou que aqueles que usam com mais freqüência o computador têm um desempenho acadêmico pior do que aqueles que raramente – ou quase nunca – o utilizam. Explorando um viés crítico sobre o uso irrestrito e acrítico da tecnologia no processo de educação, há especialistas que erguem a sua voz dissonante e acusam: o computador não é o elemento neutro, nem de redenção, que se imagina.
Lowell Monke, professor de educação na universidade de Wittenberg, nos Estados Unidos, é uma dessas avis raras. Em longo artigo recém-publicado na edição de setembro/outubro da revista eletrônica Orion, Monke adverte: “A educação por meio de computador não é uma revolução, nem uma moda passageira, mas uma barganha Faustiana. As crianças ganham um poder sem precedentes para controlar o seu mundo exterior, mas ao custo de crescimento interno”. No Fausto de Goethe, um escritor vende a sua alma ao diabo para conquistar poderes sem precedentes sobre a sua própria escrita. Na alusão de Monke, o computador ocuparia o papel do demo na vida dos estudantes. À medida que abre um admirável mundo novo de recursos, se apodera de outros tantos que são importantes no desenvolvimento pessoal do aluno. Monke explica: “Instalar um laboratório de informática numa escola pode significar que os estudantes terão acesso a informações que jamais obteriam de outra forma. Mas isso pode também representar que eles passarão menos tempo envolvidos com atividades ao ar livre, que os recursos para o ensino de arte serão cortados e que novas medidas de segurança serão empregadas". Nas concepções correntes, o computador é considerado apenas “uma ferramenta” na educação. Mas Monke observa que esse argumento ignora um fato importante: toda vez que privilegiamos uma atividade de aprendizagem sobre outra, estamos decidindo que tipo de contato com o mundo estamos valorizando para os nossos filhos. Segundo Monke, “computadores tendem a divulgar e apoiar determinados tipos de experiências, e desvalorizar outras”. Como notou o grande crítico de tecnologia Neil Postman, falecido em 2003, “o que precisamos considerar sobre os computadores não tem nada a ver com sua eficiência como uma ferramenta de ensino. Precisamos saber de que maneiras isso está alterando nossa concepção de aprendizado”. Em 1998, Postman proferiu uma célebre palestra intitulada “Cinco coisas que precisamos saber sobre mudança tecnológica”. Na conclusão da primeira idéia sobre o assunto, ele deixou claro que “a cultura sempre paga um preço pela tecnologia”. Eis o gancho que nos faz retornar aos argumentos de Lowell Monke. Longe de ser um elemento neutro, como faz crer, o computador induz a comportamentos pouco edificantes nos seus usuários mais tenros. “Durante as duas décadas em que ensinei e utilizei tecnologia digital com os jovens, percebi que os computadores podem levar as crianças a relações com o mundo alienadas, manipuladas e enfraquecidas. E percebi que o uso crescente de computadores põe em risco sua habilidade de pertencer plenamente a uma comunidade biológica, pondo em risco, por fim, as comunidades”. O ambiente computacional, por si só, já condiciona a criança a um certo isolamento. Em suas experiências de educador, Monke observou que a dedicação empolgada ao computador faz com que os alunos eliminem o recreio. Numa palavra, trata-se da “barganha Faustiana” funcionando a todo vapor. Num determinado momento, soa mais lúdico e interessante para a criança deixar-se seduzir pelo écran e seu mundo miraculoso de imagens, jogos, gráficos e sons, do que pelo mundo real lá fora. Trata-se da cultura, como frisou Neil Postman, sentindo a influência invasiva da tecnologia. “As crianças”, diz Monke, “aprendem sobre a fragilidade das flores tocando suas pétalas. Eles aprendem a cooperar organizando seus próprios jogos. O computador não pode simular as nuances físicas e emocionais de uma partida de kickball ou a criatividade para se inventar novos ritmos para a brincadeira de pular corda”. Esta experiência real não pode ser dada pela simulação do computador. “Quando as crianças estão livres para praticar elas próprias, podem testar a percepção interior contra o mundo ao seu redor, desenvolver qualidades que envolvem cuidado, auto-disciplina, coragem, compaixão, generosidade e tolerância. Elas vão gradualmente imaginando como fazer parte de comunidades sociais e biológicas”, argumenta Monke. No Brasil, o uso precoce da tecnologia nos processos educacionais tem no professor Valdemar W. Setzer um renitente crítico. Waldemar, que escreveu com Lowell Monke um artigo publicado em livro nos Estados Unidos, sustenta um lema que dá a medida das suas convicções sobre os malefícios das traquitanas eletrônicas na vida dos pequenos: “Deixe as crianças serem infantis; não lhes permita ao acesso a TV, joguinhos eletrônicos e computadores!” Autor do livro “Meios eletrônicos e a educação: uma visão alternativa”, Valdemar Setzer escreveu inúmeros artigos explorando o tema. Em “Contra o uso de computadores por crianças e jovens”, ele afirma: “Para se falar de computadores na educação é preciso compreender o que é um computador, e o que é educação; para falar desta ultima, é preciso compreender o que é o ser humano e como ele se desenvolve com a idade”. Fazendo a pergunta que normalmente não se faz – a partir de que idade é correto usar o computador? -, Valdemar dá a sua resposta: “Pois bem, usando o modelo de desenvolvimento de Steiner e a imensa prática com sucesso das Escolas Waldorf, cheguei há muito tempo à conclusão de que o pensamento abstrato forçado pelo computador prejudica os jovens até a idade de 16-17 anos, forçando-os a usarem uma linguagem e um tipo de pensamento que são somente adequados após muita maturidade mental”. É lógico que o mundo real oferece seus ricos e perigos. “As crianças sempre precisam ser monitoradas e, às vezes, disciplinadas para atos de crueldade, egoísmo, descuido e até violência”, diz Monke. “Os computadores de fato fornecem uma alternativa confiável e atraente aos perigos de atividades não supervisionadas”, ele afirma. Todavia, “as escolas freqüentemente usam computadores, ou outras atividades altamente estruturadas, para evitar essas qualidades problemáticas da infância”, explica. “Essa precisão”, continua ele, “nega à criança a prática e o feedback par desenvolver novas habilidades e disposições de uma pessoa madura. Se as crianças não mergulharem seus dedos nas águas de atividades sociais não-supervisionadas, jamais serão capazes de nadar no mar da responsabilidade cívica”. Para Monke, os computadores não somente desviam os alunos do recreio e de outras experiências estruturantes, como substituem aquelas experiências por outras virtuais, criando um conjunto de problemas. “Se elas não tiverem a oportunidade de escavar o solo, de descobrir aranhas, insetos, pássaros e plantas, serão menos prováveis de explorar, apreciar e proteger a natureza quando adultos”. A relação com a tecnologia, segundo Monke, encerra as crianças num paradoxo: quanto mais poder externos elas terão à sua disposição, maiores serão as dificuldades em desenvolver as capacidades internas para usar esse poder com sabedoria. “Uma vez que educadores, pais e políticos compreendam esse fenômeno, talvez a educação comece a enfatizar o desenvolvimento do ser humano vivendo em comunidade”, diz Monke, “e não apenas a questão da virtuosidade técnica”. |
(c) Todos os Direitos Reservados