
Webjornal - Mensal - Edição 87 - Aracaju, 19 de fevereiro
a 26 de março de 2006
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Reportagem
A hora e a vez dos comunistas
Por Paulo Lima
Centro de Aracaju, 20 de fevereiro de 1976, véspera de Carnaval, duas e meia da tarde. Tudo aconteceu muito rapidamente. Marcélio Bonfim Rocha deixou o Tribunal Regional Eleitoral, onde trabalhava, para dar uma volta. Já na rua, ele mal andou alguns metros, quando um homem se aproximou e sentenciou: “Você está preso, não reaja! Sabemos onde estão seu filho e sua mulher. Vamos até aquele carro ali”. Marcélio foi forçado a entrar num Fusca, e, com os olhos vendados, partiu com dois desconhecidos, tomando um rumo ignorado. Naquele dia, às seis da tarde, o bancário Antônio José de Góis foi até o Cacique Chá, então um badalado local de encontro. Ficou durante uma hora. Conversou com amigos e depois, guiando a própria moto, foi para casa. Em poucos minutos ele chegou ao prédio onde morava, na rua Sete de Setembro. Quase não desceu da moto. Foi abordado por quatro homens que o prenderam. Colocado à força num Fusca, com os olhos vendados, Góis desapareceu dentro da noite com o grupo sinistro. Ainda no dia 20, o jovem advogado Jackson de Sá Figueiredo se prepara para jantar em sua casa na rua Itaporanga, quando o chamam à porta: “Dr. Jackson, tem um cliente seu no carro querendo conversar. Queria que o senhor fosse até lá”. Jackson atravessou a rua e foi conferir. Havia um carro parado. Jackson foi encapuzado e empurrado para o interior do veículo. O Fusca sumiu noite adentro. No mesmo dia, o funcionário da Petrobrás Milton Coelho de Carvalho volta para casa, depois de mais um dia de trabalho. O ônibus da empresa deixa Milton a alguns metros da sua casa, na rua Expedicionário Pedro Hilário, no bairro Santo Antônio. Milton descansa no quarto, quando seu cunhado avisa: “Tem gente estranha aí fora”. São sete e meia da noite. Milton sai para averiguar. No portão, um sujeito à paisana lhe aponta um revólver. Milton recua e cria um tumulto, para ganhar tempo. A cena é assistida por vizinhos. Milton tenta resistir, mas é agredido com coronhadas. Um dos quatro visitantes tenta vendar os olhos de Milton com óculos de borracha. Os óculos caem no chão. Por fim, Milton é jogado num Fusca, que sai em velocidade. Seqüestros como estes ocorreram em diversos pontos de Aracaju, ao longo dos dias 20, 21 e 22 daquele mês de fevereiro. Além dos quatro casos acima narrados, pelo menos mais 34 militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sendo alguns do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), como Carlos Alberto Menezes e Elias Pinho, foram alvos de ações relâmpagos. Estava em curso a ‘Operação Cajueiro’, executada pelo Exército com o objetivo de desbaratar o PCB de Sergipe. A ordem para a caçada aos comunistas sergipanos partiu da 6ª Região Militar, de Salvador, comandada pelo general Adyr Fiúza de Castro. Uma força-tarefa reunindo elementos do DOI-CODI, da Polícia Federal e do Dops agiu em Aracaju sob as ordens do tenente-coronel Oscar Silva. Como num efeito dominó, as células do PCB já haviam sido dizimadas em vários estados. Sergipe era a bola da vez. Primeiro os pecebistas caíram em São Paulo, no episódio que custou a vida do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manoel Fiel Filho. Em seguida, foi a vez do Rio de Janeiro, onde funcionava a gráfica do partido. A caça aos comunistas avançou por Minas Gerais, Bahia e Pernambuco. Atingir Sergipe era apenas uma questão de tempo. Afinal de contas, numa última reunião do PCB, realizada na Atalaia Nova um ano antes da queda, agentes da repressão fotografaram parte do grupo, antes da travessia. Tratava-se de uma tragédia anunciada. Antes do desmantelamento, o PCB sergipano teve dias de glória. Em 1970, Jackson Barreto e Jonas Amaral se elegeram vereadores com o apoio da sigla. A dose voltou a se repetir em 1974. Jackson e Jonas se elegeram deputados estaduais, graças mais uma vez ao trabalho dos comunistas. Logo após as primeiras prisões do dia 20, rumores de que uma operação militar estava em andamento foi se espalhando entre a militância política. Na noite daquele dia fatídico, o jovem jornalista Milton Alves está num bar, no bairro Siqueira Campos, quando de dentro de um carro sai um assustado Jackson Barreto: “Milton, os companheiros estão caindo”. Porém não se sabia ao certo o paradeiro dos seqüestrados, o que só fazia aumentar o desespero de amigos e familiares. O drama só veio a público cinco dias após as primeiras prisões, por conta dos furos do jornalista Paulo Barbosa de Araújo, naquele tempo correspondente do jornal O Estado de São Paulo. As matérias, publicadas também no Jornal do Brasil e na Tribuna da Bahia, noticiavam que militantes do PCB e do MDB estavam sendo torturados no quartel do 28º Batalhão de Caçadores (foto acima), no bairro 18 do Forte. Mas a versão oficial do Exército transmitia o melhor dos mundos. Uma visita do general Adyr Fiúza de Castro foi organizada para pôr fim aos boatos de que havia ocorrido seqüestro, sevícias e tortura dos comunas. Puro embuste. Em sua passagem pelo 28º BC, Fiúza de Castro, ao se ver frente a frente com aqueles homens alquebrados e feridos pela pancadaria, não se conteve e gritou para os seus comandados: “Não era para deixar marcas!”. Milton Coelho de Carvalho, uma das vítimas, carrega uma marca indelével. As torturas o deixaram cego para o resto da vida. As vítimas da Operação Cajueiro, com algumas variações, foram submetidas a um mesmo ritual. Elas eram rendidas por dois, três, até quatro militares à paisana, algemadas e espremidas num Fusca; depois, lhes colocavam os óculos de borracha (“borracha de pneu de bicicleta”, segundo alguns presos) terrivelmente apertados. Com a pressão provocada entre os olhos, muitos sangravam; por último, lhes enfiavam um capuz com um furo à altura do nariz, para facilitar a respiração. Às vezes o veículo rodava horas pela cidade, na tentativa de despistar o seu itinerário. Na chegada ao quartel do 28º BC, os presos eram examinados por um médico militar. Encaminhados para uma garagem, sofriam torturas. E métodos de torturas, físicas ou psicológicas, não faltavam aos militares. Delmo Naziazeno foi seqüestrado no dia 21 de fevereiro em frente a sua casa, no bairro Santo Antônio, quando voltava da praia. No quartel, tomou choque elétrico, teve de ficar de joelhos sobre uma porção de sal e foi forçado a ouvir reiteradas ameaças. Seus algozes encostavam o cano de uma arma em sua cabeça e ameaçavam disparar. Repetiam que iam sair para seqüestrar sua mulher e simulavam que estavam dando a partida num carro. Pelo menos uma ameaça eles cumpriram. Na mesma noite, os agentes voltaram e capturaram Sheila Naziazeno, mulher de Delmo. Buscavam um mimeógrafo do partido, convictos de que Sheila poderia conduzi-los até o objeto. Sheila foi libertada na mesma noite, mas o trauma ficou para sempre. Para os comunistas, o tempo na prisão variou conforme a culpa atribuída pelos militares. Para os mais perigosos, a temporada no inferno durou 40 dias. Os últimos a deixar o quartel do 18 do Forte foram Carivaldo Lima Santos (já falecido), Milton Coelho de Carvalho, Marcélio Bonfim e Jackson de Sá Figueiredo. Detalhe: Marcélio e Jackson haviam cursado a escola do partido na União Soviética. Afronta maior ao regime fardado não poderia haver. Wellington Mangueira foi outro militante que estudou na velha URSS. Figura emblemática do Partido Comunista de Sergipe, Mangueira sobreviveu a diversas prisões e inúmeras sessões de torturas, algumas delas ao lado da mulher Laura Mangueira. Embora já estivesse afastado da direção do partido quando estourou a Operação Cajueiro, ele não foi poupado. No quartel do 28º BC, Mangueira viveu um dos momentos mais dramáticos de sua militância política. Sob coação, assinou uma “carta renúncia” renegando seus ideais. A truculência do regime fardado não tinha limites. O caso de Rosalvo Alexandre Lima Filho é outro exemplo. Militante do MDB, Rosalvo estava em Viçosa, Minas Gerais, para se inscrever num curso de Mestrado. Alertado pela mulher Leila sobre as prisões que estavam acontecendo em Aracaju, ele foge para o Rio de Janeiro. Perambula em desespero pela capital, visita vários aparelhos do partido, mas retorna para Aracaju, onde acaba se homiziando na casa de uma amiga da família. Sem garantias de segurança, Rosalvo voltou para Viçosa, sendo finalmente capturado e encaminhado ao 28º BC. O desaparecimento de Rosalvo levou seus parentes a pedir a ajuda do deputado do MDB, José Carlos Teixeira, em Brasília. No dia 08 de março de 1976, o deputado fez um corajoso pronunciamento denunciando o sumiço do correligionário. Em meio ao clima de terror vivido durante o regime militar, os presos políticos sergipanos tiveram dificuldade em encontrar advogados que os defendessem das acusações da Justiça Militar. A causa foi aceita pela advogada baiana Ronilda Noblat, que, embora muito jovem, já era uma veterana defensora dos direitos humanos. Foi Ronilda quem assumiu a defesa dos 19 militantes sergipanos processados. O julgamento ocorreu na 6ª Circunscrição Militar, em Salvador, em 16 de agosto de 1978. Todos foram absolvidos. Dois anos já haviam se passado, desde os dramáticos acontecimentos do Carnaval de 1976. Mas os traumas ainda estavam presentes. As vítimas da Operação Cajueiro eram em sua maioria homens entre 23 e 40 anos. Protagonistas de uma das páginas mais brutais da política sergipana, eles ajudaram a escrever a história da luta pela justiça e pela democracia no Brasil.
Publicado originalmente no jornal Hora do Povo, edição 11. |
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