Webjornal - Mensal  - Edição 88 - Aracaju, 26 de março a 30 de abril  de 2006
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Reportagem

Nascer e crescer feliz

Ao deixar o aconchego do útero materno, a criança precisa de uma série de cuidados fundamentais para o seu bem-estar

Texto e foto:  Edwirges Nogueira*

O início da vida fora do útero é o grande desafio para mães e bebês e exige cuidados tão especiais quanto os prestados no período pré-natal. Logo após o parto, o recém-nascido recebe atenção para preveni-lo de contrair infecções que podem ser transmitidas pelo contato com a vagina da mãe. Cléia Castro, auxiliar de enfermagem, explica que, para evitá-los, são aspiradas as secreções do nariz e da boca do bebê e é administrada uma gota de nitrato de prata em cada um de seus olhos.

Após 24 horas, o bebê normal – nascido dentro das 38 semanas gestacionais – já pode ir para casa com a mãe. A partir de então, o recém-nascido pode contrair doenças comuns, como resfriados, assaduras e problemas de pele. Embora simples, elas exigem cuidados imediatos. De acordo com Cléia, a amamentação com leite materno evita estas e outras doenças comuns. “Os bebês que são amamentados no peito têm resfriados menos freqüentes e mais brandos. Também têm menos cólicas e infecções de ouvido”. Ana Maria, bebê nascido no dia 10 de janeiro, é um exemplo. Ângela Carvalho, sua mãe, somente a amamenta no peito e atribui a isso o fato de a filha não ter nenhuma destas doenças. 

Também é preciso ficar atento para o surgimento de doenças perinatais. De acordo com Osvaldo Candido, obstetra, essas doenças podem ocorrer 28 dias antes ou depois do parto – daí seu nome. Dentre as doenças mais comuns, como diarréia e desidratação, o obstetra destaca a icterícia, causada pelo excesso de bilirrubina no sangue, substância componente das hemácias, que provoca o amarelamento da pele do bebê. Segundo Ana Gomes, auxiliar de enfermagem, 70% dos recém-nascidos têm icterícia. “Nos casos mais leves, são recomendados banhos de sol. Já nos mais avançados, é necessário fototerapia – o bebê fica exposto à luz artificial – e tratamento com antibióticos e, nos mais raros, para evitar dano cerebral, é realizada uma transfusão de sangue”. 

Para tratar e evitar as doenças perinatais, Osvaldo diz que é fundamental amamentar o bebê no peito. Ele explica que o leite materno contém imunoglobulina (IGA), uma substância que o recém-nascido ainda não produz para protegê-lo de doenças, mas que a mãe lhe dá através de seu leite. Segundo ele, a amamentação também é eficaz no tratamento da icterícia, pois, na maioria das vezes, a doença passa quando o bebê começa a se alimentar e, ao defecar, elimina a bilirrubina pelas fezes. 

Superando a prematuridade

Os bebês que nascem antes de completar as 38 semanas previstas de gestação, chamados prematuros ou pré-termos, têm uma condição de saúde muito delicada, mas que pode ser superada com cuidados na maternidade. Pedro Leão, pediatra da Maternidade-escola Assis Chateaubriand (Meac), em Fortaleza, aponta as duas etapas pelas quais o bebê prematuro precisa passar: a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e o método mãe-canguru.

Na primeira, o recém-nascido precisa ficar, em média, por 40 dias ou até atingir 1,5 kg ao completar 30 dias de vida. Segundo o pediatra, o principal motivo que mantém um bebê na UTI – e também o que mais provoca mortes – é a prematuridade do pulmão. A síndrome do desconforto respiratório, como também é chamada, faz com que os pulmões do recém-nascido não produzam sulfactante, substância necessária para “afrouxar” os órgãos e permitir a respiração normal. Para que isso ocorra, ele é administrado artificialmente durante a permanência do bebê na incubadora.

A segunda etapa, o método mãe-canguru, consiste em manter o bebê aquecido dentro de uma “bolsa” que fica amarrada junto ao peito da mãe. De acordo com Pedro, é nesse momento em que há a sensibilização da mãe e o restabelecimento do vínculo mãe-filho, desfeito durante o tempo em que o bebê passa na UTI. Um dos objetivos do método mãe-canguru é fazer com que a mãe saia amamentando, pois os prematuros ainda não têm capacidade de sucção. Para estimulá-los, as mães utilizam o método da gaze, que consiste em embeber um pequeno rolo de gaze em leite materno e colocá-lo na boca do bebê para que ele sugue o líquido.

Guilherme, bebê nascido no dia 30 de dezembro, é alimentado por sua mãe, Cleonice dos Santos, de 21 anos, com leite materno através deste método e de uma sonda. Ele é amamentado com 38 ml de leite materno todos os dias, sendo 28 ml provenientes do banco de leite, pois a mãe não produz o suficiente. É Cleonice quem faz todo o processo de alimentação do filho. De acordo com Darcy Viana, técnica em enfermagem, “o método mãe-canguru procura ensinar a mãe a ser independente”.

O bebê começa a ser alimentado por via oral, segundo Pedro, quando atinge 34 semanas de vida e mais de 1,5 kg. Ele conta que, para esta fase ser plena, o recém-nascido precisa ser consultado por uma fonoaudióloga, que avalia se ele consegue ser alimentado normalmente. “Em geral, a decisão de alimentá-lo por via oral se dá no ‘feeling’, pela observação do desenvolvimento da criança”, diz.

O retorno para casa, de acordo com Pedro, depende da mãe e do filho igualmente. “É preciso aliar o preparo da mãe à sua produção de leite a ao peso satisfatório da criança”. Mesmo assim, a visita ao pediatra deve acontecer três vezes a cada 48 horas até ele atingir 2 kg para avaliar suas condições de saúde e a adaptação ao ambiente fora do hospital.

Até completar um ano de vida, o bebê é assistido pelos especialistas do Follow-up, núcleo da Meac que se destina a prestar acompanhamento auditivo, oftalmológico e, especialmente, neurológico. Segundo Pedro, a prematuridade pode deixar algumas seqüelas, como paralisias, déficits motores – que podem provocar dificuldades de locomoção -, pondo estatural – que se referem ao peso e ao tamanho da criança -, oftalmológicos e auditivos.

*Estudante de jornalismo da Universidade Federal do Ceará

                            

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