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Reportagem
Nascer e crescer feliz
Ao deixar o
aconchego do útero materno, a criança precisa de uma série de cuidados
fundamentais para o seu bem-estar
Texto e foto: Edwirges Nogueira*

O início da vida
fora do útero é o grande desafio para mães e bebês e exige cuidados tão
especiais quanto os prestados no período pré-natal. Logo após o parto, o
recém-nascido recebe atenção para preveni-lo de contrair infecções que
podem ser transmitidas pelo contato com a vagina da mãe. Cléia Castro,
auxiliar de enfermagem, explica que, para evitá-los, são aspiradas as
secreções do nariz e da boca do bebê e é administrada uma gota de nitrato
de prata em cada um de seus olhos.
Após 24 horas, o bebê normal – nascido dentro das 38 semanas gestacionais
– já pode ir para casa com a mãe. A partir de então, o recém-nascido pode
contrair doenças comuns, como resfriados, assaduras e problemas de pele.
Embora simples, elas exigem cuidados imediatos. De acordo com Cléia, a
amamentação com leite materno evita estas e outras doenças comuns. “Os
bebês que são amamentados no peito têm resfriados menos freqüentes e mais
brandos. Também têm menos cólicas e infecções de ouvido”. Ana Maria, bebê
nascido no dia 10 de janeiro, é um exemplo. Ângela Carvalho, sua mãe,
somente a amamenta no peito e atribui a isso o fato de a filha não ter
nenhuma destas doenças.
Também é preciso ficar atento para o surgimento de doenças perinatais. De
acordo com Osvaldo Candido, obstetra, essas doenças podem ocorrer 28 dias
antes ou depois do parto – daí seu nome. Dentre as doenças mais comuns,
como diarréia e desidratação, o obstetra destaca a icterícia, causada pelo
excesso de bilirrubina no sangue, substância componente das hemácias, que
provoca o amarelamento da pele do bebê. Segundo Ana Gomes, auxiliar de
enfermagem, 70% dos recém-nascidos têm icterícia. “Nos casos mais leves,
são recomendados banhos de sol. Já nos mais avançados, é necessário
fototerapia – o bebê fica exposto à luz artificial – e tratamento com
antibióticos e, nos mais raros, para evitar dano cerebral, é realizada uma
transfusão de sangue”.
Para tratar e evitar as doenças perinatais, Osvaldo diz que é fundamental
amamentar o bebê no peito. Ele explica que o leite materno contém
imunoglobulina (IGA), uma substância que o recém-nascido ainda não produz
para protegê-lo de doenças, mas que a mãe lhe dá através de seu leite.
Segundo ele, a amamentação também é eficaz no tratamento da icterícia,
pois, na maioria das vezes, a doença passa quando o bebê começa a se
alimentar e, ao defecar, elimina a bilirrubina pelas fezes.
Superando a
prematuridade
Os
bebês que nascem antes de completar as 38 semanas previstas de gestação,
chamados prematuros ou pré-termos, têm uma condição de saúde muito
delicada, mas que pode ser superada com cuidados na maternidade. Pedro
Leão, pediatra da Maternidade-escola Assis Chateaubriand (Meac), em
Fortaleza, aponta as duas etapas pelas quais o bebê prematuro precisa
passar: a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e o método mãe-canguru.
Na
primeira, o recém-nascido precisa ficar, em média, por 40 dias ou até
atingir 1,5 kg ao completar 30 dias de vida. Segundo o pediatra, o
principal motivo que mantém um bebê na UTI – e também o que mais provoca
mortes – é a prematuridade do pulmão. A síndrome do desconforto
respiratório, como também é chamada, faz com que os pulmões do
recém-nascido não produzam sulfactante, substância necessária para
“afrouxar” os órgãos e permitir a respiração normal. Para que isso ocorra,
ele é administrado artificialmente durante a permanência do bebê na
incubadora.
A
segunda etapa, o método mãe-canguru, consiste em manter o bebê aquecido
dentro de uma “bolsa” que fica amarrada junto ao peito da mãe. De acordo
com Pedro, é nesse momento em que há a sensibilização da mãe e o
restabelecimento do vínculo mãe-filho, desfeito durante o tempo em que o
bebê passa na UTI. Um dos objetivos do método mãe-canguru é fazer com que
a mãe saia amamentando, pois os prematuros ainda não têm capacidade de
sucção. Para estimulá-los, as mães utilizam o método da gaze, que consiste
em embeber um pequeno rolo de gaze em leite materno e colocá-lo na boca do
bebê para que ele sugue o líquido.
Guilherme, bebê nascido no dia 30 de dezembro, é alimentado por sua mãe,
Cleonice dos Santos, de 21 anos, com leite materno através deste método e
de uma sonda. Ele é amamentado com 38 ml de leite materno todos os dias,
sendo 28 ml provenientes do banco de leite, pois a mãe não produz o
suficiente. É Cleonice quem faz todo o processo de alimentação do filho.
De acordo com Darcy Viana, técnica em enfermagem, “o método mãe-canguru
procura ensinar a mãe a ser independente”.
O
bebê começa a ser alimentado por via oral, segundo Pedro, quando atinge 34
semanas de vida e mais de 1,5 kg. Ele conta que, para esta fase ser plena,
o recém-nascido precisa ser consultado por uma fonoaudióloga, que avalia
se ele consegue ser alimentado normalmente. “Em geral, a decisão de
alimentá-lo por via oral se dá no ‘feeling’, pela observação do
desenvolvimento da criança”, diz.
O
retorno para casa, de acordo com Pedro, depende da mãe e do filho
igualmente. “É preciso aliar o preparo da mãe à sua produção de leite a ao
peso satisfatório da criança”. Mesmo assim, a visita ao pediatra deve
acontecer três vezes a cada 48 horas até ele atingir 2 kg para avaliar
suas condições de saúde e a adaptação ao ambiente fora do hospital.
Até completar um ano de vida, o bebê é assistido pelos especialistas do
Follow-up, núcleo da Meac que se destina a prestar acompanhamento
auditivo, oftalmológico e, especialmente, neurológico. Segundo Pedro, a
prematuridade pode deixar algumas seqüelas, como paralisias, déficits
motores – que podem provocar dificuldades de locomoção -, pondo estatural
– que se referem ao peso e ao tamanho da criança -, oftalmológicos e
auditivos.
*Estudante
de jornalismo da Universidade Federal do Ceará
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