
Webjornal - Mensal - Edição 89 - Aracaju, 30 de abril a
04 de junho de 2006
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Reportagem Navegando contra o inimigo
De passagem por Salvador, navio do grupo
ambientalista Greenpeace atrai milhares de visitantes
Esteve aportado em Salvador, no período da Páscoa, o navio MY Arctic Sunrise pertencente ao grupo ambientalista Greenpeace. A viagem teve início em 01/04, saindo de Porto Alegre, passando por Santos, Salvador e Recife, terminando em Fortaleza no dia 30/04. Nos dias 15 e 16/04 o navio esteve aberto à visitação pública no porto de Salvador com recorde estimado de 5,5 mil visitantes. Os visitantes, além de conhecerem a embarcação, tiveram a oportunidade de ver uma exposição fotográfica, adquirir souvenirs do Greenpeace e participar de um documento (abaixo-assinado) pedindo o estabelecimento de uma “barreira verde” na Amazônia contra o desmatamento. Cidade Amiga da Amazônia Na pauta da visita do navio constou ainda a assinatura, pelo prefeito de Salvador (João Henrique Carneiro), do termo de compromisso com o Cidade Amiga da Amazônia. Salvador foi a primeira cidade do Nordeste e a 30ª no Brasil a aderir ao programa criado pelo Greenpeace. O programa estabelece que as prefeituras signatárias devem adotar leis que evitem o consumo de madeira nativa de origem criminosa nas compras e licitações públicas. Mais da metade da madeira produzida na Amazônia tem origem ilegal e contribui para o desmatamento que já alcança proporções alarmantes. A taxa anual de desmatamento na Amazônia Legal, no período de agosto 2003 a agosto/2004, foi de 26.130 km2 e equivale a mais de 8,6 mil campos de futebol por dia. O Greenpeace acredita que as prefeituras podem dar um bom exemplo de consumo responsável uma, vez que são grandes consumidoras de madeira usada em obras públicas de construção civil. Guerreiros do Arco Íris "Um dia, a Terra vai adoecer. Os pássaros cairão do céu, os mares vão escurecer e os peixes aparecerão mortos na correnteza dos rios. Quando esse dia chegar, os índios perderão o seu espírito. Mas vão recuperá-lo para ensinar ao homem branco a reverência pela sagrada terra. Aí, então, todas as raças vão se unir sob o símbolo do arco-íris para terminar com a destruição. Será o tempo dos Guerreiros do Arco-Íris." Esta profecia, feita há mais de 200 anos por “Olhos de Fogo”, uma velha índia Cree, parece ser a crença maior dos ativistas do Greenpeace, movimento fundado em 1971 no Canadá que hoje tem sede na Holanda e escritórios em 41 países, dos quais 3 no Brasil: Manaus, São Paulo e Brasília. A crença na profecia é tão forte que os ativistas do Greenpeace são conhecidos mundialmente como “Guerreiros do Arco-Íris”. O primeiro navio da ONG foi batizado de Rainbow Warrior (Guerreiro do Arco-Íris, em inglês). Por definição, o Greenpeace é uma entidade sem fins lucrativos que fundamenta sua ação nos seguintes princípios: prática do testemunho ocular; adesão à não-violência; caracteriza-se pela atuação de ativistas, que colocam-se pessoalmente como barreira ao dano ambiental; é independente financeiramente de empresas, governos e partidos políticos; tem atuação internacional e não estabelece alianças com partidos e não toma posições políticas, exceto no que diz respeito à proteção do meio ambiente e da paz. A visita Uma longa e organizada fila se formou na calçada do Armazém 1 do porto de Salvador no sábado e domingo da visita. Dezenas de voluntários ajudavam a organizar a recepção e o acesso. A coordenação do Greenpeace afirma que assim como o número de visitantes, o número de voluntários locais foi igualmente espantoso. Tanto que os visitantes nem tiveram contato com os tripulantes que foram poupados deste trabalho, inclusive porque nem todos falam português, já que são de várias nacionalidades e a língua oficial de comunicação do movimento é o inglês. Enquanto aguardavam no interior do armazém, para entrar no navio, os visitantes apreciavam as mais de 70 fotos que mostravam as belezas da Amazônia. Logo após passarem por este ambiente, ainda na área do cais do porto, um voluntário reunia o grupo para uma breve conversa antes do embarque: “Senhores, boa noite. Agradecemos pela sua paciência, mas sabemos também que vocês não vieram tão somente ver um navio e sim conhecer o nosso trabalho. Nesta visita estamos em campanha pela Amazônia”. E, pedindo a uma mãe licença para usar seu filho como exemplo, prosseguiu: - Como é seu nome, garoto? Perguntou. - Igor, respondeu o garoto. - Pois é, gente, lá na cidade de Ariquemes na região amazônica tem vários garotinhos como o Igor, só que a maioria deles com um dedinho a menos numa das mãos. É que eles, ao invés de estarem na escola, estão trabalhando na exploração ilegal de madeira e perdem o dedo na serra elétrica. Portanto, pessoal, quando a gente fala de lutar contra o desmatamento ilegal, não estamos falando só de preservar a floresta. Estamos falando também de qualidade de vida das populações. Depois de discorrer sobre alguns números do desmatamento na Amazônia, o voluntário aconselhou as pessoas a verificarem a origem da madeira utilizada nas suas próprias construções, reformas e móveis adquiridos prontos ou sob encomenda. “A madeira comercializada legalmente tem um certificado que se chama ATPF (Autorização de Transporte de Produto Florestal). Vão até o depósito de onde veio a madeira e exijam este documento. É a garantia de que a madeira é explorada com o devido manejo. Não tenham preguiça disso porque vocês estarão fazendo uma boa causa. Perguntamos ao nosso amigo voluntário se não havia uma forma mais prática de se reconhecer um produto de madeira explorada legalmente, um certificado de garantia de origem que fosse outorgado às fábricas de móveis por um órgão fiscalizador. E ele respondeu: - FSC, grave bem estas três letras. É o órgão certificador que você imagina. Em seguida embarcamos no navio e fomos recebidos por uma voluntária. Ela nos explicou que a razão da bandeira holandesa na popa do navio devia-se ao fato de ele ter sido registrado na cidade onde funciona atualmente a sede da organização. O navio dispõe de um pequeno heliporto para pouso da aeronave que o auxilia nas atividades. Seguimos para a ponte de comando e sentimos que o barco balança demasiadamente. A explicação dada é que, por ser quebra-gelo, o navio precisa dessa flexibilidade para navegar. Já na ponte de comando, fomos recebidos por Lata, um ambientalista santista, hoje lecionando em Brasília que nos contou que ganhou esse apelido no começo da sua vida de ativista quando se vestiu de lata de alumínio para uma campanha. Embora cansado, era visível a satisfação dele em nos receber. Ele informou que o navio era dotado de equipamentos modernos de navegação, mas, acima de tudo, enfatizou que estavam muito contentes em receber tantas pessoas interessadas na causa do Greenpeace. - Esta campanha é voltada, principalmente para as crianças. Elas são a nossa esperança, pois já vimos que falar para os adultos não adianta. Mas quando conseguimos convencer uma criança da importância da preservação do meio ambiente, temos esperança de que ela assuma uma atitude pró-ativa e de que até fale para seus pais. O adulto-pai vai dar ouvidos ao seu filho mais facilmente do que a nós, desabafou Lata. Já eram quase 19 horas, a visita deveria ter-se encerrado às 17 e por isso não nos foi permitido entrar em outras partes internas do navio. Ao sair do navio, concluímos que, de fato, o Greenpeace conseguiu dar o seu recado à população e marcar um ponto importante na luta pela preservação do meio-ambiente. Aliás, o Arctic Sunrise, além de ser um dos navios da frota, é um troféu importante conquistado nesta luta. O navio, construído em 1975, se chamava Polar Bjorn, e era usado para a caça de focas. Nos anos 80 o navio entrou em confronto com o Greenpeace até que, em 1996, foi adquirido pela organização. Submetido a algumas modificações e batizado de Arctic Sunrise, passou desde então a atuar do outro lado da trincheira, pela preservação do ambiente, pela vida.
*Fotógrafo amador, ex- publicitário e bancário da Caixa Econômica Federal. Reside em Salvador |
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