Webjornal - Mensal  - Edição 90 - Aracaju,  04 de junho a 09 de julho de 2006
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Reportagem

A volta das figurinhas**

Um hobby que já foi a mania das crianças renasce com toda a força em Niterói e atrai adultos

Por Paulo Marcio Vaz*
Foto Peter Llicciev

Não há mais video-game, computador ou programa de TV que os segure em casa. A mais nova onda em Niterói para crianças, adolescentes, adultos e idosos - principalmente nos finais de semana - é sair às ruas para trocar figurinhas. Gente de todas as idades e classes sociais se encontra, em geral próximo às bancas de jornais. E começam as negociações:

 

- Meu Ronaldinho eu só troco por cinco figurinhas!

- Que isso, rapaz! Assim não dá!

- Ué, se o senhor não quiser, eu troco com aquele moço ali...

-Tá bom, vai...passa pra cá.

 

O diálogo acima se dá entre o garoto Matheus, de 12 anos, e o professor João Vidal, de 43, que acaba cedendo: “Aqui quem manda é a garotada”, diz o professor.

Quem chega pela primeira vez aos sábados ou domingos de manhã na esquina das ruas Tavares de Macedo com Presidente Backer, em Icaraí, se surpreende com o movimento. No último sábado, cerca de 300 pessoas circulavam na área com um único objetivo: conseguir o máximo de figurinhas para seus álbuns. A funcionária da banca de jornais, Ana Carla, de 20 anos, já não se espanta mais com o movimento:

“Quando meu irmão comprou a banca, essa loucura já existia. Eu acho que a gente perde um pouco da privacidade e também acabamos sempre fechando mais tarde mas, no fim das contas, eu me divirto”, conta Ana.

Jogo de bafo – Essa verdadeira febre das figurinhas acabou trazendo de volta algumas velhas brincadeiras, como o jogo de bafo, no qual os colecionadores juntam suas figurinhas de cabeça para baixo numa pilha e tentam virá-las batendo com a mão em cima da pilha de figurinhas. Quem virar, leva.

“Mas não vale encostar nas figurinhas!”, alerta o menino Matheus, de 12 anos, que “enfrenta” seu mais novo amigo Vinícius, de 7, que acabou de conhecer.

Alguns se aproveitam da situação para também faturar um troco a mais. É o caso do flamenguista Max Júnior, 28 anos, que nos finais de semana reforça o orçamento vendendo suas figurinhas na área. Ele já se tornou popular entre os colecionadores:

“Durante a semana eu vendo cartões telefônicos no Centro. Mas sábado e domingo estou sempre aqui. É uma loucura. Eu sonho com números, escudos, jogadores de futebol e nem durmo direito”, diz Max, enquanto atende uma vovó que negocia o escudo da CBF por 1 real para seu netinho, de 3 anos.

Preços - No mercado, as figurinhas com os escudos das seleções - chamadas de “prateadas” - custam mais caro, podendo variar entre R$ 1 e R$ 3 cada. Já o cromo de um jogador comum sai por R$ 0,10, podendo chegar a R$ 0,30.

“Mas já vi gente cobrando até R$ 15 por uma figurinha, diz Kauê Monassa, dono da banca de jornais Simpatia, na esquina das ruas Moreira César e Comendador Queiroz, ainda em Niterói, que também apostou no mercado das figurinhas.

“Quando vi o movimento em torno da banca da Tavares de Macedo, resolvi copiar a idéia”, confessa Kauê.

O clima da Comendador Queiroz é mais tranqüilo e familiar, com mesas e cadeiras onde os “comerciantes” fazem negócios. Na Simpatia também há promoções. Quem comprar a partir de cinco reais em figurinhas tem direito a estourar um balão de gás, onde pode estar contido um vale-empada (que pode ser trocado na carrocinha da esquina) ou 10 pacotes de figurinhas.

“Fui o primeiro a estourar o balão!”, conta, com orgulho, o menino Eduardo, de 11 anos que apesar de não ter ganho nada, mostra o brilho nos olhos de quem, naquela hora, nem lembra mais do computador e do vídeo-game. Os pais agradecem.

*Estudante de jornalismo da Facha, RJ,  e repórter do jornal O Fluminense, de Niterói/RJ, onde a matéria foi originalmente publicada

                            

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