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Reportagem
A surpresa de Caetano
O cantor e compositor baiano inova no
novo CD, a começar pela escolha da banda, um trio formado por
músicos anônimos
Por Paulo
Marcio Vaz*
Fotos Divulgação

Do alto de seus 64 anos de idade, Caetano Veloso
poderia chamar quem quisesse para gravar seu novo disco - qualquer
instrumentista “medalhão” sairia correndo para o estúdio ao primeiro
chamado do artista. Mas após incontáveis lançamentos ao longo da carreira,
entre solos, parcerias, trilhas e shows ao vivo, o cantor surpreende o
mercado ao lançar Cê, um disco cheio de novidades, desde as 12
músicas inéditas, até a formação da banda, na verdade, um power trio
formado por jovens e, até então, anônimos músicos: o baixista Ricardo Dias
Gomes, de 26 anos; o baterista Marcelo Callado, 27; e o guitarrista Pedro
Sá, este último o único que já trabalhava com Caetano e já com alguma
“fama”.
Em entrevista coletiva realizada na última quarta-feira, no
auditório da Rádio Nacional, no Rio, na companhia de seus mais novos
colegas de empreitada, o cantor afirmou que nunca havia terminado um disco
com uma satisfação tão grande como este e se dispôs a responder quaisquer
perguntas, mesmo sem relação com o novo trabalho. É bem verdade que não
chegou, por exemplo, a declarar seu voto para presidente, mas deu algumas
pistas ao dizer que não votará em Lula “em hipótese alguma” e que havia
pensado em votar em Heloísa Helena, apesar de já ter desistido da idéia:
“Acho que os sonhos dela, realmente, não passam de sonhos”, disse.
Sobre sua recente separação da produtora Paula Lavigne,
Caetano confirma que a primeira música de trabalho do disco, Não Me
Arrependo, foi realmente escrita para a ex-mulher:
“É claro que foi pra Paula, minha última companheira”, diz.
A vitalidade e jovialidade encontradas não só no disco, mas
também no próprio Caetano que, definitivamente, não aparenta a idade que
tem, acabam não afinando com a própria opinião do cantor:
“Todo mundo diz que estou mais bonito hoje, apesar da minha idade. Eu
discordo. Sinto um prazer narcísico ao folhear revistas antigas e ver
minhas fotos de quando eu era mais jovem. Hoje, não me acho bonito”, diz
ele.
Banda Jovem
A idéia de convidar músicos até então desconhecidos do
cantor para a gravação de Cê, partiu do produtor Pedro Sá,
amigo de Caetano e considerado por ele como um verdadeiro filho:

“Conheço o Pedro desde menino. Quando mostrei as idéias que
tinha para as novas canções, ele sugeriu esses músicos que eu até já
conhecia de encontrar em festas e alguns poucos shows, mas nada muito além
disso. Quando chegamos no estúdio para começar os ensaios, mostrei as
músicas e expliquei o que eu tinha em mente para os arranjos. Eles pegaram
tudo muito rápido e fizeram ainda melhor do que eu havia imaginado”, diz
Caetano.
Ricardo Dias Gomes, que nunca havia gravado com um artista
do porte de Caetano, diz ter se sentido muito à vontade:
“Logo no primeiro dia, me senti totalmente livre para criar
em cima das idéias que o Caetano havia nos proposto, com arranjos pouco
convencionais. Este é um disco de banda e, estilisticamente, não é
definível como ‘disco de alguma coisa’”, diz ele.
Moreno Veloso, filho de Caetano, foi chamado para colaborar
na produção musical:
“Pedro me chamou pois precisava de alguém que pudesse ter
uma visão ‘de fora’ do estúdio. Cheguei praticamente no último ensaio
antes da gravação, que foi feita praticamente toda de forma analógica, em
fita de duas polegadas, como antigamente. A banda tocou junta, como se
fosse ao vivo, e nenhum recurso de edição digital foi usado, com excessão
dos vocais de Jonas Sá, na musica Herói, já que ele mesmo gravou
em casa”, afirma Moreno.
Crírita - Cê
Surpresa. Essa talvez seja a primeira sensação de quem ouve Cê, o
novo disco de Caetano Veloso. Após tantas experiências adquiridas ao longo
da carreira e dos outros 39 discos que já gravou, Caetano optou por uma
das formas mais básicas, típicas das bandas de rock em início de carreira
para realizar seu novo trabalho: o power trio (guitarra, baixo e
bateria), com direito apenas a “intrusão” de um discreto piano Rhodes.
Porém, apesar de os músicos que o acompanham serem bastante
jovens, Caetano não é um garoto e a mistura de sua maturidade com a
“crueza” de Marcelo Callado (bateria), Ricardo Dias Gomes (baixo e piano)
e Pedro Sá (guitarra) resultou numa obra prima.
Com todas as 12 músicas compostas exclusivamente por Caetano, que não se
lembra de outro disco no qual todas as composições fossem só suas, Cê
apresenta uma sonoridade única do início ao fim, sem que isso
signifique monotonia. Destaque para Rocks que, como o próprio nome
sugere, é a mais “roquenrou” do disco, não só no som, como na própria
levada. Já nos outros momentos do disco, fica difícil identificar um
estilo, o que só contribui para que Cê seja exatamente aquilo que o
próprio Caetano sugere como um conceito ideal: a não-rotulagem.
Um
bom exemplo dessa liberdade estilística é Por Que?, cuja letra
contém apenas três versos: “Estou-me a vir/e tu como é que te tens por
dentro?/ Porquê não te vens também?”. Cantada com sotaque português, o
primeiro verso é repetido incansavelmete por Caetano, numa homenagem a
forma com que nossos patrícios portugueses encontraram para definirem o
clímax sexual.
Dentre as poucas canções que refletem experiências reais de Caetano,
impossível não percebermos a clara mensagem para a ex-esposa, Paula
Lavigne, em Não me arrependo: “Eu não me arrependo de você/ ce não
devia me maldizer assim/ vi você crescer/ fiz você crescer...”. Também há
uma belíssima homenagem em Wally Salomão, música em homenagem ao
poeta e amigo de Caetano, com arranjo em clima de marcha fúnebre, com uma
espécie de surdo marcando constentemente o primeiro tempo, enquanto os
versos rolam soltos: “Meu grande amigo/desconfiado e estridente/eu sempre
tive comigo/que eras na verdade/delicado e inocente”.
Diversidade étnica também é tema recorrente em algumas faixas, como em
Musa Híbrida (“...de olho verde e carapinha cúprica...”) e O Herói
(“...quero ser negro 100%. Americano,/sul-africano, tudo menos o
santo/ que a brisa do Brasil beija e balança).
O
título Cê, na verdade, não se remete a nenhuma faixa em
especial. Não há qualquer música chamada Cê. Mas em muits letras,
“cê” está presente. Enfim, musicalmente falando, Ce é uma espécie
de ode à liberdade e à jovialidade, tenha ela a idade que tiver.
*Estudante de jornalismo da
Facha/RJ e repórter do jornal O Fluminense, de Niterói
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