Webjornal - Mensal  - Edição 93 - Aracaju, 17 de setembro a 15 de outubro  de 2006
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Reportagem

A surpresa de Caetano

O cantor e compositor baiano inova no novo CD, a começar pela escolha da banda, um trio formado por músicos anônimos

Por Paulo Marcio Vaz*
Fotos Divulgação

Do alto de seus 64 anos de idade, Caetano Veloso poderia chamar quem quisesse para gravar seu novo disco - qualquer instrumentista “medalhão” sairia correndo para o estúdio ao primeiro chamado do artista. Mas após incontáveis lançamentos ao longo da carreira, entre solos, parcerias, trilhas e shows ao vivo, o cantor surpreende o mercado ao lançar , um disco cheio de novidades, desde as 12 músicas inéditas, até a formação da banda, na verdade, um power trio formado por jovens e, até então, anônimos músicos: o baixista Ricardo Dias Gomes, de 26 anos; o baterista Marcelo Callado, 27; e o guitarrista Pedro Sá, este último o único que já trabalhava com Caetano e já com alguma “fama”.

Em entrevista coletiva realizada na última quarta-feira, no auditório da Rádio Nacional, no Rio, na companhia de seus mais novos colegas de empreitada, o cantor afirmou que nunca havia terminado um disco com uma satisfação tão grande como este e se dispôs a responder quaisquer perguntas, mesmo sem relação com o novo trabalho. É bem verdade que não chegou, por exemplo, a declarar seu voto para presidente, mas deu algumas pistas ao dizer que não votará em Lula “em hipótese alguma” e que havia pensado em votar em Heloísa Helena, apesar de já ter desistido da idéia: “Acho que os sonhos dela, realmente, não passam de sonhos”, disse.

Sobre sua recente separação da produtora Paula Lavigne, Caetano confirma que a primeira música de trabalho do disco, Não Me Arrependo, foi realmente escrita para a ex-mulher:

“É claro que foi pra Paula, minha última companheira”, diz.

A vitalidade e jovialidade encontradas não só no disco, mas também no próprio Caetano que, definitivamente, não aparenta a idade que tem, acabam não afinando com a própria opinião do cantor:

“Todo mundo diz que estou mais bonito hoje, apesar da minha idade. Eu discordo. Sinto um prazer narcísico ao folhear revistas antigas e ver minhas fotos de quando eu era mais jovem. Hoje, não me acho bonito”, diz ele.

Banda Jovem

A idéia de convidar músicos até então desconhecidos do cantor para a gravação de , partiu do produtor Pedro Sá, amigo de Caetano e considerado por ele como um verdadeiro filho:

“Conheço o Pedro desde menino. Quando mostrei as idéias que tinha para as novas canções, ele sugeriu esses músicos que eu até já conhecia de encontrar em festas e alguns poucos shows, mas nada muito além disso. Quando chegamos no estúdio para começar os ensaios, mostrei as músicas e expliquei o que eu tinha em mente para os arranjos. Eles pegaram tudo muito rápido e fizeram ainda melhor do que eu havia imaginado”, diz Caetano.

Ricardo Dias Gomes, que nunca havia gravado com um artista do porte de Caetano, diz ter se sentido muito à vontade:

“Logo no primeiro dia, me senti totalmente livre para criar em cima das idéias que o Caetano havia nos proposto, com arranjos pouco convencionais. Este é um disco de banda e, estilisticamente, não é definível como ‘disco de alguma coisa’”, diz ele.

Moreno Veloso, filho de Caetano, foi chamado para colaborar na produção musical:

“Pedro me chamou pois precisava de alguém que pudesse ter uma visão ‘de fora’ do estúdio. Cheguei praticamente no último ensaio antes da gravação, que foi feita praticamente toda de forma analógica, em fita de duas polegadas, como antigamente. A banda tocou junta, como se fosse ao vivo, e nenhum recurso de edição digital foi usado, com excessão dos vocais de Jonas Sá,  na musica Herói, já que ele mesmo gravou em casa”, afirma Moreno.

Crírita - Cê 

Surpresa. Essa talvez seja a primeira sensação de quem ouve , o novo disco de Caetano Veloso. Após tantas experiências adquiridas ao longo da carreira e dos outros 39 discos que já gravou, Caetano optou por uma das formas mais básicas, típicas das bandas de rock em início de carreira para realizar seu novo trabalho: o power trio (guitarra, baixo e bateria), com direito apenas a “intrusão” de um discreto piano Rhodes.

Porém, apesar de os músicos que o acompanham serem bastante jovens, Caetano não é um garoto e a mistura de sua maturidade com a “crueza” de Marcelo Callado (bateria), Ricardo Dias Gomes (baixo e piano) e Pedro Sá (guitarra) resultou numa obra prima.

Com todas as 12 músicas compostas exclusivamente por Caetano, que não se lembra de outro disco no qual todas as composições fossem só suas, apresenta uma sonoridade única do início ao fim, sem que isso signifique monotonia. Destaque para Rocks que, como o próprio nome sugere, é a mais “roquenrou” do disco, não só no som, como na própria levada. Já nos outros momentos do disco, fica difícil identificar um estilo, o que só contribui para que seja exatamente aquilo que o próprio Caetano sugere como um conceito ideal: a não-rotulagem.

Um bom exemplo dessa liberdade estilística é Por Que?, cuja letra contém apenas três versos: “Estou-me a vir/e tu como é que te tens por dentro?/ Porquê não te vens também?”. Cantada com sotaque português, o primeiro verso é repetido incansavelmete por Caetano, numa homenagem a forma com que nossos patrícios portugueses encontraram para definirem o clímax sexual.

Dentre as poucas canções que refletem experiências reais de Caetano, impossível não percebermos a clara mensagem para a ex-esposa, Paula Lavigne, em Não me arrependo: “Eu não me arrependo de você/ ce não devia me maldizer assim/ vi você crescer/ fiz você crescer...”. Também há uma belíssima homenagem em Wally Salomão, música em homenagem ao poeta e amigo de Caetano, com arranjo em clima de marcha fúnebre, com uma espécie de surdo marcando constentemente o primeiro tempo, enquanto os versos rolam soltos: “Meu grande amigo/desconfiado e estridente/eu sempre tive comigo/que eras na verdade/delicado e inocente”.

Diversidade étnica também é tema recorrente em algumas faixas, como em Musa Híbrida (“...de olho verde e carapinha cúprica...”) e O Herói (“...quero ser negro 100%. Americano,/sul-africano, tudo menos o santo/ que a brisa do Brasil beija e balança).

O título , na verdade, não se remete a nenhuma faixa em especial. Não há qualquer música chamada . Mas em muits letras, “cê” está presente. Enfim, musicalmente falando, Ce é uma espécie de ode à liberdade e à jovialidade, tenha ela a idade que tiver.

*Estudante de jornalismo da Facha/RJ e repórter do jornal O Fluminense, de Niterói

                            

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